A decisão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS de aprovar a quebra de sigilo bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, na última quinta-feira (26/2), adicionou um novo componente ao cenário político-eleitoral de 2026. Embora o procedimento não represente, por si só, acusação formal ou comprovação de irregularidade, o fato de atingir um filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desloca o episódio do campo técnico para o terreno simbólico e eleitoral.
Especialistas ouvidos pelo Correio apontam que o desgaste é potencial, mas variável conforme os desdobramentos. Em ano pré-eleitoral, eles avaliam que qualquer associação entre o núcleo familiar do presidente e uma comissão parlamentar tende a repercutir além do Congresso.
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Para Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), qualquer episódio que envolva um familiar direto do chefe do Executivo tende a gerar desgaste político. “Quando um episódio dessa natureza envolve um familiar direto do presidente da República, o desgaste político é inevitável,” afirma.
Segundo ele, a quebra de sigilo tem potencial de trazer novamente o combate à corrupção para o centro do debate eleitoral, favorecendo candidaturas que assumem posturas de ruptura e mudança. Esse efeito pode ser mais relevante sobre o chamado eleitor “pêndulo” — aquele que não tem fidelidade ideológica rígida e decide o voto principalmente por percepções sobre ética e estabilidade. Medeiros avalia que, se surgirem fatos novos com consistência probatória, o risco ao projeto de reeleição do presidente pode se intensificar.
Já Lucas Fernandes, cientista político e coordenador de Análise Política na BMJ Consultores Associados, destaca que o impacto é mais político e simbólico do que jurídico. Para ele, a quebra de sigilo “reativa um imaginário sensível da política brasileira: a associação entre governo, família presidencial e interesses privados”, mesmo na ausência de indícios formais de irregularidade.
Fernandes observa ainda que o episódio rompe um “acordo político tácito” entre partidos de evitar a exposição direta de parentes de autoridades sem vínculo formal com cargos públicos — uma prática que vinha sendo mantida, independentemente das investigações em curso. Ele avalia que esse precedente pode criar um novo ambiente de disputa política, em que vínculos familiares passem a ser foco frequente em comissões e campanhas eleitorais.
Do ponto de vista do governo, o especialista destaca que a CPMI é um espaço de exposição pública e construção de narrativas, onde informações mesmo sem ilegalidades podem ser usadas seletivamente para alimentar suspeitas e desgastar reputações. Ao mesmo tempo, o gesto pode gerar insegurança política ampla no Congresso, já que parlamentares de variados espectros temem que o precedente se volte também contra seus próprios grupos no futuro.
Para Marcelo Vitorino, professor e consultor em comunicação para governos e campanhas eleitorais, ainda é muito cedo para avaliar claramente os efeitos eleitorais. Ele lembra que a quebra de sigilo pode não resultar em identificação de irregularidades, e, em alguns cenários, pode até ser usada estrategicamente pela defesa do presidente para mostrar transparência e disposição em esclarecer fatos.
Segundo Vitorino, a forma como os dados serão apresentados ao público e os discursos construídos em torno disso — tanto pela oposição quanto pelo próprio governo — terão papel fundamental em definir se o episódio se traduzirá em desgaste duradouro ou ficará restrito ao noticiário político de curto prazo.
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