Daniel A. de Azevedo — professor de geografia política do Departamento de Geografia da
Universidade de Brasília (UnB)
Quando falamos de democracia, há muitas reflexões, definições e perspectivas. Seja a partir de perspectivas ideológicas, seja de contextos históricos distintos, é difícil encontrar uma única definição para esse sistema político tão complexo. Uma de suas características fundamentais é não buscar abolir a instabilidade, a existência do diferente e da pluralidade. Não podemos prever o futuro, já que a ação humana, quando livre, é imprevisível. A democracia precisa permitir que essa liberdade produza consequências, inclusive quando elas contrariam as expectativas de quem parecia ter a vitória assegurada.
E assim foi nesse 25 de outubro de 2026. Contra as expectativas, o presidente Lula conseguiu um feito inédito nas disputas presidenciais brasileiras sob o atual sistema de dois turnos: virar uma eleição depois de perder no primeiro. Diante de uma oposição fortalecida, conseguiu fazer história. O que parecia encaminhado permaneceu aberto à ação dos eleitores. Essa possibilidade de mudar o rumo de uma disputa é parte fundamental da experiência democrática.
Muito teremos para discutir nos próximos dias, meses e, até mesmo, anos. Precisaremos estudar, entender e reavaliar nossas explicações. A surpresa de um resultado também revela os limites da nossa capacidade de antecipar a ação política. Apoios, estruturas partidárias e vantagens eleitorais importam, mas não encerram as possibilidades de uma eleição. Entre a expectativa e o resultado, há pessoas que podem agir, convencer, mudar de opinião e decidir participar.
É nesse espaço que a mobilização nas ruas merece atenção. A literatura já investiga os efeitos de manifestações sobre a participação e os resultados eleitorais. O que precisaremos compreender é o papel das ruas nesta eleição: como a mobilização se relacionou com a disposição de votar, com o convencimento dos indecisos e com a percepção de que ainda era possível vencer. Alguns acreditavam até que, paradoxalmente, esse movimento poderia gerar o efeito contrário: uma reação dos apoiadores da oposição, que usariam imagens dos atos para tentar transformar protesto em baderna. Não parece que tenha sido isso o que ocorreu.
Essa possibilidade também faz parte da imprevisibilidade democrática. Quem ocupa as ruas não controla todos os efeitos de sua ação. Uma manifestação pode mobilizar apoiadores, provocar adversários e alcançar pessoas que estavam distantes da disputa. Seus resultados dependem de como outras pessoas respondem a ela. A liberdade de agir convive com a impossibilidade de determinar tudo o que virá depois.
As ruas foram ocupadas por uma esquerda que encontrou ali uma disposição renovada de disputar a eleição. Mesmo se Lula tivesse perdido, essa mobilização já teria sido um movimento marcante das eleições de 2026. O encontro com outras pessoas pode alterar a percepção de quem se sentia sozinho ou considerava a derrota inevitável. Ao tornar visível a disposição de continuar, a mobilização pode ajudar a reabrir uma disputa que parecia encerrada.
Em O chamado da tribo, o escritor Mario Vargas Llosa chama atenção para a atração exercida pelo pertencimento a uma coletividade, embora alerte para o risco de que ela absorva a liberdade individual. Essa tensão também atravessa a democracia: precisamos construir vínculos e agir em conjunto, preservando a possibilidade de pensar diferente. Talvez tenha sido esse sentimento de comunidade que as manifestações e o "Exército do Lula" produziram. Quem até então acompanhava a disputa isoladamente podia encontrar nas ruas outras pessoas que compartilhavam suas angústias e sua disposição de agir. Esse encontro pode transformar o desânimo em participação: conversar com alguém, tentar convencer um indeciso, chamar quem pensava em não votar. Sentir-se parte de um movimento também pode significar perceber que a própria ação, somada à de outras pessoas, ainda tem capacidade de alterar o resultado.
É aí que o pertencimento se conecta à imprevisibilidade democrática. As expectativas sobre uma eleição podem mudar quando as pessoas decidem agir sobre elas. Uma derrota considerada inevitável pode estimular a resignação; o encontro com outros pode devolver a disposição de disputar. Não sabemos ainda em que medida isso contribuiu para a virada. Mas essa é uma das questões que as ruas nos deixam: como a experiência de agir em conjunto pode reabrir, para os próprios eleitores, um futuro que parecia decidido? Uma eleição também é disputada na capacidade de manter aberta a possibilidade de vitória.
A democracia é esse sistema político que precisa permitir esse tipo de emoção: o direito e a possibilidade de virar uma eleição que parecia decidida. Para isso, precisa de instituições e regras estáveis que preservem a liberdade de disputar resultados incertos. Quem vence hoje deve aceitar que essa mesma possibilidade continue disponível aos adversários amanhã. A imprevisibilidade que tornou possível esta virada faz parte da democracia que será necessário preservar depois dela.
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