Artigo

Pesquisa clínica também é uma forma de cuidado

Aproximar a pesquisa clínica da assistência é também uma forma de acolher, informar e ampliar as possibilidades que podem ser discutidas durante o tratamento

Nesse caminho, é fundamental que eles conheçam as possibilidades de tratamento disponíveis e tenham ao lado uma equipe multidisciplinar capaz de orientar cada escolha     -  (crédito: Freepik               )
Nesse caminho, é fundamental que eles conheçam as possibilidades de tratamento disponíveis e tenham ao lado uma equipe multidisciplinar capaz de orientar cada escolha - (crédito: Freepik )

Por: Carlos dos Anjos Oncologista do Hospital Sírio-Libanês — Receber o diagnóstico de câncer de mama é um momento que traz muitas dúvidas, medos e incertezas. Para o paciente e sua família, começa uma jornada marcada por consultas, exames e decisões importantes. Nesse caminho, é fundamental que eles conheçam as possibilidades de tratamento disponíveis e tenham ao lado uma equipe multidisciplinar capaz de orientar cada escolha. É também nesse contexto que a pesquisa clínica precisa ser compreendida como parte do cuidado. Estudos clínicos permitem avaliar novas estratégias terapêuticas e, em determinadas situações, podem oferecer aos pacientes acesso a tratamentos que ainda não fazem parte da prática habitual. 

No câncer de mama, essa possibilidade merece atenção especial. A doença reúne diferentes subtipos, com características e comportamentos próprios, de modo que um tratamento indicado para uma paciente pode não ser adequado para outra. Em determinadas situações, a participação em um estudo clínico pode representar uma alternativa relevante, desde que a paciente atenda aos critérios da pesquisa e apresente condições de saúde compatíveis com o tratamento proposto. O acesso a essas oportunidades, porém, ainda enfrenta barreiras. Muitas pacientes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) sequer sabem que esses estudos existem. Outras, mesmo preenchendo os requisitos para participar, não chegam aos centros de pesquisa por falta de informação, dificuldades de deslocamento ou ausência de uma rede organizada de encaminhamento. Soma-se a isso a sobrecarga de trabalho dos médicos da rede pública, que dificulta a identificação e o encaminhamento de potenciais participantes. Ampliar o acesso à pesquisa clínica exige, portanto, mais do que oferecer estudos: é preciso criar caminhos para que as pacientes conheçam essas oportunidades e consigam chegar até elas. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

No Sírio-Libanês, estamos construindo caminhos para ampliar o acesso de pacientes do SUS à pesquisa clínica. Um exemplo é o projeto desenvolvido em parceria com o Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSK), dos Estados Unidos, no âmbito do Pan-American Cancer Consortium (PACC). A iniciativa conecta hospitais que atendem pelo SUS a centros de pesquisa em oncologia no Brasil e tem como peça central a atuação de enfermeiras navegadoras, profissionais dedicadas a identificar potenciais participantes e apoiar seu encaminhamento. Nos hospitais participantes, essas enfermeiras reúnem informações dos prontuários sobre a doença e os tratamentos já realizados e organizam a oferta de biópsia líquida, um exame de sangue que permite investigar alterações genéticas do tumor. A análise conjunta dessas informações ajuda a identificar estudos clínicos compatíveis com o perfil de cada paciente. Quando surge uma oportunidade, as navegadoras, em articulação com a equipe assistencial, fazem a conexão com o centro onde o estudo está sendo conduzido e apoiam o encaminhamento. Nesse centro, a equipe de pesquisa verifica se o paciente atende aos critérios de participação e explica os possíveis benefícios e riscos envolvidos. O projeto cria, assim, uma busca ativa por oportunidades de pesquisa e oferece apoio para que o paciente percorra o caminho entre sua identificação no SUS e a avaliação para um estudo clínico. 

Um dos recursos em desenvolvimento, a ser utilizado num futuro próximo, para dar celeridade, abrangência e eficácia ao projeto é a inteligência artificial (IA). A ferramenta, que encontra-se em desenvolvimento no MSK, cruza informações clínicas e moleculares com dados de mais de 200 estudos oncológicos ativos no Brasil. Entre os aspectos considerados, estão as características do tumor, os marcadores moleculares, o quadro clínico e a localização geográfica do paciente. Os testes de biópsia líquida, que analisam fragmentos de DNA tumoral circulante no sangue, contribuem para identificar alterações moleculares relevantes. Com o cruzamento dessas informações, a tecnologia ajuda a localizar pesquisas que mereçam ser avaliadas para cada caso. Isso não significa que a IA escolha o tratamento ou determine quem poderá participar. Ela funciona como uma ferramenta de apoio à identificação de oportunidades; a avaliação médica, a confirmação dos critérios de elegibilidade e a decisão do paciente continuam sendo etapas indispensáveis. 

É importante lembrar que participar de um estudo clínico não representa garantia de cura ou de resposta ao tratamento. Toda pesquisa tem critérios próprios, possíveis riscos e benefícios que precisam ser explicados com clareza. A participação deve ser voluntária, com consentimento informado e acompanhamento adequado. Ao mesmo tempo, ampliar o acesso de pacientes do SUS a essas oportunidades é uma questão de equidade. A possibilidade de conhecer um estudo clínico não deveria depender apenas da renda, do endereço ou da proximidade de um grande centro médico. Incluir pacientes de diferentes realidades também pode contribuir para que a pesquisa reflita melhor a diversidade da população brasileira. 

Sabemos que cada paciente tem uma história, uma família e expectativas que vão muito além do diagnóstico. Por isso, aproximar a pesquisa clínica da assistência é também uma forma de acolher, informar e ampliar as possibilidades que podem ser discutidas durante o tratamento. Diante do câncer, cada nova possibilidade pode representar esperança, tempo e a chance para seguir em frente.

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 19/10/2026 06:00
x