poder

Oposição exige que Erika Hilton deixe Comissão da Mulher

Direita bolsonarista faz protesto contra deputada trans ter sido eleita para presidência do colegiado

Deputadas da oposição bolsonarista na Câmara dos Deputados fizeram, ontem, uma manifestação contra a permanência da deputada Erika Hilton (PSol-SP) à frente da Comissão dos Direitos da Mulher. O grupo contesta o processo de eleição que a elegeu, afirma que houve irregularidades regimentais na votação e pede a renúncia da parlamentar trans da função.

O principal questionamento das oposicionistas, conforme salientou a deputada Carla Dikson (União-RN) na manifestação, recai sobre o resultado do primeiro escrutínio, quando Erika teria recebido 12 votos em branco. Conforme afirmou, isso configuraria derrota na disputa, o que, na avaliação das parlamentares conservadoras, impediria a realização de um segundo turno — etapa que garantiu a eleição da deputada do PSol.

Ouvida pelo Correio, a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) criticou a condução da presidência por Erika. "Nós fizemos representação no Conselho de Ética. O Novo fez, o Missão fez, eu fiz, outros gabinetes fizeram. Também apresentamos recurso porque consideramos que a eleição não foi legítima. Ela teve 12 votos em branco no primeiro escrutínio. Então, perdeu a eleição e, ainda assim, houve um segundo escrutínio, o que não tem amparo no regimento", afirmou.

Zanatta também acusou Erika de restringir o debate dentro do colegiado. Conforme disse, requerimentos apresentados pela oposição não chegaram sequer a serem analisados. "Hoje (ontem), ela sequer recebeu nossos requerimentos extrapauta, sob a argumentação de que seriam discriminatórios. Eu propus uma audiência pública para dar voz a mulheres que dizem ter sido perseguidas por ela, inclusive mulheres de esquerda. Tudo vira processo, tudo vira acusação. Não dá para debater assim", lamentou.

Zanatta ainda criticou o que chamou de imposição de visão ideológica no comando do colegiado. "Ela quer impor uma visão de mundo aos outros e qualquer discordância é tratada como transfobia. Isso inviabiliza um ambiente democrático e esvazia o objetivo principal da comissão, que é discutir políticas públicas para as mulheres", observou.

Na cerimônia de inauguração da Sala Lilás na Câmara dos Deputados — ambiente criado para acolher servidoras da Casa vítimas de violência —, Erika comentou com o Correio sobre os ataques que vem sofrendo por ter sido escolhida como presidente da Comissão dos Direitos da Mulher. Ela ressaltou que identidade de gênero não limita à capacidade de representação.

"O 'ser mulher' não é apenas biológico. É social, cultural e político. Temos condições de debater todas as pautas que envolvem a vida das mulheres", afirmou.

Erika também afirmou que a ampliação da presença de mulheres — incluindo as mulheres trans — em espaços de poder ainda enfrenta resistência dentro do Parlamento e classificou como preconceituosas as críticas à sua atuação no comando do colegiado. Segundo a deputada, o debate sobre representatividade tem sido atravessado por tentativas de deslegitimação.

"O que vemos é o discurso biológico sendo usado para encobrir ódio, preconceito e discriminação", criticou.

Segundo Erika, a presença de mulheres trans em postos de liderança provoca reação por romper com estruturas históricas. "Quando ocupamos esses espaços, isso incomoda porque quebra uma lógica de desigualdade que sempre nos colocou à margem", disse.


Mais Lidas