
A revelação da proximidade do senador Flávio Bolsonaro (PL-SP) com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que está preso em Brasília, caiu como uma bomba na direita brasileira. Enquanto alguns políticos fortes da ala bolsonarista decidiram classificar a situação como "inaceitável", outras lideranças resolveram aguardar os impactos do estrago.
Meses antes das eleições de 2026, opositores da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam o impacto da divulgação do áudio da conversa entre o parlamentar e o ex-banqueiro e tentam traçar novos caminhos.
As intenções da direita, no momento, não envolvem a troca de candidato, mas essa hipótese não está descartada. Flávio ainda não conversou com o pai, Jair Bolsonaro (PL), para fazer uma avaliação da situação.
Assim que o escândalo veio à tona com a divulgação do áudio em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro supostamente para bancar um filme, Romeu Zema (Novo), o ex-governador de Minas Gerais, afirmou que a conduta de Flávio foi "imperdoável" e que "é um tapa na cara dos brasileiros de bem". A declaração abriu uma crise entre o PL e o Novo, que incluiu a avaliação pelo partido de Zema da possibilidade de romper chapas com o Partido Liberal nos estados.
Havia uma possibilidade de Zema ser convidado para compor a chapa de Flávio Bolsonaro na posição de vice. No entanto, na última sexta-feira, Flávio afirmou que após as declarações do político mineiro, essa estratégia se torna "inviável".
"Não deu oportunidade para eu me explicar e correu para o estúdio para gravar um vídeo e se aproveitar eleitoralmente disso", afirmou o senador. Ontem, Zema recuou e disse que a situação "é página virada". De acordo com ele, a manifestação anterior foi em razão do momento. "Fui duro, porque fiquei muito decepcionado, mas agi de acordo com meus princípios e valores", disse Zema, que não chegou a pedir desculpas publicamente.
Lideranças da direita afirmam que a campanha de Flávio, se prosseguir, deve tomar novos rumos. Quando o áudio foi divulgado, o mercado financeiro também reagiu rapidamente. O dólar chegou a subir 1,60%, voltando ao patamar de R$ 5.
Ao mesmo tempo, a Bolsa de Valores de São Paulo teve queda significativa na sexta-feira, fechando com queda de 0,60%, cotada aos 177 mil pontos. Fontes do mercado financeiro ouvidas pela coluna Brasília-DF, do Correio, ontem, afirmam que a campanha de Flávio "morreu", em razão das relações dele com Vorcaro. Contudo, alguns ainda esperam o resultado das próximas pesquisas para cravarem o sepultamento da candidatura do filho 01 do ex-capitão.
Ontem, em um evento no interior de São Paulo, o pré-candidato Flávio Bolsonaro chamou o governador paulista e pré-candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos) de "meu amigo". A declaração ocorreu durante evento de lançamento da pré-candidatura do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado, realizado em Sorocaba.
Tarcísio estava confirmado na cerimônia, mas não compareceu em razão de uma gripe, segundo sua assessoria de imprensa. Flávio e Tarcísio estiveram juntos em um primeiro evento de lançamento da pré-candidatura de Derrite na semana passada em Campinas, também no interior paulista.
"Meu amigo Tarcísio de Freitas, nosso pré-candidato ao governo de São Paulo, que está fazendo um trabalho histórico junto com Derrite e André do Prado PL-SP", disse Flávio, em Sorocaba. Prado é presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e pré-candidato ao Senado pelo PL.
Durante o discurso, Flávio Bolsonaro tentou minimizar a repercussão negativa do vazamento da conversa entre ele e Vorcaro e ainda relacionou Lula ao diabo, além de acusar a gestão do petista de "aparelhar a Polícia Federal".
Candidatura feminina
Setores da direita defendem que Flávio Bolsonaro deve ter em sua chapa uma mulher para atrair o voto feminino. O senador se encontrou com a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP), uma das cotadas para ser sua vice.
