Entrevista | Carlos Siqueira | presidente do PSB

Presidente do PSB: PT tem de definir prioridade e abandonar "visão exclusivista"

Em entrevista ao Correio, Carlos Siqueira fala sobre negociação para formar federação com o partido de Lula

Denise Rothenburg
Taísa Medeiros
postado em 18/01/2022 06:00
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Às vésperas de uma reunião decisiva com a diretoria do PT, sobre a articulação de uma eventual federação, o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, enfatiza: "A situação exige que o PT escolha qual é a sua prioridade: se é disputar com o seu principal aliado, na esquerda, os governos estaduais, ou se é conquistar a Presidência da República. Nós estamos dispostos a colaborar com a eleição de Lula, mas também queremos que o PT esteja disposto a colaborar com as nossas candidaturas", ressalta, em entrevista exclusiva ao Correio.

Siqueira e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, têm encontro marcado para quinta-feira, em Brasília, quando tentarão acertar os ponteiros. Ele considera, por exemplo, que o PT tem uma "visão exclusivista", que precisa ser superada, para que tudo caminhe bem entre as duas legendas. Com negociações complexas, que envolvem candidaturas aos governos em estados-chave para o PSB, a conversa promete um bom debate. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quais são os primeiros passos do PSB neste ano eleitoral?

O PSB vai se preparando fortemente para dar continuidade às negociações em torno da campanha presidencial, porque o partido, muito provavelmente, vai apoiar o ex-presidente Lula e há, também, uma série de demandas apresentadas ao PT e de apoio em pelo menos cinco estados, que nós aguardamos uma resposta. Até agora, não há nada de concreto. Há, também, uma discussão sobre a federação de partidos, que nós não decidimos ainda se participaremos. É um instituto muito novo e complexo, tem implicações muito graves na vida de cada sigla.

O que mais atrapalha a formação dessa federação?

A federação entre partidos pequenos deve ser muito mais fácil de administrar. A federação entre partido grande e de médio para cima, como é o caso do PSB, se torna mais complexa, porque abrange um período de quatro anos, ou seja, pega uma eleição geral e uma municipal. Essa federação, as pessoas ainda não entenderam. Há regras gerais, que estão na lei, e específicas e muito burocráticas, que estão estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Essas são as regras políticas, que vão determinar se a federação acontece ou não. As regras não estão ainda discutidas entre PSB, PT, PCdoB e PV.

Quais são as prioridades do partido? O senhor falou em cinco estados.

São Paulo, Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Acre… E tem outros candidatos que poderão surgir, mas, até agora, nós colocamos na mesa esses cinco estados. Pode surgir, por exemplo, o Maranhão, onde o PSB, provavelmente, terá candidato também; pode surgir Alagoas.

Há indicações de que o PT quer lançar candidato a governador nos estados que são prioritários para o PSB. Em São Paulo, por exemplo, o nome é de Fernando Haddad. Como fica essa situação?

Márcio França só não será candidato em São Paulo se não quiser. Se quiser, será candidato, assim como o PT tem todo o direito de ter o seu candidato. Essas decisões têm implicações sobre as da federação. Elas não são separadas, porque, se você faz a federação, ela só pode ter um candidato por estado. Funciona como se fosse um partido. Então, na medida que houver decisões que conflitem demasiado com o PSB, isso vai dificultando a possibilidade de a federação se concretizar. Nós temos segurança nos nossos candidatos. Nós os queremos na disputa, incluindo São Paulo, com Márcio França. Portanto, estamos esperando essa discussão, que já vai começar esta semana. Na quinta-feira, está marcada uma reunião com parte da direção do PSB e do PT.

No caso de essa negociação não fluir, qual seria o plano B?

