1.000 DIAS DE GOVERNO

Bolsonaro investe em ação de marketing para desviar atenção de problemas

Presidente cai na estrada para entregar obras e desviar a atenção de questões que o desgastam, como a CPI, a dificuldade com as reformas, o Auxílio Brasil sem fonte de financiamento e novo ato público de adversários

Correio Braziliense» Luana Patriolino » Tainá Andrade
postado em 27/09/2021 06:00 / atualizado em 27/09/2021 12:17
 (crédito: Marcos Corrêa/PR)
(crédito: Marcos Corrêa/PR)

O presidente Jair Bolsonaro já preparou os tambores para botar o bloco na rua nesta semana a fim de comemorar os 1.000 dias de seu governo. O objetivo dele é atrair todas as atenções possíveis para os feitos de sua administração, além de tentar colar a marca de um gestor que faz por meio da entrega de obras, muitas delas iniciadas em governos anteriores. Com a popularidade despencando, o mandatário acredita que este é o momento da virada para garantir a reeleição em 2022.

No entanto, o presidente terá de dividir os holofotes com o Congresso, onde projetos de interesse do Palácio do Planalto fazem muito ruído, e com o Supremo Tribunal Federal (STF), que decidirá se o chefe do Executivo deverá depor, por escrito ou presencialmente, no processo em que é investigado por suposta interferência indevida na Polícia Federal. No próximo sábado, está marcada mais uma manifestação contra o governo, que deve reunir representantes da direita e da esquerda.

Bolsonaro, que vem sustentando um discurso mais brando para tentar recuperar apoio de parte da elite que o abandonou, em especial a econômica, escalou ministros e secretários para cerimônias em todas as regiões do país. Ele, pessoalmente, passará por Bahia, Alagoas, Roraima, Minas Gerais e Paraná. Contudo, por mais barulho que ele faça, terá de se conformar com o depoimento do empresário Luciano Hang, na quarta-feira, na CPI da Covid. O dono da rede de lojas Havan é acusado de financiar o gabinete paralelo que disseminou informações falsas sobre a pandemia do novo coronavírus e incentivou o tratamento precoce contra a covid-19 usando medicamentos não reconhecidos pela ciência, como a cloroquina.

A festança dos mil dias do governo Bolsonaro só aumentará a animosidade no Congresso, segundo parlamentares. Na semana passada, o Planalto conseguiu aprovar a reforma administrativa na Comissão Especial da Câmara, mas, dificilmente, o projeto chegará ao Plenário. Foram necessárias sete versões e muitos arranjos na composição do colegiado para que a vitória saísse.

Ao mesmo tempo, a equipe econômica corre contra o tempo para aprovar, no Senado, a reforma do Imposto de Renda, e, nas duas Casas, a PEC dos Precatórios. Sem isso, não há como turbinar o Bolsa Família, rebatizado de Auxílio Brasil — uma das principais promessas de campanha de Bolsonaro.

Era desejo de Bolsonaro aproveitar os eventos dos 1.000 dias do governo para anunciar um programa social mais robusto, que, no entender do Planalto, será vital para recuperar o apoio de parte da população mais pobre, em especial no Nordeste, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera todas as pesquisas de intenção de votos. Porém, a falta de empenho do presidente em fazer as reformas andarem e a crise política criada por ele ergueram uma série de obstáculos. Não à toa, cresceu muito a pressão para que o auxílio emergencial, que acaba no mês que vem, seja estendido até dezembro — o que causa calafrios na equipe econômica e em integrantes do mercado financeiro.

O deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) afirma que a divulgação da comemoração dos 1.000 dias de governo refletem a insegurança do presidente diante do mandato. “O que Bolsonaro tem para comemorar no milésimo dia de seu governo? O recorde do desemprego? O da inflação? O preço do gás, da carne, da gasolina? O país está à deriva, não existe governo. São 1.000 dias de incompetência e desgoverno. Inacreditável que, no meio desse caos, Bolsonaro pense em comemoração”, critica o líder da oposição na Câmara.

O senador Izalci Lucas (PSDB-DF) avalia que a desarticulação do governo o impede de seguir com propostas emergenciais. “Não há uma proposta concreta de reforma tributária, por exemplo. Pode ser votada a qualquer momento, mas por insistência do Senado. Falta de articulação total. A gente precisa criar alternativas para programas sociais e existem muitas outras coisas que não foram debatidas com o governo”, destaca.

Outro ponto que pode ofuscar as comemorações de Bolsonaro é a marca de 600 mil mortos em decorrência da covid-19. O número de óbitos pela doença está em 594.443, de acordo com os dados divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Desgaste no Senado

A CPI da Covid ouve, amanhã, a advogada Bruna Morato, que representa os médicos que denunciaram o plano de saúde Prevent Senior por meio de um dossiê com diversas denúncias — como um suposto estudo com pacientes submetidos, sem saber, ao chamado “kit covid”, além de adulteração de prontuários médicos e atestados de óbito.

