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Debate à Presidência: faltou método de governo

O problema central do primeiro debate de Luiz Inácio da Silva e Flávio Bolsonaro não foi o estilo de nenhum dos dois. Foi a ausência de método de governo

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Giuliana Franco — cientista política

Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentaram pela primeira vez, na Band, a sete dias do segundo turno. Pelo critério de quem apresentou melhor um projeto de país, o resultado foi um empate negativo: nenhum dos dois cumpriu essa função. A cobertura jornalística registrou ataques pessoais, poucas propostas e um primeiro bloco de confronto livre que analistas da AtlasIntel e da Arko Advice classificaram como caótico. Avaliaram também que Flávio definiu os temas, atraiu Lula para o terreno das denúncias e usou a segurança pública como bandeira recorrente.

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Os colunistas de O Globo deram nota média 2,3 a Flávio e 2,2 a Lula, em escala de 1 a 5, diferença que não permite falar em vencedor. Tendências Consultoria e Míriam Leitão viram Lula melhor, por se manter nos temas e propor a abertura de sigilo bancário e telefônico dos dois, proposta que Flávio não aceitou. CNN e Jovem Pan informaram que as próprias campanhas e pesquisas qualitativas feitas durante a transmissão não identificaram mudança de voto. 

Quatro momentos concentraram a atenção. Flávio insistiu no caso Roberta Luchsinger e no escândalo do INSS. Lula cobrou os R$ 134 milhões pedidos a Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse. Ao citar a pandemia, Lula obteve de Flávio um mea culpa sobre a saúde no governo do pai. E Lula chamou Flávio de malandro carioca, frase apontada como seu principal erro. Do lado do senador, o ponto negativo mais citado foi a quantidade de perguntas deixadas sem resposta, superior à de Lula. 

A repercussão trouxe outros pontos. O Estadão Verifica confirmou duas falas de Lula — sobre o voto de Flávio contra a licença-maternidade na Alerj e sobre a defesa de privatizar 95% das estatais — e classificou como exagerada a afirmação de Flávio de que o PT governou 20 dos últimos 24 anos. Nas pesquisas, Flávio lidera numericamente em 11 de 13 levantamentos: Datafolha 51 x 49, Quaest 51,1 x 48,9 e AtlasIntel 52,8 x 47,2 em votos válidos.

Com esses dados postos, a pergunta sobre quem venceu precisa ser desdobrada em duas, porque cada uma tem resposta própria. A primeira é quem se comunicou melhor para as redes. A resposta é Flávio. Ele permaneceu na tela durante o tempo do adversário, produziu reações feitas para virar cortes e manteve a iniciativa dos temas do início ao fim. A segunda é quem trouxe mais conteúdo. A resposta é Lula. Ele apresentou mais dados, mais propostas e mais consistência de informação, mas não converteu esse material em convencimento. O eleitor indeciso ou pendular vai decidir conforme o critério que mais lhe importa, a forma ou o conteúdo, e os números das pesquisas mostram que esse eleitor ainda não escolheu.

O problema central do debate, porém, não foi o estilo de nenhum dos dois. Foi a ausência de método de governo. O eleitor já conhece o modo de governar de Lula, com seus acertos e limites. Sobre Flávio, as dúvidas seguem abertas. O que é o Ministério da Prosperidade e como será organizado? Qual é a política de encarceramento e quanto ela custa ao orçamento? Que tipo de criminoso ele pretende combater se banqueiros e seu próprio pai estão hoje sob custódia do Estado? Um candidato que não responde a essas perguntas transfere para o eleitor o risco de descobrir as respostas depois da posse.

A desenvoltura de Flávio tampouco esclarece sua capacidade de lidar com conflitos reais. Em negociação internacional, em crise institucional ou em tema de soberania, não há espaço para chacota, para ignorar perguntas ou para descredibilizar o interlocutor. Também chamou atenção o etarismo dirigido a um presidente em exercício e com trajetória internacional. O recurso mobiliza a militância, mas pode gerar rejeição entre eleitores que valorizam experiência.

Lula, por sua vez, manteve-se firme, porém abatido. Faltaram agilidade nas réplicas e uma tática simples diante de um adversário que não respondia: perguntar e, na tréplica, responder pelo próprio Flávio, dizendo em voz alta a resposta que ele evitou dar. Assim, cada fuga do senador viraria conteúdo do presidente, e o silêncio do adversário teria custo. O Lula de 1989 provavelmente teria reagido com mais combatividade à postura de Flávio do que o Lula de 2026. Ao final, o contraste entre as equipes dizia muito: o entorno de Flávio comemorava; o de Lula, incluindo a primeira-dama, não.

O debate da Globo, na sexta-feira, dia 23, vai mostrar se cada campanha aprendeu com o primeiro encontro. Dois pontos merecem observação: se Flávio mantém a tática de provocação em um formato mais controlado e se Lula recupera a iniciativa e transforma seu repertório em resposta direta. Postura, conteúdo e comportamento serão avaliados por um eleitorado que, a menos de uma semana da votação, está em empate técnico. Para quem acompanha a eleição pelo que ela diz sobre o país, o saldo do primeiro debate é claro: houve disputa de imagem, mas ainda não houve disputa de projeto.

 

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Por Opinião
postado em 20/10/2026 05:00
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