CRISE

Governo reage com ameaças às denúncias de deputado e irmão sobre Covaxin

Ao comentar e mostrar documentos da contratação, Lorenzoni levantou a possibilidade de falsificação de provas

Bruna Lima
Maria Eduarda Cardim
postado em 24/06/2021 06:00
O ministro Onyx Lorenzoni disse que o deputado federal Luis Miranda, apoiador do governo, vai pagar pela traição ao presidente -  (crédito: Alan Santos/PR - 3/4/20)
O ministro Onyx Lorenzoni disse que o deputado federal Luis Miranda, apoiador do governo, vai pagar pela traição ao presidente - (crédito: Alan Santos/PR - 3/4/20)

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, fez uma série de ameaças ao deputado federal Luis Miranda (DEM-DF). O parlamentar e o irmão dele, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, denunciaram suspeitas de corrupção na compra, pelo governo federal, da vacina indiana Covaxin. De acordo com Lorenzoni, o presidente Jair Bolsonaro determinou que a Polícia Federal investigue os dois.

Lorenzoni afirmou que vai pedir a abertura de um procedimento administrativo disciplinar junto à Controladoria-Geral da União (CGU) para apurar a conduta do servidor, que disse, em depoimento à Procuradoria da República do Distrito Federal, ter sofrido “pressões anormais” em relação à Covaxin por parte da alta cúpula da pasta. “O servidor será investigado por prevaricação”, enfatizou o ministro, em pronunciamento realizado para negar as acusações em relação à aquisição do imunizante.

Ao comentar e mostrar documentos da contratação, Lorenzoni levantou a possibilidade de falsificação de provas. “O senhor Luis Miranda diz que havia um contrato entre o governo brasileiro e a empresa A, Bharat Biotech, e que apareceu uma nota fiscal de uma compra por meio da Madison Biotech. A Madison nada mais é do que a subsidiária da Bharat Biotech, localizada em Cingapura, responsável por todos os contratos da Bharat Biotech no comércio internacional. Portanto, não existe uma terceira empresa”, frisou.

De acordo com ele, o governo pedirá aos peritos da Polícia Federal uma análise dos documentos. Ressaltou, também, que, apesar de o contrato ter sido assinado, ainda não houve pagamento pela vacina. “Nenhum centavo saiu dos cofres do Ministério da Saúde”, destacou.

Em tom de ameaça, o ministro mandou recado ao parlamentar: “Deputado Luis Miranda, Deus tá vendo, mas o senhor não vai só se entender com Deus, não, vai se entender com a gente também. O senhor vai explicar e pagar pela irresponsabilidade, pela má-fé, pela denunciação caluniosa e pela produção de provas falsas”, completou.

Coerção

A mensagem do governo foi vista por integrantes da CPI da Covid — onde Miranda e o irmão vão depor, amanha — como uma tentativa de coerção. O vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) enfatizou que, enquanto o colegiado passou a investigar e a colher provas do “enorme esquema de corrupção”, o governo federal não apurou a denúncia. Por outro lado, “vem a público e faz clara ameaça aos denunciantes do esquema”. “Ato de covardes”, criticou.

Pelas redes sociais, o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), classificou a reação como “desespero” de Bolsonaro. Já o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), frisou que “ameaças e discursos vazios são apenas sinal de desespero”. “As escolhas do governo federal já são claras. Vamos buscar as motivações. Só convicções equivocadas ou interesse econômico?”, questionou. Existe a possibilidade de a convocação de Lorenzoni para prestar esclarecimentos.

Mesmo sob ameaças, Luis Miranda não demonstrou ter se sentido coagido. Após o pronunciamento de Lorenzoni, ele rebateu. “Sexta-feira (amanhã), o Brasil saberá a verdade, e os documentos falam por si só... Se ficarmos calados, já será suficiente para todos os brasileiros se revoltarem e ainda entender quem está atrasando o Brasil”, enfatizou.

Horas antes das declarações de Lorenzoni, Randolfe Rodrigues informou que a CPI ia requisitar segurança para os irmãos e familiares. “As informações que o deputado está declinando à imprensa e que trará a esta CPI são de extremo interesse público. Sua vida e de sua família precisam estar resguardadas”, justificou.

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