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Lula fala em retaliar, após expulsão de delegado da PF dos EUA

Governo americano ordenou a saída do país do agente que esteve à frente da prisão de Ramagem. Embaixada em Washington aguarda informações do Departamento de Estado

As relações entre Estados Unidos e Brasil sofreram um novo abalo com a decisão da Casa Branca de "solicitar" a saída do país de um delegado da Polícia Federal que atua em colaboração com o Serviço de Imigração (ICE), principal braço operacional da política de repressão a imigrantes ilegais da gestão Donald Trump. Sem citar nomes, o Escritório do Hemisfério Ocidental do governo dos EUA postou uma mensagem na rede social X em que denuncia uma suposta "manipulação" do sistema de imigração por um "funcionário brasileiro relevante" para promover "caça às bruxas políticas em território dos Estados Unidos".

O "funcionário relevante", segundo fontes do governo brasileiro, é o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que atuou na prisão do ex-chefe da Agência Brasileira de Informações (Abin), o deputado cassado Alexandre Ramagem, na semana passada. Ao ser informado do caso, na terça-feira, na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avisou que o governo brasileiro poderá lançar mão do princípio da reciprocidade, caso a expulsão do policial seja confirmada oficialmente pelas autoridades dos Estados Unidos.

"Não sei o que aconteceu, fui informado hoje (na terça-feira) de manhã. Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o deles no Brasil. Não tem conversa", disse Lula em entrevista a jornalistas, na frente do hotel em que estava hospedado, em Hannover. "Nós queremos que as coisas aconteçam da forma mais correta possível, mas não podemos aceitar essa ingerência, esse abuso de autoridade que alguns personagens americanos querem ter com relação ao Brasil", completou.

Até o fim da tarde dessa terça-feira, nenhum comunicado formal do governo dos EUA havia chegado ao Itamaraty, que acompanha o caso por meio da embaixada brasileira em Washington e pelo gabinete do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em Brasília.

O chanceler, que integra a comitiva de Lula na viagem à Europa, espera receber informações sobre os motivos que levaram a Casa Branca a solicitar a saída do país do delegado. Para ele, a decisão "não tem fundamento". O governo brasileiro não considera postagens em redes sociais como comunicação formal da Casa Branca.

"O delegado da Polícia Federal que está em Miami trabalha em conjunto com as autoridades americanas, está lá justamente para isso, nessa função que é baseada em um memorando de entendimento entre a Polícia Federal brasileira e as autoridades americanas. Portanto, todos sabiam e trabalharam em conjunto. Nós estamos aguardando esclarecimentos das autoridades americanas sobre a razão dessa medida que foi tomada", disse Vieira.

De acordo com a postagem do escritório norte-americano, republicada em português na conta da Embaixada dos EUA em Brasília, "nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar tanto pedidos formais de extradição quanto prolongar caças às bruxas políticas em território dos EUA. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso".

O Palácio do Planalto e o Itamaraty não têm dúvidas de que a pressão sobre o policial brasileiro está relacionada à prisão de Ramagem, na semana passada, por falta de passaporte válido. Ele foi condenado no Brasil por participação na tentativa de golpe de Estado que culminou nos atos do 8 de Janeiro, e vinha sendo monitorado pela Polícia Federal desde que fugiu do país, em setembro do ano passado, para pedir asilo político nos Estados Unidos. O nome de Ramagem também está incluído na lista de procurados internacionais da Interpol.

Com a prisão do deputado cassado, a PF tinha esperança de que o processo de extradição dele tivesse um desfecho que possibilitasse o cumprimento, em uma penitenciária brasileira, da pena de 16 anos de prisão imposta a ele pelo Supremo Tribunal Federal (STF) pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.

Ramagem, porém, ficou apenas dois dias preso nos EUA. Ele foi libertado sem necessidade de pagamento de fiança e aguarda, em Orlando, a decisão do governo americano de atender ou não ao pedido de asilo político que fez quando deu entrada no país, usando um passaporte diplomático da Câmara dos Deputados. A Polícia Federal informou que a prisão de Ramagem resultou de um trabalho de cooperação internacional.

Na terça-feira, Ramagem voltou a ironizar a informação da PF. Ele publicou em sua conta, na plataforma X, que está "aguardando a manifestação pública cooperativa do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues". Mais cedo, repostou uma mensagem da mulher dele, Rebeca Ramagem, em que ela diz: "A covardia é a arma dos fracos. Há exatamente uma semana, eu estava lutando pela verdade. Ela sempre aparece".

Substituta

O retorno do delegado Marcelo Ivo de Carvalho estava previsto pela PF. O diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, havia assinado, na sexta-feira, ato de nomeação da delegada Tatiana Torres para ocupar a função de oficial de ligação no ICE, no lugar de Carvalho. O chefe da PF confirmou que o delegado atuava em conjunto com autoridades dos EUA havia dois anos, com base em Miami.

Em dezembro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou ao Ministério da Justiça que fizesse um pedido formal de extradição de Ramagem. A solicitação ainda não foi analisada pela Justiça americana, assim como o pedido de asilo político feita pelo deputado cassado.

O esfriamento das relações entre Brasil e EUA, desde a posse de Trump, há dois anos, reflete-se na embaixada em Brasília, que está sendo comandada por um encarregado de negócios, Gabriel Escobar, desde janeiro de 2025. Ele já foi chamado ao Itamaraty algumas vezes para explicar posicionamentos públicos da embaixada em relação à política interna brasileira, mas, por ser um funcionário de segundo escalão na diplomacia, nunca foi recebido por Vieira.

 

 

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