Entrevista

"Quero ser o porta-voz da pacificação nacional", diz Augusto Cury

Psiquiatra e escritor crê que a experiência de fora da política é capaz de fazer o país superar a polarização e o radicalismo

 02/05/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. CB Poder com Augusto Jorge Cury,  psiquiatra e pré candidato a presidência da República. Na bancada Denise Rothemburg e Ana Maria Campos. -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
02/05/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. CB Poder com Augusto Jorge Cury, psiquiatra e pré candidato a presidência da República. Na bancada Denise Rothemburg e Ana Maria Campos. - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

O psiquiatra e escritor Augusto Cury tenta construir uma pré-candidatura à Presidência da República pelo partido Avante com base na proposta de mostrar ao eleitor que o Brasil, hoje, está emocionalmente adoecido, o que favorece o ambiente de polarização e radicalismo. Aos 67 anos e desfrutando do imenso sucesso editorial — afinal, são mais de 45 milhões de livros vendidos —, para ele chegou o momento de trocar a análise dos consultórios e a tranquilidade da literatura pelo "ambiente espinhoso" da disputa nas urnas. Nesta entrevista ao CB.Poder Especial — uma parceria do Correio com a TV Brasília —, Cury detalha às jornalistas Denise Rothenburg e Ana Maria Campos propostas que mesclam a bagagem no estudo da saúde mental com reformas estruturais ambiciosas. Defensor de uma "mente capitalista com coração social", Cury propõe desde mudanças profundas na composição e no funcionamento do Supremo Tribunal Federal (STF) até a implementação real de um semiparlamentarismo, a fim de reduzir a figura do "superpresidente" e para trazer mais agilidade à gestão do Estado, em função dos desafios tecnológicos que podem mudar os rumos da sociedade. Leia a seguir mais uma entrevista da série com os pré-presidenciáveis.

O senhor é autor de diversos best-sellers. O que o motivou a entrar na política?

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O desejo de ser a voz contra a polarização radical e contra o atual clima político, no qual a esquerda rotula a direita como fascista e a direita chama a esquerda de "esquerdopata". Nenhum dos lados compreende profundamente o que é o fascismo ou como ele surgiu com (Benito) Mussolini, nem as causas e consequências da psicopatia. Minha entrada na política nasce de um caso de amor com o Brasil. Quero ser o porta-voz da pacificação nacional.

Tentar a Presidência não é um projeto ambicioso?

Considero um desafio. Minha vida virou de cabeça para baixo. Tinha uma rotina muito tranquila e quase não dava entrevistas, mas, desde que coloquei meu nome à disposição, quase não tenho mais tempo. Percebo que as pessoas lutam muito mais pelo próprio ego e por projetos de poder, enquanto quero lutar por um projeto de Brasil. Meu objetivo é aproximar os quase 8 milhões de jovens que hoje nem trabalham, nem estudam, devolvendo-lhes a esperança, além de abraçar, qualificar e valorizar os professores. Também é prioritário que a mulher seja mais protegida, pois ela sofre diversas violências na sociedade brasileira. São 1.560 mortes por ano. Isso precisa terminar e precisamos atuar fortemente, talvez com um "botão do pânico" via aplicativo que acione a delegacia mais próxima para um atendimento policial rápido. Além disso, precisamos dobrar a produção de alimentos nos próximos 10 ou 12 anos. Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), se não apoiarmos a produção com juros adequados e justos, a humanidade enfrentará uma insegurança sem precedentes, o que pode gerar guerras e disputas geopolíticas enormes. E não quero fazer carreira política: se tiver o privilégio de vencer, pretendo governar por quatro anos e ir embora para nunca mais voltar, focando em pacificar o país com menos projetos pessoais e muito mais "Projeto Brasil".

Por que uma pessoa bem-sucedida na medicina e na literatura decide disputar a Presidência?

O Brasil está radicalmente polarizado, adoecido, as pessoas não conseguem perceber que opositores não são inimigos a serem abatidos, que podemos ter divergências de ideias, mas podemos respeitá-las e lutar pelas que acreditamos. Amo o Brasil. Poderia estar morando em qualquer país do mundo, vivendo o meu sucesso, mas quando vejo quase 8 milhões de jovens que não trabalham nem estudam e os líderes não falam sobre isso; quando vejo que 1.560 mulheres são assassinadas por ano; quando vejo que os professores precisam ser abraçados, porque são cozinheiros do conhecimento, mas a mente não tem mais apetite — o último lugar onde as crianças e adolescentes querem estar é dentro da sala de aula. Conversei com agricultores e falaram que o custeio é de 20% ao ano, mas a atividade dá 6% a 7%. Não fecha a conta, estão falindo um atrás do outro. Por que não me doar para este país que me deu tantas alegrias e me fez vender 45 milhões de livros? Gostaria de ser a voz da pacificação contra a polarização radical e insana.

Como um psiquiatra e "vendedor de sonhos" pode ajudar as pessoas na Presidência da República?

Esse livro conta a história de alguém que estava no auge do sucesso, mas não tinha tempo para o essencial. Tinha tempo para compromissos e aplausos, mas não para a filha e a esposa. Quando resolveu pagar a conta, não deu tempo porque ele, infelizmente, as perdeu em um acidente. Ele se tornou um mendigo que anda pelo mundo em busca do seu próprio ser. É uma metáfora da realidade. Dei palestra há uma semana para grandes empresários e perguntei: "Como está sua empresa mental?" A maioria sofria pelo futuro, ruminava perdas, mágoas e tinha dificuldade de conviver com pessoas lentas. A empresa chamada "mente humana" está no caos. Precisamos cuidar da saúde mental, caso contrário vamos nos tornar miseráveis, ainda que possamos morar em um palácio. No teatro da política, sou um colecionador de amigos. Conheço mentes brilhantes das universidades, da iniciativa privada e líderes que têm um histórico de não corrupção. Por que não agregar as melhores mentes dos mais diversos partidos e do ambiente social?

Qual é a principal reforma que o país precisa e que o senhor empreenderia?

Tem algumas. Número um: o STF tem que mudar, não pode ser o superpoder. Fim da vitaliciedade para oxigenar o próprio STF; idade mínima para entrar — acho que poderia ser 50 anos, porque tem muita gente com experiência e currículo ilibado nessa faixa; fim da espetacularidade do voto, porque quando você transmite ao vivo, abre janelas de arquivos mentais que fazem com que se perca a espontaneidade; dois terços têm de ser da magistratura, dois ou três do Ministério Público e um advogado não mais escolhido pelo presidente; fim do "superpresidente" que escolhe os ministros (da Corte) — quem vai escolher são as associações dos magistrados, dos promotores e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Outra reforma: 10 mil clubes ou escolas de empreendedores nas comunidades, igrejas e escolas públicas para que os jovens e as mulheres possam sonhar. Tem de haver um "Banco do Empreendedor" financiando a microempresa, porque vem o tsunami da inteligência artificial (IA) e da robótica e pode levar milhões de empregos cognitivos ou laborativos. Se não nos prepararmos, pode não sobrar pedra sobre pedra.

Qual seu diagnóstico sobre a falta de harmonia entre os Três Poderes?

Há uma insatisfação, estão se digladiando demais porque há muitos interesses pessoais. Veja bem: no Supremo Tribunal Federal, quando a dra. Cármen Lúcia sair, não vai ter mulher — o presidente teria de colocar uma mulher. As mulheres são mais generosas, mais altruístas e cometem muito menos crimes. Nos presídios mundiais, menos de 10% das mulheres estão presas. Onde devia haver uma harmonização melhor e respeitabilidade entre os Poderes, deve-se pensar muito mais no Brasil e muito menos no ego ou no culto à personalidade.

Como o senhor governará com um partido pequeno diante de um Congresso que capturou o Orçamento da União?

Sou bom em negociar, sou especialista, tenho livro sobre solução pacífica de conflitos. Não quero fazer um governo exótico — quero um com as melhores mentes. Para mim, o Brasil é parlamentarista de fato, mas não de direito. Deveria haver uma forma de presidencialismo — para não ser o semipresidencialismo — no qual um primeiro-ministro teria de cuidar da gestão de milhares de problemas do dia a dia, e ter um presidente focado na política de Estado, na política externa e nas Forças Armadas — um presidente que cuida da política de governo e não de partido. O Brasil já é um parlamentarismo, mas não de direito. Por que não fazer uma reforma na qual o Congresso assume a responsabilidade da chancela de um primeiro-ministro? Se ele for deficiente ou impopular, cai e o novo é chancelado. E o Brasil não é traumatizado como ocorreu quando foram "impichados" os presidentes nessas últimas décadas.