Na questão da associação presidencial, dificilmente nós teremos uma situação que não seja o apoio à candidatura do ex-presidente Lula. A polarização no plano nacional está dada, muito dificilmente será quebrada, porque não apareceu ninguém que possa, até este momento, quebrá-la. Pregamos uma frente ampla, que não é apenas de esquerda. É preciso ter uma presença que vá para além da esquerda e, até agora, nem sequer a esquerda está unida em torno da candidatura de Lula. Espero que venha a ter e que não fique só na esquerda, que vá para o centro, porque não é necessário apenas ganhar a eleição. Há necessidade de governar. Queremos tirar o país de um quadro de imensas dificuldades, queremos recobrar a democracia, mas não apenas para ter liberdade de votar e ser votado, mas para implantar políticas que recuperem o emprego, a renda, a indústria nacional, que invista em novas ciências. Por isso, admitimos a hipótese da filiação de (Geraldo) Alckmin no PSB, que é uma das figuras que podem ajudar a ampliar essa força política.

Por falar em Alckmin, no momento em que o partido fizer uma coligação, significará que vai ter federação? Ele vai mesmo para o PSB?

O ex-governador Geraldo Alckmin tem no PSB inúmeros amigos e uma relação muito boa. Lá em São Paulo, fomos parceiros durante anos do PSDB. Ele foi convidado para vir para o PSB. Ele não vem se não quiser, a escolha é dele. Está sem partido. Fiz, pessoalmente, o convite a ele lá em São Paulo, no dia 13 de dezembro. Há outros convites que ele precisa apreciar, mas acho que acabará vindo para o PSB.

Na hipótese de não fechar esses acordos estaduais, essa aliança colocando a vinda de Alckmin para o PSB e a candidatura dele a vice está ameaçada?

Prefiro apostar na hipótese de um certo bom senso e de que não haja salto alto, porque, vamos convir, as pesquisas, hoje, que são muito favoráveis, não podem decidir nada. Não se pode fazer acordo político exclusivamente com número de pesquisas.

Na sua avaliação, o PT está de salto alto por causa das pesquisas?

Eu não diria que está de salto alto, diria que está com as dificuldades que nós já conhecemos. Uma visão exclusivista. Não diria hegemônica, porque é natural de quem tem a maioria, mas exclusivista, e que é uma visão que precisa ser superada. Não só para unir a esquerda, mas para ampliar o centro.

Muita gente dentro do PSB diz o seguinte: apoiar Lula, neste momento, ou fazer uma federação com o PT, especialmente, é retroceder. Seria retroceder fazer essa federação com o PT? O PT pode engolir o PSB?

Depende muito das regras que forem estabelecidas. Não queremos ter uma posição prévia sobre ser contra ou a favor da federação sem discuti-la e estabelecer claramente as regras. Eu suponho que a federação pode ter muitos problemas que sejam superáveis. Mas vamos ver qual é a abertura que o PT tem e os demais partidos para estabelecer regras aceitáveis. O PSB, neste período, também está passando e concluindo um processo de autorreforma muito profundo, que muda completamente o seu programa, que vem de 1947. Nós queremos também que a eleição e a coligação, se eventualmente vier a acontecer, como tudo indica, com o PT, também possam representar a absorção de um conjunto de ideias, porque coligação não é apenas eleitoral. Ela é política, é programática, precisa de um conjunto de ideias para tirar o país da crise, e não apenas para ganhar uma eleição e repetir os governos como foram os anteriores. Nós precisamos avançar.

Esse revogaço da reforma trabalhista proposta pelo PT agrada ao PSB?

Nós votamos contra a reforma trabalhista. Ela foi apresentada pelo senhor (Henrique) Meirelles propondo criar de três a quatro milhões de empregos, e desde que a reforma foi estabelecida criou quatro milhões de desempregados.

Numa eleição polarizada, Alckmin seria um contraponto importante para a imagem de Lula. Qual é o papel que ele cumpre nessa união?

