DITADURA

Ditadura torturou chineses por achar que agulhas de acupuntura eram veneno

Comissão de Anistia aprovou nesta terça pedido de desculpa a nove chineses, de uma missão diplomática, que foram presos, torturados e condenados a dez anos de prisão

João Vicente Goulart, filho de Jango, deposto pela ditadura, é autor do pedido de anistia aos nove chineses presos, torturados e condenados a dez anos de prisão no início da ditadura -  (crédito: Evandro Éboli/CB/D.A.Press)
João Vicente Goulart, filho de Jango, deposto pela ditadura, é autor do pedido de anistia aos nove chineses presos, torturados e condenados a dez anos de prisão no início da ditadura - (crédito: Evandro Éboli/CB/D.A.Press)
postado em 02/04/2024 19:46

Completa 60 anos amanhã (3/4) o caso de perseguição da ditadura que talvez mais exponha ao vexame o senso de desconfiança dos militares golpistas de 1964. A Comissão de Anistia aprovou nesta terça a condição de anistiados políticos a nove chineses que foram presos, torturados, acusados de subversivos e de estarem no Brasil para implantar o comunismo no país. Se tratava, na verdade de uma missão diplomática da China que estava no Brasil comercializando algodão.

Os chineses condenados a dez anos prisão e foram expulsos do Brasil, sem que tenham encontrado qualquer prova que demonstrasse a teoria descabida dos militares.

Entre as "provas" encontradas pelas autoridades estavam algumas agulhas de acupuntura, entendidas pelos agentes do novo governo como uma arma mortífera, que acreditavam se tratar de injeções envenenadas que seriam aplicadas em alguns oficiais.

O caso foi ridicularizado no julgamento da comissão. O relator, o conselheiro Manoel Almeida, citou em seu voto que a suposta ameaça foi tratada como "um plano diabólico que saía da aventura do 007", famoso agente secreto fictício do serviço de espionagem britânico.

"Estou tentando não rir e dar um ar de solenidade a esse julgamento", disse o relator.

"Bastante surreal acreditar que a China de Mao (Mao Tsé-Tung, líder da revolução chinesa) mandou nove homens, com crachá diplomático, para aplicar injeção indolor que fulmina alguém", se manifestou o relator.

Outro conselheiro, Marcelo Uchôa, disse se tratar do "processo mais esdrúxulo" que já julgou no colegiado.
"Além de tudo é xenofobia. Só foram presos por serem chineses. E foram achincalhados pela ditadura", disse Uchôa.

O pedido de anistia aos chineses é de autoria de João Vicente Goulart, filho do ex-presidente João Goulart, deposto pelos militares. O governo brasileiro da época ainda se apropriou do dinheiro que estava em poder dos detidos, que, em valor atualizado, chega a R$ 800mil.

O advogado Victor Neiva, quem defendeu o pedido a favor dos chineses na comissão, afirmou que o regime militar "precisa prendê-los para justificar a ameaça comunista". E completou:

"Talvez seja esse caso o maior erro do Judiciário da nossa história. Foi instalada uma ação penal com base apenas na nacionalidade dos réus. Eles foram presos, barbaramente torturados e esse processo permanece engavetado", disse. O caso, oficialmente, ainda não foi extinto judicialmente.

A anistia coletiva aos chineses foi aprovada por unanimidade e, no final, a presidente da comissão, Eneá Stutz, fez o pedido de perdão oficial do Estado. Dos nove chineses, apenas um está vivo.

Tags

Gostou da matéria? Escolha como acompanhar as principais notícias do Correio:
Ícone do whatsapp
Ícone do telegram

Dê a sua opinião! O Correio tem um espaço na edição impressa para publicar a opinião dos leitores pelo e-mail sredat.df@dabr.com.br

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação