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Habitação popular é também construção de cidade

Habitação não é apenas financiamento imobiliário. É infraestrutura, emprego, renda, desenvolvimento econômico e, sobretudo, construção de cidade.

O impacto de programas habitacionais não deve ser medido somente pelo número de unidades contratadas ou entregues -  (crédito: Arquivo/Agência Brasília)
O impacto de programas habitacionais não deve ser medido somente pelo número de unidades contratadas ou entregues - (crédito: Arquivo/Agência Brasília)

Rodrigo Azevedo — arquiteto e urbanista, autor do projeto Residencial Manoel de Barros e fundador do escritório AAA_Azevedo Agência de Arquitetura

Manoel de Barros dizia que era preciso "desver o mundo". Em Mato Grosso do Sul, esse verbo ganhou uma dimensão concreta na arquitetura. O projeto desenvolvido ao lado da arquiteta Paula Vilela para o Minha Casa, Minha Vida, em Campo Grande, recebeu o nome de Protótipo Sustentável Manoel de Barros. Não é apenas uma homenagem ao poeta. É também uma maneira de expressar uma ideia: para transformar a habitação popular, é preciso primeiro mudar a forma como olhamos para ela.

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O projeto nasceu de uma pergunta simples: é possível fazer habitação de interesse social dentro das condições econômicas do Minha Casa, Minha Vida sem reproduzir os mesmos modelos de sempre? A resposta é sim.

O conjunto reúne 164 moradias distribuídas em quatro blocos, concebidos para integrar o empreendimento à cidade. Em vez de muros e grades, a quadra permanece aberta, com praças, jardins e caminhos que favorecem a circulação de pedestres. Lojas voltadas para as ruas aproximam o conjunto do comércio local, enquanto pátios verdes criam espaços de convivência e passarelas-varandas ampliam a interação entre os moradores. Os edifícios, com dois e quatro pavimentos, foram organizados para favorecer a ventilação e o conforto térmico.

A sustentabilidade também orienta as soluções arquitetônicas. As varandas lineares protegem os apartamentos da incidência direta do sol, enquanto a iluminação natural e a ventilação cruzada contribuem para reduzir o consumo de energia. O projeto prevê painéis fotovoltaicos, captação e reaproveitamento da água da chuva, pisos drenantes, áreas permeáveis, jardins, horta comunitária e bicicletário. São escolhas incorporadas ao desenho do empreendimento, não equipamentos acrescentados posteriormente para cumprir uma agenda ambiental.

O Manoel de Barros parte de uma compreensão que precisa estar no centro das políticas públicas: habitação não é apenas financiamento imobiliário. É infraestrutura, emprego, renda, desenvolvimento econômico e, sobretudo, construção de cidade.

O Minha Casa, Minha Vida tem capacidade de mobilizar uma extensa cadeia produtiva. A construção de moradias movimenta a indústria de materiais, gera empregos, demanda serviços, ativa mercados locais e impulsiona investimentos. Mas seu impacto não deve ser medido somente pelo número de unidades contratadas ou entregues. A localização dos empreendimentos, o acesso ao transporte público, a proximidade de empregos, escolas e serviços e a qualidade dos espaços urbanos também precisam fazer parte dessa avaliação.

Uma casa distante de tudo pode atender a uma necessidade imediata, mas dificilmente representa uma solução urbana. Quando famílias de menor renda são empurradas para as periferias porque os terrenos são mais baratos, a economia inicial pode se transformar em custos permanentes: mais tempo no transporte, maior despesa com deslocamentos e dificuldade de acesso a oportunidades. O benefício habitacional perde parte de seu alcance quando não vem acompanhado de integração à cidade.

Essa lógica precisa ser superada. O país dispõe de áreas urbanizadas e dotadas de infraestrutura que permanecem subutilizadas ou abandonadas. Reocupar esses territórios com habitação de interesse social pode reduzir a expansão desordenada das cidades, aproximar moradia e trabalho e aproveitar investimentos públicos já realizados. Habitação popular não precisa ser sinônimo de ocupação periférica nem de baixa qualidade arquitetônica.

O desafio não é simplesmente gastar mais, mas projetar melhor. Orientação adequada dos edifícios, ventilação cruzada, sombreamento, drenagem e áreas verdes são decisões capazes de ampliar o conforto e reduzir impactos ambientais. Boa arquitetura não significa luxo: significa utilizar os recursos disponíveis de maneira inteligente, considerando não apenas o custo inicial da construção, mas também os efeitos que ela produzirá ao longo do tempo.

A emergência climática torna essa discussão ainda mais urgente. Famílias de menor renda estão entre as mais expostas a enchentes, deslizamentos e ondas de calor, especialmente em territórios marcados pela precariedade da infraestrutura. Incorporar arborização, áreas permeáveis, drenagem e conforto térmico aos projetos habitacionais é uma forma de reduzir vulnerabilidades e preparar as cidades para os desafios ambientais. Essas soluções não podem ser tratadas como diferenciais opcionais, mas como parte da própria política de habitação.

O Protótipo Sustentável Manoel de Barros demonstra que essa mudança é possível mesmo dentro das condições de um programa habitacional de grande escala. O projeto venceu a categoria Sustentabilidade da primeira edição do Prêmio Minha Casa, Minha Vida, promovido pelo Ministério das Cidades, e foi o único representante da região Centro-Oeste entre os vencedores. O reconhecimento reforça que qualidade arquitetônica e responsabilidade ambiental podem caminhar junto com a viabilidade econômica.

Uma moradia permanece por décadas. Um bairro, também. As decisões tomadas hoje pelo Minha Casa, Minha Vida terão consequências muito depois do encerramento de um ciclo político. Por isso, o programa precisa ser pensado como política de Estado, articulando habitação, desenvolvimento econômico, planejamento urbano e responsabilidade ambiental. Não basta perguntar quanto custa construir uma moradia. É preciso considerar quanto custa construir uma moradia inadequada, distante dos serviços, desconfortável e vulnerável às mudanças climáticas.

O Residencial Manoel de Barros parte da ideia de que habitação não é apenas uma porta, quatro paredes e um contrato de financiamento. É também a praça onde uma criança brinca, o comércio do bairro, a sombra de uma árvore e os encontros que acontecem pelo caminho. Desver a casa como unidade isolada é enxergar o bairro e a cidade que se constroem ao redor dela.

 

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Por Opinião
postado em 03/11/2026 05:00
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