O encontro foi registrado pela deputada em suas redes sociais. "Ontem (sexta-feira), estive ao lado de grandes lideranças que compartilham do compromisso com o nosso país, participando do lançamento da pré-candidatura do deputado Derrite. Ao lado do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, e do deputado Maurício Neves, seguimos fortalecendo o diálogo, a união e o trabalho por um Brasil que valorize a família, a segurança e as pessoas", escreveu Simone, na publicação.
A deputada também afirmou que "a política precisa ser feita com responsabilidade, coragem e propósito", e mencionou São Miguel Arcanjo. Ligada ao Frei Gilson e a outras lideranças religiosas, a deputada consolidou-se como uma das principais representantes da Igreja Católica no Congresso. A possibilidade de ela tornar-se vice de Flávio também é lida como um aceno do PL aos católicos.
Efeito Michelle
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a ser tratada nos bastidores da direita como um possível plano B para a corrida presidencial de 2026 após o desgaste provocado pela crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Aliados do parlamentar admitem preocupação com os impactos políticos das investigações e já discutem reservadamente cenários alternativos caso a situação do senador se agrave nos próximos meses.
Interlocutores próximos ao grupo avaliam que a repercussão do caso Master elevou o risco de novas operações envolvendo pessoas do entorno político e financeiro do senador. A preocupação aumentou depois que a mais recente fase da Operação Compliance Zero atingiu o pai de Daniel Vorcaro, alimentando entre aliados a percepção de que a investigação ainda pode gerar novos desdobramentos.
Um dirigente do Centrão ouvido reservadamente afirmou que o episódio provocou alerta máximo dentro da direita. "Ele foi burro em mentir, e isso pode, sim, virar uma operação. Estamos em alerta", disse. Segundo relatos de aliados, integrantes do PL também passaram a demonstrar preocupação com possíveis impactos jurídicos e políticos sobre parlamentares próximos ao grupo bolsonarista.
Um interlocutor do partido afirmou que o ambiente em Brasília é de apreensão diante da possibilidade de novas medidas da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal (STF).
A divulgação das conversas fez um estrago na pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Lideranças próximas relatam que foram surpreendidas pelo conteúdo revelado e reclamam da ausência de informações prévias sobre a relação do senador com Vorcaro.
Em uma reunião reservada após a publicação das reportagens, Flávio teria afirmado a aliados que não existiriam novas revelações comprometedoras relacionadas ao caso. Apesar disso, interlocutores admitem que o material divulgado produziu um dos momentos mais delicados da articulação eleitoral da direita até agora.
Após o vazamento dos áudios, aliados de Flávio Bolsonaro passaram a avaliar reservadamente que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro poderia surgir como alternativa caso a situação política do senador "comece a azedar mais" até o período das convenções partidárias.
Integrantes do entorno bolsonarista também passaram a defender que a "chapa perfeita" para 2026 teria sido formada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao lado de Michelle Bolsonaro. Segundo esses interlocutores, a possibilidade de Tarcísio concorrer à Presidência, contudo, acabou inviabilizada após o prazo de desincompatibilização eleitoral, encerrado em 4 de abril, conforme as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Uma fonte próxima a Michelle afirmou ao Correio que a ex-primeira-dama seria, hoje, o único nome da família Bolsonaro capaz de preservar o capital político do grupo em um eventual cenário de desgaste do senador.
"O que eu tenho observado é que realmente o único nome dentro da família Bolsonaro que abraça nossas bandeiras, caso o Flávio Bolsonaro fique desgastado até as convenções partidárias, até o momento ali do pontapé da candidatura, é a Michelle Bolsonaro. Porque é uma liderança feminina, ela consegue trazer as mulheres, ela tem uma pauta social muito forte, fala muito bem, é uma pessoa que tem passado por uma situação muito difícil, então as pessoas se solidarizam com a questão de todo o processo de injustiça que a família tem passado. Então ela carrega muitos sentimentos que reverberam na sociedade", declarou.
Saiba Mais
Renato Souza
RepórterRepórter de política, setorista do Supremo Tribunal Federal (STF). Vencedor do Prêmio CNT de Jornalismo, possuí passagens pelo SBT, Record/R7 e está entre os jornalistas mais influentes do Twitter no Brasil.

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