O senador Humberto Costa (PT-PE) afirma que pretende confrontar as informações da empresa e trazer à tona novas informações. “Os médicos lá estarão e será o momento de trazer outras denúncias, fazer uma confrontação entre o que a advogada diz e aquilo que o Pedro Benedito Batista Jr. (diretor-executivo da Prevent) falou. Espero que possam contestar ponto por ponto do que ele falou”, explica.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) acredita que o colegiado já tem muitos elementos para fechar o relatório da CPI. “O próprio depoimento (do Pedro Batista Jr.) mostrou que adulteravam a CID (Classificação Internacional de Doenças). O Ministério Público montou uma força-tarefa para investigar e defendo que devemos entregar o dossiê pessoalmente ao MP”, salienta.


Muitas inaugurações. As ações de governo ficam cada vez mais visíveis. Indiscutível a qualidade das realizações”

Ricardo Barros,
Líder do governo na Câmara


O que Bolsonaro tem para comemorar no milésimo dia de seu governo? O país está à deriva, não existe governo

Alessandro Molon,
Líder da minoria na Câmara

Exame negativo libera para viagens

 (crédito: Isac Nóbrega/PR)
crédito: Isac Nóbrega/PR

Com o exame negativo para covid-19, Jair Bolsonaro está liberado para dar início às comemorações dos 1.000 dias de governo. Seguindo as recomendações da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), o presidente da República permaneceu cinco dias em isolamento no Palácio da Alvorada, após ter tido contato com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que recebeu resultado positivo para o novo coronavírus durante viagem à Nova York, para a Assembleia-Geral das Nações Unidas. Nesta semana, Bolsonaro seguirá viagem por regiões do país entregando hidrelétricas e rodovias na tentativa de reduzir o derretimento de sua popularidade. Os ministros também serão responsáveis por agendas municipais específicas.

Na manhã de hoje, haverá o primeiro evento: uma cerimônia no Palácio do Planalto para o lançamento do Crédito Caixa Tem. O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, informou ontem, pelas redes sociais, que contraiu covid-19 — afirmou que está “assintomático”, “tomando remédios do protocolo” e que trabalhará de casa. Mas participará por videoconferência.

Guimarães é a quarta pessoa infectada da comitiva presidencial que foi a Nova York. Além dele e de Queiroga, um diplomata que preparou a viagem do presidente e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também receberam diagnóstico positivo.

Para amanhã, a previsão é de que Bolsonaro viaje para Teixeira de Freitas (BA), onde deverá entregar 10 km de asfalto. No mesmo dia, segue para Teotônio Vilela (AL). Na quarta-feira, a previsão é de que o presidente desembarque em Boa Vista (RR), onde assinará o contrato de concessão dos aeroportos do Bloco Norte.

Na quinta, o presidente seguirá para Belo Horizonte, onde visitará uma estação de metrô acompanhado do ministro de Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. Na sexta, Bolsonaro deve se dividir em agendas: Anápolis (GO), para a assinatura do contrato de concessões de BRs, e Maringá (PR), para uma solenidade de inauguração das obras de ampliação da área operacional do Aeroporto local.

Líder confirma

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), afirmou por meio de suas redes sociais que está “confirmadíssima” a presença do presidente em Maringá. “Maringá logo será um hub de cargas aéreas”, prevê ele, que já foi prefeito da cidade. “Muitas inaugurações, em todos os Estados brasileiros. As ações de governo ficam cada vez mais visíveis. Indiscutível a qualidade das realizações do governo”, acrescenta o deputado.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, por exemplo, inaugura amanhã, em Mossoró (RN), a conexão via satélite que entregará banda larga gratuita de internet, por meio do programa Wi-Fi Brasil. Bolsonaro participará por meio de videochamada.

Com o objetivo de se defender de possíveis acusações de propaganda eleitoral antecipada pelos eventos que serão promovidos, com o auxílio dos ministros, sob o pretexto de comemoração de 1.000, o Palácio do Planalto preparou um parecer jurídico — que sugeriu “cautela”. Já a Casa Civil afirmou que as cerimônias de comemoração promovem “transparência”.

Apesar de estar liberado da quarentena, o presidente ainda segue em acompanhamento médico até o 14° dia de contato com Queiroga, assim como os demais infectados. Também testaram negativo a primeira-dama Michelle Bolsonaro; o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres; o do Turismo, Gilson Machado; o do Meio Ambiente, Joaquim Leite; o das Relações Exteriores, Carlos França; e o da Secretaria-Geral da Presidência, Luiz Eduardo Ramos — todos estavam na comitiva que foi a Nova York.

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