DIPLOMACIA

Dilema diplomático: o equilíbrio do Brasil entre EUA e Venezuela

A invasão dos EUA na Venezuela reacende tensões diplomáticas e coloca o Brasil em posição delicada. Especialistas veem risco de mais pressão política e comercial, enquanto o Itamaraty defende soberania, diálogo e o direito internacional

O Brasil entrou em um momento delicado da diplomacia internacional com a invasão dos Estados Unidos à Venezuela. Pouco tempo após sanar o tarifaço aplicado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, o país se vê, agora, em um período complicado devido aos ataques e ameaças dos EUA aos países vizinhos Venezuela e Colômbia. O Brasil se posicionou a favor da soberania nacional de cada país e, em manifestação conjunta com México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha, ressaltou a preocupação com precedente aberto no episódio do começo de janeiro e com o rechaço do direito internacional. E especialistas acreditam que a tensão não deve diminuir em 2026, já que as eleições da Colômbia e do Brasil se aproximam, e apostam que Donald Trump deve manter pressão nas regiões que favoreçam seus interesses estratégicos.

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O conselheiro e diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), Márcio Coimbra, acredita que a invasão da Venezuela tensiona a relação entre o Brasil e os EUA e que não são assuntos separados. "Não é um assunto separado, mas, sim, o ponto de partida para uma reconfiguração regional que afeta diretamente o Brasil, embora o impacto diplomático tenha nuances diferentes em comparação a um eventual ataque à Colômbia", disse.

 

Para Coimbra, a ação militar em Caracas abre um precedente perigoso para a soberania sul-americana e que gera um desgaste imediato na confiança entre os dois países. Contudo, o diretor ressalta que a ditadura de Nicolás Maduro criou uma distinção pragmática. "Enquanto um ataque à Colômbia seria visto como uma agressão a um aliado democrático, a intervenção na Venezuela seria tratada sob a ótica da Realpolitik, na qual o Brasil precisaria equilibrar sua retórica de não intervenção com a realidade de um regime já isolado e sob pesadas sanções", explicou.

Ainda segundo Coimbra, o prejuízo diplomático depende de fatores além de ideologia e que o cenário é complexo, porque a queda de Maduro pode trazer à tona informações sensíveis sobre o financiamento de movimentos políticos na região por meio do narcotráfico, o que colocaria o governo brasileiro em uma posição defensiva. Entretanto, mesmo com o estresse na relação, um rompimento total é evitado pela interdependência econômica e pela necessidade mútua de estabilidade. "O relacionamento Brasil-EUA, nesse caso, passaria a ser ditado por uma vigilância constante, na qual o Brasil tentaria preservar sua autonomia sem se isolar completamente da nova ordem estabelecida pela Casa Branca na vizinhança", defendeu.

Futuro incerto

Com as recentes ameaças de ataques à Colômbia feitas por Trump, especialistas acreditam que a relação entre EUA e Brasil pode estremecer ainda mais. O advogado licenciado nos EUA e professor de pós-graduação em direito migratório, Vinícius Bicalho, não descarta que o risco de novas medidas comerciais possam ser usadas como ferramentas de pressão norte-americanas no Brasil. "Pode aumentar o risco de atrito porque, quando a relação política azeda, medidas comerciais viram ferramenta de pressão. E o 'tarifaço' já aparece como precedente recente com impacto nas exportações em 2025. Mas, na prática, tarifa é decisão de política econômica e doméstica dos EUA, então o gatilho pode nem ser a Venezuela em si, e, sim, negociações mais amplas. O Brasil normalmente tenta 'descolar' a pauta comercial da crise regional, mas nem sempre consegue", destacou. 

De acordo com o professor, o Brasil deve manter uma linha pragmática de defesa do direito internacional para tentar preservar os canais de diálogo com Washington. Já com o cenário incerto na América Latina, Bicalho explica que a América Latina, no momento, está dividida, já que países como a Argentina não condenaram a operação realizada na Venezuela. Contudo, na visão do advogado, os países latino-americanos precisam reforçar o Estado de Direito, segurança jurídica e estabilidade interna para que os países evitem se tornarem alvos fáceis de pressão externas, seja por sanções, seja por coerção econômica. Dessa forma, os países latino-americanos poderiam se proteger de intervenções externas e evitar uma divisão ainda maior. 

Situação complicada

Sobre uma possível invasão ou ataque dos EUA ao Brasil, os especialistas divergem. Para o diretor de Relações Internacionais da Abrig, Márcio Coimbra, a assinatura de diretrizes que classificam os cartéis e facções da América Latina como organizações terroristas globais mudou a interpretação de segurança pública para um estado de conflito armado declarado. "Não podemos de forma alguma descartar tentativas de confronto direto por parte dos Estados Unidos contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). A Casa Branca já demonstrou, por meio da Operação Southern Spear, que está disposta a utilizar força letal, drones e operações cirúrgicas de inteligência militar para neutralizar o que define como "narcoterrorismo", especialmente quando há indícios de que essas facções colaboram com regimes adversários ou facilitam o fluxo de fentanil para território americano", alertou. 

