Nas Entrelinhas

Análise: Mercado perde confiança na política monetária

Luiz Carlos Azedo
postado em 18/03/2022 06:00
 (crédito: maurenilson freire)
(crédito: maurenilson freire)

Para o mercado financeiro, a principal âncora da economia, a política de juros, virou uma biruta de aeroporto na última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), que aumentou a taxa básica de juros de 10,75% ao ano para 11,75% ao ano, mas sinalizou que a Selic vai a 12,75% em maio. A expectativa gerada é de que o arrocho monetário não vai parar por aí e a economia pode mergulhar numa nova "grande depressão".

Essas preocupações decorrem do papel cada vez mais subalterno do ministro da Economia, Paulo Guedes, nas decisões econômicas do governo, o que se reflete, inclusive, na demora para aprovação de dois diretores do Banco Central (BC) pelo Senado. O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) da Casa, senador Otto Alencar (PSD-BA), engavetou as duas indicações para os cargos de diretor de política econômica e diretor do sistema financeiro, com o argumento de que o governo está sem líder no Senado, desde a saída do senador Fernando Bezerra (MDB-PE) do cargo.

Diogo Abry Guillen, indicado para a diretoria de política econômica, de 39 anos, é formado em economia pela PUC-RJ, onde concluiu mestrado. Tem doutorado pela Universidade de Princeton e atualmente é economista-chefe da Itaú Asset Management. Renato Dias de Brito Gomes, indicado para a diretoria de organização do sistema financeiro, de 41 anos, também é formado em economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-RJ), onde fez o mestrado. Concluiu o doutorado na Northwestern University, nos EUA.

Um trecho da ata da reunião do Copom de ontem acendeu a luz vermelha no mercado, quando afirma que "políticas fiscais que impliquem impulso adicional da demanda agregada ou piorem a trajetória fiscal futura podem impactar negativamente preços de ativos importantes e elevar os prêmios de risco do país". A adoção desse "cenário alternativo" para as projeções de inflação do Banco Central (BC) gerou inquietação entre os analistas.

O BC trabalha com a hipótese de o preço do barril do petróleo chegar a US$ 100 ao final de 2022. Com base nessa avaliação, acredita que a inflação, neste ano, chegará a 6,3%. Entretanto, essa avaliação está em contradição com o boletim Focus do próprio BC, que estima a inflação em 7,1% em 2022, com uma desaceleração para 3,4% em 2022. Quando fala em "impulso de demanda agregada", o BC está se referindo às medidas que estão sendo tomadas pelo presidente Jair Bolsonaro para estimular o consumo e reduzir o impacto da alta dos combustíveis no custo de vida.

Petróleo e juros

Depois da pandemia, que jogou a economia no chão e provocou a desorganização dos pequenos negócios, além de desemprego em massa, o governo se depara com uma nova variável que foge ao seu controle: a guerra da Ucrânia. As expectativas de que seria um conflito que duraria, no máximo, 10 dias não se confirmaram; as duríssimas sanções contra a Rússia também surpreenderam. Além disso, os juros nos Estados Unidos estão subindo, o que amplia o peso do cenário externo na economia brasileira.

A ausência de um diretor de política econômica no Banco Central (BC) está sendo apontada como a principal causa da incoerência e da inconsistência das análises do Copom. A implicância maior é com o fato de as projeções estarem baseadas no preço dos combustíveis, que são muito voláteis, e não levarem em conta que Federal Reserve (Fed), pelo mesmo motivo, possa ter que alterar a projeção de seis reajustes mensais da ordem de 0,25% nas taxas de juros dos Estados Unidos.

Há uma diferença fundamental entre os dois países: o Brasil está estagnado, enquanto os Estados Unidos crescem. Um dos motivos alegados pelo próprio presidente do Fed, Jerome Powell, para elevar os juros, foi justamente o aquecimento da economia norte-americana. Nós, aqui, estamos elevando os juros numa situação de baixíssimo crescimento. Lá, a taxa estava próxima de zero, e aqui já subiu para 11,75%.

Essas pressões inflacionárias atrapalham os planos de reeleição do presidente Jair Bolsonaro, que imaginava entrar no processo eleitoral de vento em popa, com a economia em recuperação, gerando novos empregos e relativo aquecimento da economia, em decorrência da injeção de recursos federais no orçamento das famílias, como o Auxílio Brasil, no valor de R$ 400. O impacto direto do programa nos bolsões de pobreza das grandes cidades e do interior totalizará R$ 90 bilhões em transferência de renda.

Bolsonaro pretende gastar muito na eleição: R$ 30 bilhões em saques antecipados do FGTS; R$ 56 bilhões do décimo terceiro adiantado para pensionistas e aposentados do INSS; R$ 120 bilhões de subsídios para os combustíveis; R$ 230 bilhões de renúncias fiscais. Os cortes de impostos e subsídios fiscais poderão chegar a R$ 230 bilhões. Essas medidas, porém, são consideradas inflacionárias pelos agentes econômicos.

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