
Está no prelo o terceiro volume da trilogia Uma longa jornada até a democracia, dedicada à história do centenário Partido Comunista Brasileiro (PCB), fundado em 1922. Editada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP), a obra percorre um século de lutas, derrotas, clandestinidade, reinvenções e rupturas do chamado “Partidão”.
O primeiro volume, de autoria do jornalista Carlos Marchi, acompanha a trajetória comunista até o 6º Congresso, em 1967, realizado na mais rigorosa clandestinidade. O segundo, escrito por Eumano Silva, retrata a resistência ao regime militar, que prendeu milhares de militantes, assassinou dirigentes históricos e desmantelou 14 gráficas do Voz Operária, sem, contudo, anular o papel do PCB na articulação da frente democrática que derrotou a ditadura.
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O terceiro volume, novamente assinado por Marchi, trata do período mais controverso da história do partido: a mudança de nome para Partido Popular Socialista (PPS), em 1992, e o caminho que levou à criação do Cidadania 23, em 2019. O personagem central dessa etapa é o ex-senador Roberto Freire, que comandou a legenda por três décadas e hoje voltou à presidência por decisão judicial, contra a vontade de 69 dos 101 membros do Diretório Nacional. O livro fecha o ciclo centenário, acaba antes da crise fratricida que o partido atravessa. Essa é uma outra história.
Durante os dois anos de afastamento de Freire, o partido foi presidido pelo ex-deputado fluminense Comte Bittencourt, cuja eleição unânime virou um imbróglio cartorial e judicial, que mergulhou o Cidadania num limbo institucional. O enredo político é conhecido. O PPS nasceu em 19 de março de 1992, quando a maioria da direção do PCB decidiu abandonar o marxismo-leninismo e adotar o socialismo democrático, preservando a sigla 23 e o patrimônio partidário. A decisão foi contestada por setores que refundaram o PCB — o chamado “Pecebinho”.
Nos anos 1990, o PPS tentou se afirmar como uma esquerda democrática e reformista, lançando Ciro Gomes à Presidência em 1998 e 2002. No início dos anos 2000, apoiou o primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas rompeu com o PT em 2004. A partir daí, aproximou-se do centro e da centro-direita, especialmente do PSDB, apoiou o impeachment de Dilma Rousseff e integrou o governo Michel Temer.
Em 2019, já em crise de identidade, adotou o nome Cidadania, com objetivo de atrair para seus quadros lideranças dos movimentos cívicos que protagonizaram o impeachment e servir de plataforma para a candidatura de Luciano Huck à Presidência, defendida por Freire, mas que não vingou.
Apesar de ter votado majoritariamente com o governo Jair Bolsonaro no início da legislatura, durante a pandemia, o partido aprovou indicativo de impeachment em 2021. Em 2022, integrou a Federação PSDB-Cidadania, apoiou Simone Tebet no primeiro turno e Lula no segundo. Em 2025, dissolveu a federação e iniciou aproximação com o Partido Socialista Brasileiro (PSB), acenando com nova federação ou até fusão.
A crise atual
É nesse ponto que está o cerne da crise atual. O Cidadania vive sob uma presidência cartorial, exercida por Roberto Freire por força de liminar concedida por um desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, enquanto o Diretório Nacional resiste à sua volta e tenta manter Comte Bittencourt no comando. O resultado é a paralisia: contas bloqueadas, aluguel atrasado, funcionários e fornecedores sem receber, internet cortada, apesar de mais de R$ 3 milhões em caixa.
O conflito teve origem no não-registro, em cartório, da ata que elegeu Comte, sob a alegação da que não fora anexada uma carta de licença de Freire — lida pelo sindicalista Davi Zaia em reunião, mas nunca apresentada. A reunião foi gravada. Freire nega tê-la assinado. Desde então, o cartório passou a rejeitar todas as atas subsequentes. Em meio ao impasse, Freire foi empossado administrativamente e, depois, judicialmente.
A disputa chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas o ministro Gilmar Mendes manteve a decisão do TJDFT, por entender tratar-se de matéria interna. No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a ministra Cármen Lúcia também se declarou incompetente para julgar o caso, com base em jurisprudência do Supremo. Nos bastidores, a crise tem outro vetor: a disputa pelo controle legal do registro partidário e do fundo eleitoral. É protagonizada pelo tesoureiro do Cidadania e líder da bancada, Alex Manente (SP) — aliado do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do governador Tarcísio de Freitas —, que contratou o prestigiado advogado Rodrigo Mudrovitsch para judicializar a disputa.
Manente se fez acompanhar de Mudrovitsch e do presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP), em despachos auriculares e conta com o apoio Motta e do governador do Distrito Federal, Ibanez Rocha (MDBO). O parlamentar defende uma federação com o Republicanos, partido ligado à Igreja Universal, com vistas a uma futura fusão, e não apenas por eventual conveniência eleitoral em São Paulo. Sem o “S” na sigla, as portas do Cidadania ficaram abertas para políticos bolsonaristas.
Antítese da federação com o PSB, a proposta de federar com o Republicanos, simbolicamente, pode significar o ponto final da longa e tortuosa história do antigo Partidão. A maioria dos militantes oriundos da fundação do PPS — ex-comunistas, socialistas e social-democratas — rejeita a deriva da legenda ao Centrão, se sente traída por Freire e não reconhece estatura para liderar o partido em Manente, que defende um grande expurgo na legenda. O Rubicão será a reunião do Diretório Nacional nesta segunda-feira.

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