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O voto não canoniza candidatos

Na hora de votar, a pergunta decisiva não é qual nome se apresenta como mais próximo de Deus, mas quem merece confiança por sua conduta

, -  (crédito: Caio Gomez)
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A Bíblia não conheceu as urnas das democracias modernas. Ainda assim, suas páginas tratam de poder, justiça e cuidado com o próximo — questões centrais na escolha de representantes. Para o cristão, votar não é um gesto ritual nem uma extensão da identidade religiosa. É uma decisão de consciência, com consequências para toda a sociedade.

Em Romanos 13, Paulo apresenta a autoridade como instrumento destinado a conter o mal e promover o bem. A passagem, porém, não autoriza a tirania nem concede um cheque em branco a quem governa. A função pública deve servir à ordem e ao interesse coletivo. Respeitar as instituições não significa aprovar indiscriminadamente seus ocupantes: governantes também precisam ser avaliados pelas obrigações inerentes ao cargo.

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O discernimento começa pelo caráter, mas não termina nele. Provérbios afirma que o povo se alegra quando os justos governam e geme sob o domínio dos perversos (29:2). A mesma tradição manda defender quem não pode falar por si e assegurar os direitos dos pobres e desamparados (Provérbios 31:8-9). Integridade não é apenas virtude privada: deve aparecer na gestão dos recursos públicos, no respeito às leis e na proteção dos vulneráveis.

Escolher um representante exige mais do que simpatia, identificação religiosa ou promessas convenientes. É preciso examinar sua trajetória, confrontar discurso e prática e avaliar a consistência das propostas. Quem pede o voto respeita as regras democráticas? Presta contas de seus atos? Reconhece a dignidade de quem pensa diferente? Suas decisões favorecem o bem comum ou atendem a interesses particulares? Essas perguntas ajudam a separar convicções legítimas da propaganda eleitoral.

A vida, a dignidade humana e a justiça devem orientar a reflexão ética sem aplicação seletiva. Esses princípios perdem força quando invocados para defender aliados e ignorados diante de adversários. A fé não dispensa o exame dos fatos, a análise das propostas nem a avaliação das consequências das decisões públicas. Tampouco transforma declarações religiosas em certificado de honestidade. O compromisso cristão exige coerência entre aquilo que se professa e a maneira como se julgam as atitudes de quem exerce ou pretende exercer o poder.

A história de Ester acrescenta outra dimensão. Diante da ameaça de extermínio contra seu povo, a rainha foi instada por Mardoqueu a não se refugiar no silêncio. Ester 4:14 pergunta: quem sabe se não foi para um momento como aquele que ela chegou à posição que ocupava? A narrativa se passa numa monarquia, não numa democracia, e não trata diretamente do voto. Sua lição, contudo, atravessa épocas: diante da injustiça, uma posição privilegiada pode trazer deveres, e a omissão também tem consequências.

A participação cívica não termina na urna. Paulo recomenda orações pelas autoridades, para que a sociedade viva em paz (1 Timóteo 2:1-2). Isso não exige silêncio diante dos erros. Os eleitos devem ser acompanhados e cobrados; decisões examinadas, promessas confrontadas com resultados e informações verificadas antes de compartilhadas. A democracia exige vigilância, não devoção a governantes.

José, Daniel e Ester atuaram em governos estrangeiros sem fazer do poder um objeto de adoração. Seus exemplos lembram que nenhum líder é dono da fé e nenhum partido detém o monopólio dos valores cristãos. A fé não exige fidelidade cega a autoridades políticas.

Na hora de votar, a pergunta decisiva não é qual nome se apresenta como mais próximo de Deus, mas quem merece confiança por sua conduta, suas propostas e seu compromisso com a justiça. O voto não canoniza ninguém. É uma escolha humana, sujeita a erros, cujos efeitos alcançam toda a sociedade. Para o cristão, exercer esse direito vai além de defender convicções: é assumir responsabilidade pelo bem comum.

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MP
postado em 24/10/2026 17:39
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