O povo rejeitou o parlamentarismo em 1993. O senhor acredita que a população mudaria de ideia hoje?

Acredito que quando foi feito o plebiscito, lá atrás, já se passaram mais de 30 anos. Os jovens mudaram, o Brasil mudou e a minha tese é que não pode haver um "superpresidente" que governa tudo. Ele acaba interferindo na economia e na gestão agrícola sem ter grande experiência, e tudo isso dificulta o desenvolvimento. Só acho que o Brasil tem que ser mais rápido, mais eficiente, um Estado mais enxuto que, de fato, olha para 210 milhões de brasileiros. Notaram que o tempo emocional passa muito mais rápido do que o físico? O tempo aumentou na idade biológica, mas encurtou na emocional.

Como o senhor lidaria com a questão da anistia aos envolvidos nos atos do 8 de Janeiro e ao ex-presidente Jair Bolsonaro?

As penas realmente foram altíssimas e ultrapassaram o limite da generosidade da humanidade. Coloquei minha história para fazer um apelo ao STF em favor da Débora (Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom") e de muitos que estavam presos. Vi a dor dela de maneira dramática. Com respeito à anistia, certamente grande parte deve ser anistiada. Com respeito a Jair Bolsonaro, preciso conhecer com profundidade todo o processo que o envolve — não tenho um juízo de valor. Mas a facada que ele levou causa uma hipercicatrização e você tem dores horríveis. Enviei para ele vários livros para que se torne mais protegido emocionalmente, para que resgate o "eu" como gestor de si mesmo diante de um foco de tensão. Consideraria, sinceramente, a anistia, mas preciso ter segurança jurídica para tomar essa decisão.

E na economia, em quem o senhor apostaria para o próximo ano? Chamaria o Paulo Guedes (ex-ministro da Fazenda de Bolsonaro)?

A economia está passando pelo caos, porque temos uma taxa Selic de 14,50% mais um spread de 20%. Não fecha a conta por ano. A maioria das empresas não tem lucratividade de 8%. Somos um país viciado em rentismo. Quem tem dinheiro e coloca no banco sem risco está num céu de brigadeiro — e isso não é justo. O governo está sendo irresponsável fiscalmente, gasta mais do que arrecada. Deveríamos ter uma secretaria executiva de captação de dinheiro lá fora, com seguro em dólar. Chamar fundos soberanos para aportar dinheiro aqui e termos juros de 4% a 6%. Isso revolucionaria a agricultura e a indústria. Gosto muito do Paulo Guedes, mas acho que só um Paulo Guedes não é suficiente. Precisaremos de vários profissionais do mais alto nível, do Insper e da FGV (Fundação Getulio Vargas), para que possamos ter um governo eficiente, enxuto e inteligente.

O senhor se define como de direita ou de esquerda?

Prezo os valores à direita, como liberdade de imprensa — que é inegociável —, liberdade de negócio, preservação da família e liberdade religiosa. Mas alguns valores que a esquerda defende são importantes: o direito da mulher de ser protegida e o direito das crianças. Tenho um projeto de lei no Congresso para prevenir os predadores sexuais — a cada 45 segundos uma criança sofre abuso. Os professores também precisam ser abraçados — estão adoecendo coletivamente. Sou um homem que procura formar pensadores e não repetidores de informação. O que sou? Alguém que tem os valores importantes desses dois matizes: uma mente capitalista e um coração social que se preocupa com as pessoas desvalidas. A periferia tem de ser escriturada para dar senso de pertencimento. Deve haver um "Banco do Empreendedor" dentro de cada comunidade ou favela. Talvez seja a primeira vez que as comunidades vão sentar na Presidência se tiver o privilégio de ser escolhido.

Qual seria o perfil do seu ministro da Segurança Pública?

A segurança pública é inegociável. O crime sexual não deveria ter atenuante. Basta um minuto para gerar um cárcere mental que sequestra uma criança durante toda a sua jornada. O feminicídio também não deveria ter atenuante — as pessoas devem ficar 30 anos na prisão. Aprisionamos 850 mil pessoas, somos o terceiro país que mais aprisiona no mundo. Aprisionamos 300% a mais do que a China. Temos que chegar antes do crime. Temos que ter, inclusive dentro das cidades, 5% dos funcionários públicos como uma política de elite treinada pelas polícias Federal e Militar. Toda cidade tendo uma polícia de elite municipal.

 

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postado em 03/05/2026 03:55
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