
A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, em novembro, abriu espaço para uma reorganização silenciosa dentro da direita bolsonarista no Congresso. Desde então, parlamentares e interlocutores do Partido Liberal (PL) passaram a observar com mais atenção a movimentação do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), hoje visto por setores da bancada como um possível novo polo de liderança do campo conservador. Essa percepção ganhou força após a caminhada organizada por Nikolas no fim de janeiro, até Brasília, quando o parlamentar reuniu apoiadores e aliados em um gesto interpretado, nos bastidores, como demonstração de força política.
Deputado mais votado do país nas eleições de 2022, Nikolas construiu capital político que extrapola Minas Gerais. Com mais de 40 milhões de seguidores nas redes sociais, ele se tornou um dos principais nomes da direita no ambiente digital e, nos últimos meses, ampliou a presença institucional e simbólica no debate político nacional e internacional.
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A reportagem procurou lideranças do PL para comentar o movimento em torno do deputado. Parte delas preferiu falar reservadamente. Um dos poucos a comentar publicamente foi o presidente do PL Jovem do Distrito Federal, Evandro Neiva, que avalia que o protagonismo de Nikolas é resultado de um processo que já vinha se desenhando. "O Nikolas, hoje, representa uma geração que consegue dialogar com a base conservadora de forma direta, sem intermediários. Ele ocupa um espaço que ficou mais evidente depois da prisão do presidente Bolsonaro", afirmou.
Nos bastidores da Câmara, interlocutores relatam que a ascensão do deputado mineiro já é percebida como um fenômeno em consolidação. Segundo relatos feitos à reportagem, há parlamentares que enxergam em Nikolas a capacidade de aglutinar uma ala específica da direita bolsonarista, com identidade própria, ainda que o deputado mantenha discurso público de respeito e lealdade a Jair Bolsonaro.
Essa leitura também aparece dentro do próprio PL em Minas Gerais. Em publicação nas redes sociais, uma liderança estadual do partido chegou a usar o termo "nikolismo" ao divulgar uma foto ao lado do parlamentar, numa sinalização de que o movimento em torno do deputado já começa a ganhar contornos conceituais entre aliados.
A trajetória recente de Nikolas ajuda a explicar o protagonismo. Após a pandemia, o deputado acumulou episódios de forte repercussão nacional, especialmente com vídeos e discursos que viralizaram nas redes sociais, tornando-se um dos principais nomes da oposição ao governo Lula. Mais recentemente, ganhou destaque ao atuar na reação da direita à proposta de mudanças no sistema de pagamentos instantâneos, o Pix, tema que mobilizou sua base digital e foi amplamente explorado em conteúdos publicados nas plataformas.
O deputado também ampliou a atuação fora do país. Em agenda recente no Parlamento Europeu, Nikolas participou de debates e encontros que reforçaram a visibilidade internacional, inserindo seu nome em discussões ligadas à direita conservadora global.
Para o cientista político e especialista em marketing político digital Marcelo Vitorino, o fenômeno em torno de Nikolas não é casual. "Ele reúne três elementos que hoje são centrais na política: forte presença digital, identidade ideológica clara e capacidade de mobilização. Isso faz com que ele seja visto como liderança, independentemente de um aval formal do partido", avalia. Outro cientista político ouvido pela reportagem ressalta que o crescimento do deputado ocorre em um contexto de reorganização interna da direita, ainda fortemente ligada à figura de Bolsonaro, mas carente de novos vetores de liderança.
Apesar disso, aliados ponderam que a ascensão de Nikolas não significa, ao menos por ora, uma ruptura com o ex-presidente. Diferentemente dos filhos de Bolsonaro, cuja representatividade política é vista como mais restrita a determinados segmentos, Nikolas tem conseguido dialogar com uma base mais ampla da direita conservadora, inclusive entre parlamentares que não integram o núcleo familiar do ex-presidente.
Esse processo ocorre em meio a fissuras crescentes dentro do próprio PL em diferentes regiões do país. Em Santa Catarina, por exemplo, a deputada federal Carolina De Toni vive um impasse interno após a sinalização do presidente do partido, Valdemar Costa Neto, de apoio ao vereador Carlos Bolsonaro na disputa pelo Senado. Diante do movimento, De Toni passou a indicar, nos bastidores, que pode deixar a legenda para disputar o cargo por outra sigla — possibilidade que ainda não foi formalizada. O episódio escancarou divisões internas no partido e ganhou contornos ainda mais sensíveis quando a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro manifestou apoio à deputada, em detrimento do filho do ex-presidente.
Outras tensões também evidenciam esse redesenho de forças. No Rio Grande do Norte, o senador Rogério Marinho chegou a demonstrar interesse em disputar o governo do estado, mas acabou desistindo da candidatura. Segundo informações de bastidores, a decisão teria sido tomada a pedido de Jair Bolsonaro, para que Marinho atuasse como coordenador da campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência, movimento que gerou desconforto entre aliados locais e reforçou a percepção de centralização das decisões no entorno familiar do ex-presidente.

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