O tabuleiro das eleições presidenciais está quase armado. Ontem, em reunião ministerial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o vice-presidente Geraldo Alckimin (PSB), que deixa o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, será mesmo seu companheiro de chapa. Até agora, 14 ministros estão deixando o cargo para disputar as eleições — mais quatro poderão seguir o mesmo caminho.
Com isso, a cena eleitoral da disputa pelo Palácio do Planalto está quase definida. A incógnita é a decisão do governador gaúcho Eduardo Leite (PSD), que foi preterido por Gilberto Kassab, presidente da legenda, e está recebendo convites para disputar a eleição por outros partidos, como o Cidadania e o Solidariedade. O mais provável, por ora, é que conclua o mandato e tente fazer o sucessor.
Assim, o quadro eleitoral de 2026 chega à fase de definição com uma disputa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que as candidaturas alternativas permanecem fragmentadas e com baixo desempenho nas pesquisas. Os levantamentos mais recentes dos institutos Genial/Quaest, Datafolha e AtlasIntel convergem para um diagnóstico claro: a liderança de Lula no primeiro turno se mantém, mas empate técnico no segundo sinaliza que a eleição está aberta e muito competitiva.
No primeiro turno, Lula aparece com cerca de 45% das intenções de voto, mantendo uma dianteira confortável sobre os adversários. Já Flávio surge na faixa de 37% a 38%, consolidando-se como o principal herdeiro do capital político do bolsonarismo. Esse desempenho revela a capacidade de transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo diante de sua inelegibilidade e dos desdobramentos judiciais que marcaram o pós-2022. Além disso, as sucessivas internações de seu pai, até a recente adoção do regime de prisão domiciliar, vitimizaram ex-presidente e, com isso, suavizou a imagem e reduziu a rejeição de Flávio. A polarização persiste, mas se reorganiza com a presença de novos coadjuvantes, sem perder sua intensidade.
No segundo turno, o cenário se estreita. A Quaest indica 43% para Lula contra 41% para Flávio; o Datafolha aponta 46% a 43% em favor do petista; enquanto a AtlasIntel/Bloomberg registra uma inversão dentro da margem de erro, com 47,6% para o senador e 46,6% para o presidente. Esses números revelam um padrão: Lula lidera no ponto de partida, mas enfrenta dificuldades para ampliar sua vantagem na chegada, um eventual confronto direto, enquanto Flávio cresce à medida que a disputa se mantém entre em dois polos direita x esquerda.
Novos fatores estruturais complicam a vida de Lula, que mantém um eleitorado fiel, com forte presença entre os mais pobres e no Nordeste, sustentado pela memória de seus governos e pelas políticas sociais. Enfrenta um ambiente mais adverso do que em eleições anteriores, marcado pela percepção de aumento do custo de vida, mesmo em contexto de melhora de indicadores macroeconômicos, devido ao endividamento das famílias. O choque de petróleo, provocado pela guerra do Irã, impacta a inflação e limita a redução de juros, uma externalidade negativa difícil de mitigar. Já Flávio capitaliza o voto conservador, antipetista e religioso, além de mobilizar uma base altamente engajada nas redes sociais e no debate público.
Dinâmica plebiscitária
Fora desse eixo principal, as candidaturas alternativas apresentam desempenho modesto, com o encolhimento do espaço para uma terceira via. Ronaldo Caiado, candidato do PSD, aparece com cerca de 4% das intenções de voto. Seu perfil combina experiência política e discurso de segurança pública, mas sua tentativa de se apresentar como alternativa à polarização é prejudicada por posicionamentos que o aproximam do campo bolsonarista, como a defesa de anistia ao ex-presidente e a aliados.
Romeu Zema, por sua vez, oscila entre 2% e 3%. Com trajetória de gestor e discurso liberal, tenta se firmar como opção técnica e moderada, mas enfrenta dificuldades para ganhar densidade eleitoral em um cenário dominado por identidades políticas fortes. Sua candidatura dialoga com setores empresariais e com o eleitorado que rejeita tanto o PT quanto o bolsonarismo, mas ainda não conseguiu transformar esse nicho em base competitiva. Além disso, sua mineirice exagerada acaba confundida com provincianismo e confina sua candidatura aos limites de Minas.
No campo mais ideológico da direita, do Missão, Renan Santos aparece entre 1% e 2%. Sua candidatura tem forte presença nas redes e no debate político, mas baixa capilaridade nacional. Já Aldo Rebelo (Democracia Cristã), também na faixa de 1% a 2%, tenta ocupar um espaço nacionalista e crítico da polarização, apoiado em sua longa trajetória política. Mas igualmente enfrenta limitações, porque não tem apoio partidário expressivo nem forte presença nas redes sociais.
Resumo da ópera: a ausência de uma candidatura competitiva de centro é um dos elementos mais relevantes deste ciclo eleitoral, com Eduardo Leite e Ratinho Junior fora da disputa presidencial, seja por decisões partidárias, seja por cálculos estratégicos. O primeiro foi escanteado pelos caciques do PSD porque buscava uma liderança autônoma de centro. O segundo, pela conjuntura eleitoral do seu estado, em razão do favoritismo do senador Sergio Moro (PL). Com isso, o eleitorado moderado continua órfão e refém de uma dinâmica plebiscitária.
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