O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca no início desta semana para mais uma viagem à Ásia, continente do qual se aproximou ainda mais em resposta ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos desde o ano passado. O petista visitará a Índia e a Coreia do Sul, com roteiro de sete dias, para tratar de temas como os impactos da inteligência artificial (IA), minerais críticos e a ampliação do comércio com os dois países, incluindo um acordo entre Mercosul e Índia e a abertura do mercado sul-coreano para a carne brasileira.
O destaque da viagem será a Cúpula sobre Impacto de Inteligência Artificial, realizada na capital indiana, Nova Déli, entre quarta e quinta-feira. Lula fará um discurso sobre os riscos que a tecnologia traz para o mundo, como a divulgação de notícias falsas, discriminação disseminada por algoritmos e o enfraquecimento dos processos democráticos — como eleições. "São preocupações legítimas, que, naturalmente, farão parte do nosso posicionamento durante a Cúpula. Todo o esforço em termos de discussão justamente é sobre como você reforça a confiança nos sistemas de IA permitindo uma inovação responsável e ao, mesmo tempo, que beneficie a todos", explicou o diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia, Inovação e Propriedade Intelectual do Itamaraty, embaixador Eugênio Vargas Garcia.
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Mais de 100 países confirmaram participação no evento, que está em sua quarta edição. Desses, 50 terão representantes de alto nível (como ministros), e 20 estarão com seus chefes de Estado na Cúpula, incluindo Bolívia, Guiana, França, Suíça, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido. Em conversa com jornalistas na sede do Itamaraty, o embaixador Garcia destacou que será a primeira vez na história que um presidente brasileiro participa de um evento global de alto nível dedicado à IA. "Você vê que esse tema, anos atrás, não era tocado nos fóruns internacionais. Mas, como vocês têm acompanhado, hoje adquiriu uma conotação importantíssima", explicou.
Também vão participar representantes de big techs como Microsoft, Google, OpenAI, Nvidia, Anthropic, Deepmind e Ericsson. A Cúpula terá como resultado principal uma declaração conjunta entre as nações participantes, mas que deve ser um documento curto, para que haja consenso. Também devem ser criados uma carta para difusão democrática da IA, uma rede internacional de IA para instituições científicas, e um guia para o avanço da infraestrutura resiliente em IA. O Brasil também participa de grupos de trabalho para criar um repositório de iniciativas em bases de dados abertas para aumentar a confiança nos sistemas de IA, e uma nota de orientação sobre a governança em inteligência artificial.
"No fundo, nós temos um desafio muito grande que é garantir o potencial extraordinário da tecnologia em termos de fomento, desenvolvimento e adoção de IA no Brasil, e, ao mesmo tempo, prevenir e mitigar riscos de curto, médio e longo prazos", disse ainda Garcia. Em paralelo à Cúpula, na sexta-feira, o governo brasileiro realiza também o evento IA Para o Bem de Todos e Perspectivas Brasileiras Para o Futuro da IA, com a presença de ministros de Estado. Ao menos 10 titulares da Esplanada acompanham Lula na viagem, mas o Itamaraty não confirmou os nomes. Às margens do evento, o presidente terá também encontros bilaterais com outros chefes de Estado e líderes empresariais, que ainda não foram confirmadas pela chancelaria.
Relação Brasil-Índia
Após a Cúpula, no sábado, Lula fará uma visita de Estado e será recebido pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, para uma reunião a sós e para um encontro ampliado, com a presença de outras autoridades. Segundo o Itamaraty, a visita visa finalizar a Declaração Brasil-Índia Sobre Parceria Digital Para o Futuro e um memorando de entendimento entre o Ministério de Minas e Energia e o governo indiano sobre a exploração de minerais críticos e terras raras. Ao todo, oito atos devem ser assinados durante a visita do presidente Lula.
O petista também quer reforçar as negociações para a ampliação do acordo de comércio preferencial entre Mercosul e Índia, validar acordo para extensão da validade de vistos para negócios e turismo de cinco para 10 anos entre os dois países, e anunciar uma colaboração entre a Embraer e a empresa indiana Adani Defence and Aerospace. O campo internacional também terá destaque na conversa — Brasil e Índia possuem interesses em comum ao aumentar a participação de países do Sul Global nas negociações externas.
"O presidente Lula e o primeiro-ministro Modi terão a oportunidade de trocar impressões sobre a conjuntura mundial. Em particular, os desafios ao multilateralismo e ao comércio internacional, e a necessidade de reforma abrangente das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Os dois líderes deverão também reiterar seu compromisso com a paz em Gaza, com respeito à soberania das nações e à democracia", disse a secretária de Ásia Pacífico do Itamaraty, Susan Kleebank. Após a reunião, Lula e Modi participam do Fórum Empresarial Brasil-Índia. Os dois países possuem a meta de elevar o fluxo comercial para US$ 20 bilhões até 2030. No ano passado, o total foi de US$ 15 bilhões, aumento de 25% em relação ao ano anterior, e maior valor da série histórica. O brasileiro embarca para a Coreia do Sul no domingo.
Coreia do Sul
Na segunda-feira da próxima semana, Lula fará a primeira visita de Estado a Seul e terá uma reunião fechada e uma ampliada com o presidente Lee Jae-myung. O petista esteve na Coreia do Sul em 2005 e em 2010, mas o encontro não teve o mesmo status diplomático — nesse tipo de visita, o representante do país estrangeiro também se reúne com os chefes dos demais Poderes do país anfitrião.
"A visita sedimenta sim a ótima relação entre os dois presidentes, e simboliza a importância que Brasil e Coreia conferem à relação bilateral estabelecida há mais de seis décadas", disse a embaixadora Susan Kleebank. O principal acordo que será assinado é o Plano de Ação Trienal 2026-2029, que eleva a relação diplomática de "parceria cooperativa abrangente" para "parceria estratégica".
O comércio também é foco da visita. Em 2025, o fluxo foi de US$ 10,8 bilhões, com superavit de US$ 174 milhões para o Brasil. A Coreia do Sul é o quarto maior parceiro comercial do Brasil na Ásia, e 13º maior no mundo. "Buscamos aprofundar nossa relação comercial com a Coreia, com destaque para a abertura de mercados agropecuários como carne bovina e carne suína, além da atração de investimentos e ampliação de comércio em produtos de maior valor agregado", explicou a embaixadora. Lula também participa do Fórum Empresarial Brasil-Coreia do Sul, antes de voltar ao Brasil, no dia 24 de fevereiro.
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