Já para o professor Bicalho, esse tipo de confronto é "extremamente improvável". Na visão do advogado, o tamanho do território brasileiro e a estrutura das forças armadas do país dificultam atos militares por parte dos EUA do ponto de vista de custo-benefício. "O Brasil é um país continental, com Forças Armadas estruturadas, peso político e econômico relevante, e uma invasão geraria um custo diplomático e estratégico gigantesco, mesmo para os próprios EUA", argumentou. Bicalho também destacou as próprias ações em solo norte-americano, já que as próprias instituições políticas dos Estados Unidos podem limitar futuras ações militares. "Mesmo dentro dos EUA, você já vê sinais de freios institucionais e disputa interna sobre o alcance dessas ações militares, o que torna ainda menos crível imaginar uma aventura desse tamanho contra o Brasil", relembrou. Para o especialista em direito migratório, o que será mais plausível nessa relação estremecida é o uso de pressões já conhecidas, como tarifas, sanções, restrições financeiras, exigências políticas, disputa de narrativas e condicionantes econômicos. 

Ações internas

Até aqui, o Brasil tem marcado posição firme em condenar a invasão da Venezuela e tentar evitar que mais ataques militares ocorram nos vizinhos, como a Colômbia. Ao Correio, o Ministério de Relações Exteriores (MRE) disse que "não há 'escalada de tensão' entre o Brasil e os Estados Unidos". O Itamaraty afirmou que a posição adotada pelo país é coerente com a tradição da política externa e com a Constituição. "A solidez e o respeito internacional da posição brasileira demonstram-se pelo fato de o ministro Mauro Vieira ter sido procurado, para falar da situação na Venezuela, por autoridades internacionais das mais diversas regiões e dos mais diferenciados posicionamentos políticos", destacou. 

Segundo o MRE, desde 3 de janeiro, o ministro tem mantido contato e articulado acerca da situação na Venezuela com os chanceleres de Venezuela, Uruguai, México, França, África do Sul, Colômbia, Espanha, Canadá, Noruega, Irã e Países Baixos. Mauro Vieira também conversou com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e com a Alta Representante da União Europeia para Negócios Estrangeiros e Política de Segurança. Na semana passada, o Brasil juntamente com México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha, condenaram a invasão em uma conta conjunta. "Reafirmamos o caráter da América Latina e do Caribe como zona de paz, construída sobre o respeito mútuo, a solução pacífica das controvérsias e a não intervenção, e fazemos um apelo à unidade regional, para além das diferenças políticas, diante de qualquer ação que coloque em risco a estabilidade regional. Da mesma forma, exortamos as Nações Unidas e os mecanismos multilaterais pertinentes a fazer uso de seus bons ofícios para contribuir para a desescalada das tensões e para a preservação da paz regional", defenderam. 

Já no Legislativo, o deputado federal e presidente da Frente Parlamentar Brasil-China e BRICS, Fausto Pinato (PP-SP), elogiou a forma como o Brasil se posicionou ante os ataques dos EUA. "Rompendo com décadas de cautela diplomática característica do Itamaraty, o Brasil posicionou-se de maneira inequívoca ao lado de seus parceiros estratégicos. Essa mudança de paradigma representa um marco histórico em nossa política externa", afirmou. Pinato defende a criação de uma nova frente, da Indústria de Defesa, para proteger a soberania brasileira dentro do Congresso. "A soberania nacional não se sustenta apenas em declarações de princípios, ela requer capacidades materiais de dissuasão. Uma base industrial de defesa autônoma é condição indispensável para que o país exerça plenamente sua independência, livre de pressões de fornecedores externos que podem instrumentalizar essa dependência para fins políticos", defendeu. 

O deputado também cobrou dos integrantes da frente do BRICS que deem celeridade na cooperação técnica de defesa com compartilhamento de  tecnologias, desenvolvimento conjunto de sistemas de defesa e a coordenação estratégica entre os países membros para fortalecer a segurança individual. "O monopólio tecnológico militar tem sido usado como instrumento de pressão política e, como ficou evidente, de agressão direta", ressaltou Pinato. "Quando uma potência age à margem do Conselho de Segurança, cabe aos demais Estados reafirmarem os princípios da Carta das Nações Unidas. Como parlamentar brasileiro comprometido com a multipolaridade, continuarei mobilizando esforços para que o Brasil assuma protagonismo nessa nova ordem internacional que se desenha", afirmou.

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