CASO COVAXIN

CPI apura se empresa de Singapura seria "laranja" na compra da Covaxin

Empresa teria pedido ao governo brasileiro para receber US$ 45 milhões de contrato de R$ 1,6 bilhão para aquisição de 20 milhões de doses do imunizante contra a covid-19

Sarah Teófilo
postado em 23/06/2021 16:56 / atualizado em 23/06/2021 17:01
 (crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado - 24/5/21)
(crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado - 24/5/21)

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19 apura se uma empresa de Singapura teria atuado como “laranja” na compra feita pelo governo brasileiro de 20 milhões de doses da Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, representado no Brasil pela Precisa Medicamentos. É o que diz o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

“A empresa, Madison (Biotech), iria receber esse valor num antecipação de pagamento, que é totalmente atípico. Uma empresa que está em Singapura, numa casinha. Essa claramente me parece que é uma empresa laranja, intermediária, interlocutora, esquema de lavagem de dinheiro”, afirmou.

O contrato firmado com o governo brasileiro para a compra da Covaxin foi de R$ 1,6 bilhão. Foi apresentado, segundo o senador, um pedido de adiantamento de pagamento ao Ministério da Saúde de US$ 45 milhões, que seria destinado a essa empresa. A questão gerou suspeita do servidor da pasta Luis Ricardo Miranda, que, em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF) no âmbito de outra apuração, relatou “pressões anormais” relacionadas à importação da Covaxin por parte de integrantes do ministério.

“A suspeita é de que vários agentes públicos (estavam) se beneficiando (dessa lavagem de dinheiro). Tem um grande esquema de corrupção aí. Esse esquema foi levado ao presidente (da República, Jair Bolsonaro)”, afirmou. O parlamentar pontuou que até então, nas apurações da CPI, não se sabia se havia elementos apontando para corrupção. “Agora, temos elementos para crer que tem corrupção”, disse.

O parlamentar ressaltou que “o governo se omite em relação a algumas vacinas e adquire uma vacina que é totalmente temerária”. “E com esses indícios todos. Inclusive dessa Madison. É lavagem de dinheiro esculpida. Precisamos aprofundar”, disse. E completou: "Nós acabamos de encontrar um esquema corrupto no âmbito do Ministério da Saúde para aquisição de uma vacina que não tinha eficácia comprovada e que estava condenada pela Anvisa".

O vice-presidente da CPI ressaltou que salta aos olhos o alerta feito ao presidente da República. Isso porque o servidor que apontou as pressões é irmão do deputado federal Luis Cláudio Miranda (DEM-DF). Os dois serão ouvidos como convidados na próxima sexta-feira (25) na CPI. O parlamentar foi convidado a pedido dele mesmo. De acordo com os senadores, Miranda relatou ter levado as informações sobre suspeita na negociação relativa à Covaxin ao presidente Jair Bolsonaro, devido a esse pedido de pagamento antecipado feito a essa empresa de Singapura.

Segundo Randolfe, esse alerta ao presidente, que teria sido feito no final de março, “salta aos olhos”. “Estamos no fim de junho. Qual foi a providência que o presidente da República tomou? Há duas semanas foi aprovado, a muito custo, uma autorização emergencial dessa vacina, que anteriormente a Anvisa disse que não tinha condições sanitárias, higiênicas, do laboratório na Índia. É estranho saber que três meses se passaram e a gente não tem notícia de qual foi a providência tomada, e o contrato está na iminência de ser cumprido, de ser pago”, disse.

Quebra de sigilo e PF

Os senadores agora querem aprovar um requerimento para quebra de sigilo dessa empresa de Singapura. Randolfe afirmou que irá pedir ao presidente Omar Aziz (PSD-AM) para que o requerimento seja colocado na pauta da próxima quinta-feira (24).

Aziz também afirmou nesta quarta-feira que pediu ao delegado da Polícia Federal que trabalha com os senadores na CPI para apurar se o diretor-geral da PF recebeu algum pedido de Bolsonaro para abertura de inquérito para investigar as negociações da compra da Covaxin.

“Acabei de pedir para o delegado da PF que trabalha com a gente para pedir informação para o diretor-geral da PF para saber se houve um inquérito para investigar essa questão da Covaxin. Se foi tocado, se o presidente ligou para o diretor da PF e disse ‘olha, tem aqui uma denúncia feita pelo deputado Luis Miranda e o irmão dele’. A gente quer saber se tocaram a investigação. O presidente, se foi comunicado e tomou providências, ótimo. Se ele não tomou providências, é preocupante”, afirmou.

Isso porque o deputado Luis Miranda afirmou, como pontuado por Aziz, que procurou Bolsonaro após as pressões contadas pelo servidor, levando documentos que mostravam suspeitas em relação à Covaxin.

Aziz afirmou que a CPI já tinha chegado a duas conclusões em relação à vacinas: a demora nas negociações e a incompreensão do motivo dessa demora. Agora, a comissão percorre um outro caminho, que é observar que “a demora para umas (negociações) não é para todas”. “Há uma diferença de tratamento muito grande”, disse.

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