Estive no sul de Israel, na fronteira com a Faixa de Gaza, em março de 2023. Visitei o monumento chamado Black Arrow, erigido em tributo a um comando de paraquedistas das forças judias. Dali era possível avistar os prédios do enclave palestino a alguns poucos quilômetros de distância. Mais à frente, uma muralha de aço, acompanhada de torres com câmeras que conseguem detectar o calor do corpo humano. Abaixo da muralha, enterrado no solo, um paredão de concreto para evitar a intrusão de extremistas palestinos. Naquele momento, uma invasão me parecia um temor exagerado. Também estive no kibbutz de Bror Hayil, uma comunidade cuja população era composta de 80% de brasileiros e descendentes.
A invasão ocorreu sete meses depois. Era madrugada de sábado, 7 de outubro de 2023, quando, insone, chequei o grupo de notícias do Correio Braziliense. Um colega alertou que militantes do Hamas tinham entrado em território israelense e assassinado centenas de pessoas. Entre os mortos, estava Ofir Libstein, o prefeito do Sha'ar Negev, um cinturão de kibbutzim que se estende ao longo da divisa entre Israel e Gaza. Libstein tinha apenas 50 anos naquela manhã de horror e perdeu a vida ao tentar defender a própria família. Foi ele quem nos recebeu em Bror Hayil meses antes e nos acompanhou em um almoço regado a churrasco, feijoada e samba.
Há exatamente três anos, o Hamas semeou o próprio terror no sul de Israel. Fuzilou motoristas nas rodovias, massacrou jovens que participavam de uma festa rave, incendiou casas em kibbutzim, assassinou famílias inteiras a sangue-frio. Dias depois, a Embaixada de Israel convidou um grupo de jornalistas para assistir às imagens capturadas pelas câmeras de segurança naquele 7 de outubro. Cenas dantescas de embrulhar o estômago.
Horas depois, veio a retaliação israelense. Bombardeios intermináveis à Faixa de Gaza, um cerco impiedoso ao enclave. Foram 1.093 dias de uma campanha militar que terminou com mais de 70 mil palestinos mortos, segundo o Ministério da Saúde do território, controlado pelo Hamas. A Organização das Nações Unidas (ONU) considera o número credível. Durante três anos, as agências de notícias enviaram fotos de corpos mutilados de crianças palestinas, pais destroçados em lágrimas de dor e luto, cidades praticamente varridas do mapa e transformadas em pilhas de escombros.
Hoje, 7 de outubro de 2026, é um dia que nos convida à reflexão. Sobre como o ódio cego e assassino pode arruinar vidas. Como a vingança, não menos atroz, pode lançar dois povos em uma espiral de violência. Hoje é dia de dizer um basta ao extremismo religioso e político. Dia de prestar tributo a homens, mulheres e crianças, israelenses e palestinos, vítimas de todo o tipo de intolerância e horror. É hora de o Oriente Médio dar uma chance à paz e sepultar um passado de dor, de luto e de barbárie.
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