Acho que ninguém no Brasil tem dúvida sobre quem é Lula. Afinal, ele foi presidente da República durante oito anos. Fez as suas políticas que deram resultados satisfatórios, apesar de não ter feito uma única reforma estrutural no país, o que eu acho que foi o grande problema do PT naquele período. Não fez a reforma tributária, não fez a reforma do Estado, não fez a reforma política, que seria a reforma essencial. Então, eu diria que Alckmin não vai mudar a imagem do Lula, porque todo mundo já sabe quem é Lula. Agora, pode ajudar, se concretizar esse acordo, a ampliar esforços no sentido de ir ao centro, que é uma necessidade que nós defendemos desde sempre. Não precisa unir apenas a esquerda, precisa unir a esquerda ao centro e juntar forças políticas.

O antipetismo ainda é forte o bastante para se tornar um risco lá na frente? E o PT nunca fez uma autocrítica.

Não tenho dúvidas de que as forças políticas democráticas e progressistas no Brasil estão correndo risco já faz tempo. Quando nós inventamos a nossa autorreforma, do PSB, foi para fazer, também, a autocrítica, porque nós apoiamos o PT. Nós sabemos os erros do PT, sabemos os erros que nós cometemos e devemos à opinião pública uma autocrítica. Porque se nós queremos nos apresentar novamente para governar, acho que isso é uma necessidade. Nós estamos fazendo formalmente isso na nossa autorreforma. Se o PT vai fazer ou não, isso é um problema do partido. Eu não interfiro na vida do PT, só interfiro, na medida do possível, na vida do PSB.

Mas isso não influencia o PSB?

Influencia, mas nós estamos diante de um quadro em que a ameaça à democracia exige que a gente tenha responsabilidade com o país e com a democracia, em primeiro lugar. Estamos diante de um quadro que politicamente é pobre em termos de opções. É uma polarização, também, que não é a mais desejada, mas é o que nós temos.

Como avalia as candidaturas da terceira via?

Ciro Gomes é um grande candidato, mas há determinados momentos na vida política nacional, e eu acho que é o caso, infelizmente, em que os espaços ficam muito reduzidos. As forças de centro-direita não estão conseguindo se unir em uma candidatura própria. Vemos (João) Doria, Rodrigo Pacheco, que também é um ótimo candidato, o próprio (Sergio) Moro. Eles três separados são candidaturas inviáveis. Não têm força suficiente.

O senhor vê possibilidade de união entre os candidatos da terceira via?

Não vejo. Mesmo que eles venham a se unir num desses nomes que estão postos, as políticas econômicas deles são exatamente iguais às de Jair Bolsonaro.

Em relação aos estados: Pernambuco, por exemplo, se o PT exigir, ou seja, insistir em ter candidato lá, como fica?

O PT, assim como o PSB, são partidos autônomos, que vão decidir livremente as suas opções nos estados. Eu, da minha parte, já disse, mais de uma vez, ao presidente Lula e à presidente (do PT) Gleisi (Hoffmann) que a situação exige que o PT escolha qual é a sua prioridade real: se é disputar com o seu principal aliado, na esquerda, os governos estaduais, ou se é conquistar a presidência da República. Nós estamos dispostos a colaborar com a eleição de Lula, mas também queremos que o PT esteja disposto a colaborar com as nossas candidaturas. Porque, afinal de contas, serão elas todas palanques do presidente Lula por todo o país. E palanques importantes.

É possível, então, sair uma coligação e não uma federação?

É possível não haver federação e haver coligação do plano nacional. Estamos examinando se são possíveis as duas coisas, mas não estamos convencidos. Da coligação, até agora, não vi ninguém colocar em questão isso.

Quando será a reunião do diretório para avaliar o assunto?

Nós precisamos esperar porque há um questionamento no Supremo sobre a federação. O Congresso aprovou que a ela poderia ser decidida até julho e o Tribunal Superior Eleitoral, incorrendo mais uma vez de legislar contra uma lei que já estabeleceu um prazo, mudou esse entendimento e colocou para março. De modo que, se o Supremo mantiver esse prazo, nós temos de decidir até o final deste mês ou começo de fevereiro se tem ou não tem federação. Se a decisão do Supremo prolongar, acho que, de qualquer maneira, é muito importante que se decida até março, até fevereiro, porque, se não temos federação, temos de reforçar nossas chapas próprias em todo o país.

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