Especial: E agora, Brasil?

Conjuntura econômica deve complicar corrida presidencial de Bolsonaro

Especialistas indicam que os problemas na economia do país devem fazer o presidente radicalizar o discurso contra os rivais na campanha

Ingrid Soares
Taísa Medeiros
postado em 25/12/2021 06:00
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR) relata que o presidente tem clareza das dificuldades por que o país passa. E reforça que um dos principais entraves sobre a mesa de Bolsonaro para o próximo ano será a inflação.

Na avaliação de Barros, o governo teve uma "passagem brilhante pela pandemia". "O presidente lançou o auxílio emergencial, o maior programa do mundo, e agora o Auxílio Brasil. Tivemos um início de vacinação que logo será recorde mundial e vamos continuar trabalhando nessa questão do encerramento da pandemia", enumera o deputado. "O desafio agora é a inflação, é um desafio mundial. Todos os países estão enfrentando o mesmo problema. Mas, para o brasileiro, interessa a inflação no país onde ele vive. Vamos ter como grande meta daqui para frente o controle da inflação, no preço de alimentos, combustível e energia. Esses são o grande desafio, e o presidente continuará de forma clara e corajosa lutando para resolver esses problemas", aponta.

O diretor geral da Associação Contas Abertas, Gil Castello Branco, relata que o maior desafio do presidente Bolsonaro para 2022 será evitar que a economia brasileira permaneça no estado de estagflação, quando os preços estão em alta acentuada, e a atividade econômica se mantém em patamar muito baixo.

"As previsões do mercado, para 2021 e 2022, são pessimistas. Além do baixo crescimento da economia, da inflação ascendente e do desemprego em patamares elevados, deve-se ressaltar o risco do populismo econômico e a instabilidade política exacerbada como outras causas de vulnerabilidade no país no ano eleitoral", observa Castello Branco.

"Esses fatores prejudicam as decisões de investimento, o que significa retomada mais lenta da atividade econômica no Brasil. Ao invés de populismo econômico, seria o populismo fiscal", complementa.

Com a aprovação do Auxílio Brasil em valor médio próximo a R$ 400,00 a popularidade do presidente deverá subir, imediatamente após o primeiro pagamento mensal, acredita Castello Branco.

"Mas os agentes econômicos esperam previsibilidade, estabilidade, planejamento e responsabilidade fiscal. O governo tem sinalizado no sentido contrário. As incertezas sobre o real compromisso do governo com a responsabilidade fiscal ativam uma corrente de fatos negativos: elevam o dólar, pois os investidores se protegem adquirindo a moeda estrangeira; o dólar aumenta os insumos importados e a inflação" descreve o analista.

Castello Branco continua a lista dos efeitos perversos do descontrole fiscal. "A inflação gera a elevação dos juros, reduz os investimentos, o consumo e o próprio crescimento da economia, ampliando o desemprego e atingindo principalmente os mais necessitados", explica. Nesse círculo vicioso, o diretor geral da Associação Contas Abertas alerta que a irresponsabilidade fiscal "tem perna curta".

Ele adverte também para outros impactos nas contas públicas. "O rombo no teto não objetiva, apenas, ampliar um programa social. Às vésperas do ano eleitoral, virão gastos políticos, inclusive as malfadadas e bilionárias emendas de relator. Daí o interesse conjunto do Executivo e do Legislativo".

O cientista político André César, sócio da Hold Assessoria também considera relevantes os obstáculos que dificultam a reeleição de Bolsonaro, como a economia em trajetória descendente, o alto nível de desemprego e o PIB em queda. Mas ressalta a questão social desses problemas.

"Um desafio é a questão social e a miséria. Isso vai ser utilizado pelos adversários que o governo Bolsonaro deixou gente comendo osso, lixo. Por fim, a pandemia. Não sabemos o que a ômicron pode trazer. Se a evolução da variante for agressiva, poderemos passar por novo lockdown, e Bolsonaro não vai poder fugir disso. É um cenário complicado para ele, num momento de baixa popularidade com Sergio Moro no retrovisor dele, que corre na faixa ideológica dele", avalia.

Radicalização

André César avalia que Bolsonaro deverá reforçar, de um lado, a relação com o Centrão e o caráter populista, além de atacar Moro e Lula.

"Vemos essa agenda reforçada de Auxílio Brasil, vale-gás, exoneração da folha de pagamento de vários setores importantes. Teremos outros tipos de ações populistas. Esse vai ser um foco. Bolsonaro rasgou de vez a máscara de Paulo Guedes liberal", avalia.

"Do ponto de vista político, o presidente reforçará os vínculos com o bolsonarismo raiz, mais ideológico. A agenda de costumes, armamentismo, contra o casamento gay, família tradicional. O bolsonarismo vai atacar duas frentes: o Lula, com "o fantasma do comunismo", e Moro, como traíra. Esse é o Bolsonaro daqui em diante, nos próximos 12 meses", afirma.

Ricardo Caichiolo aposta em um ambiente eleitoral ainda mais inflamado no ano eleitoral. "2022 promete uma guerra de narrativas mais acirrada que a de 2018. No entanto, desta vez, os órgãos de controle, o Judiciário, a Justiça Eleitoral podem e devem estar preparados", acredita.

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