
Em seu último ano, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um ambiente político desafiador, marcado por um Congresso hostil, disputas por narrativas e a necessidade de negociações complexas com o Centrão para aprovar pautas estratégicas. Depois de vitórias econômicas nos três primeiros anos de gestão, como a aprovação da reforma tributária e a isenção do Imposto de Renda (IR), o foco do Planalto se volta, agora, para o campo trabalhista, tentando reforçar a base eleitoral e consolidar a imagem de governabilidade.
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Nas últimas semanas de dezembro, Lula indicou em seus discursos qual será a direção do governo na reta final antes das eleições. Entre os projetos prioritários estão a regulamentação dos trabalhadores por aplicativo, principalmente entregadores, e o fim da escala 6x1.
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O primeiro é capitaneado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que como deputado federal já havia proposto a regulamentação dos aplicativos. O segundo depende da articulação do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, que permanece no governo a pedido do presidente, mesmo tendo a opção de disputar a Câmara dos Deputados. "Ele me pediu — e pedido de presidente, vocês sabem, não é um pedido, é uma ordem — que eu continue no ministério, dando sequência ao trabalho que estamos fazendo pelo país. Um trabalho que está dando resultados e que ainda tem muito o que avançar", disse Marinho em suas redes sociais.
O fim da escala 6x1 ganhou destaque nas redes sociais e entre setores fora da esquerda, e o governo avalia que aprovar essa medida pode ter impacto positivo na popularidade do presidente. A regulamentação dos aplicativos, por sua vez, aproxima Lula de trabalhadores autônomos que optam por não seguir modelos tradicionais de emprego, um grupo historicamente distante do governo. Há, também, a pauta da tarifa gratuita nacional para transporte público, que ainda depende de estudos do Ministério da Fazenda sobre viabilidade econômica.
Em 10 de dezembro, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou uma PEC que extingue a escala 6x1 e reduz gradualmente a jornada para 36 horas semanais. A medida, no entanto, gerou críticas: o presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), Antonio Alban, classificou a proposta como "inoportuna e eleitoreira", enquanto a Confederação Nacional do Comércio (CNC) defende negociações coletivas.
Apesar de pautas de grande apelo popular, Lula enfrenta um Congresso cada vez mais hostil. O Centrão, com interesses próprios, promete vender caro qualquer apoio a projetos que possam beneficiar eleitoralmente o presidente em 2026. A situação se agravou após crises simultâneas com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que chegaram a romper publicamente com lideranças do governo.
Para rebater o cenário de confronto entre os Poderes, Lula chegou a telefonar para Alcolumbre em 19 de dezembro, em gesto de agradecimento pela aprovação do Orçamento para 2026. O gesto já havia sido realizado em 15 de dezembro também com o presidente da Câmara, Hugo Motta. No mesmo dia, Lula também minimizou a crise com o Congresso Nacional atribuindo as derrotas do governo em votações importantes para o Executivo devido à falta de articulação política de sua própria base governista.
Derrotas em 2025
As derrotas ditas por Lula incluem a aprovação do Projeto de Lei (PL) da Dosimetria pelo Senado Federal. Mesmo a proposta tendo sido vetada na quinta-feira, durante cerimônia em memória dos tanques de 8 de janeiro, a vitória expressiva com 48 votos favoráveis e apenas 25 contrários e uma abstenção mostrou as fragilidades do governo na Casa Legislativa. Porém, o embate não acabou: parlamentares de direita prometem derrubar o veto assim que voltarem do recesso, em fevereiro, enquanto a base governista se mobiliza para manter a decisão do presidente. "Lula não quer paz. O que estamos vendo é uma perseguição política escancarada, seletiva e injusta. Na primeira sessão do Congresso Nacional, vamos trabalhar para derrubar esse veto", escreveu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, em suas redes sociais.
Antes disso, um dos momentos mais marcantes das derrotas do petista no Congresso foi com a criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as fraudes do INSS, que em junho de 2025, contou com mais de R$ 2,8 bilhões bloqueados pela Advocacia-Geral da União (AGU) após a suspeita de fraudes contra aposentados e pensionistas. Na época que a comissão foi criada, a base do Governo temia que as oitivas fossem desvirtuadas por parlamentares da oposição e solicitaram que somente a AGU direcionasse as investigações, que foram derrotadas pela ala bolsonarista e hoje, o grupo atua sob o comando do senador Carlos Viana (Podemos-MG), tendo como relator o deputado Alfredo Gaspar (União-AL).
Em outubro, a Câmara impôs outra derrota retirar de pauta a medida provisória (MP) com alternativas ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), e inviabilizando a apreciação da proposta que perdeu a validade no Parlamento. A MP era considerada essencial pela equipe econômica do Governo e renderia cerca de R$ 17 bilhões aos cofres públicos neste ano de 2026, ano eleitoral. A proposta alteraria ainda as regras de tributação sobre investimentos, fintechs e compensações tributárias.
Para o cientista político Lucas Fernandes, a deterioração da relação de Lula com o Congresso ocorreu de maneira diferenciada nas duas casas. Na Câmara, houve uma ruptura do Hugo Motta com o líder do PT, Lindbergh, contaminando a relação do Planalto com a Casa. No Senado, a indicação de Messias desagradou Davi Alcolumbre, não apenas pelo nome, mas pelo modo como a indicação ocorreu — segundo Fernandes, Alcolumbre teria sido avisado pelas redes sociais, sem receber um telefonema de Lula, sendo que o candidato preferido dele era Rodrigo Pacheco. "É um momento bastante tenso, e o governo precisa colocar o time de elite em campo para tentar reconstruir pontes", destaca Fernandes.
Danandra Rocha
Repórter de políticaFormada pela Faculdade Anhanguera de Brasília, tem experiência em assessoria, televisão e rádio. É repórter da editoria de Política, na cobertura do Congresso.

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