HISTÓRIA

Comissão conclui que JK foi assassinado; veja detalhes

Relatório demonstra que ex-presidente morreu por ação de agentes da ditadura militar, quando viajava de carro para o Rio de Janeiro. Ele teria sido atraído para que fosse sabotado. Certidão de óbito será adequada às definições no documento

Opala em que Juscelino viajava ficou completamente destruído na batida. Conclusão é de que o carro foi preparado e o motorista dopado -  (crédito: Reprodução)
Opala em que Juscelino viajava ficou completamente destruído na batida. Conclusão é de que o carro foi preparado e o motorista dopado - (crédito: Reprodução)

Por seis votos favoráveis e uma abstenção, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, aprovou ontem o relatório que conclui que o presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado por agentes da ditadura militar. Com isso, o colegiado deverá adotar medidas para alterar a certidão de óbito de JK, adequando o documento às conclusões do documento, conforme prevê a Resolução nº 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O parecer, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, depois de mais de um ano de análise, revisita um caso que durante décadas foi oficialmente tratado como acidente automobilístico. A investigação se apoia em um vasto conjunto documental, incluindo inquéritos do Ministério Público Federal (MPF), laudos periciais e estudos produzidos por diferentes comissões da verdade. 

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Juscelino morreu em 22 de agosto de 1976, aos 73 anos, quando viajava pela Rodovia Presidente Dutra, na altura de Resende (RJ). O Chevrolet Opala em que estava era conduzido por Geraldo Ribeiro. A versão aceita à época sustentava que o veículo, atingido por um ônibus, perdeu o controle, atravessou a pista e colidiu de frente com uma carreta. O ex-presidente e o motorista morreram no local.

A nova investigação, porém, questiona elementos dessa versão. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a principal premissa utilizada para explicar a tragédia — a suposta colisão de um ônibus na traseira do carro — nunca teria ocorrido. A conclusão é considerada um dos pontos mais relevantes do relatório aprovado pela comissão.

Segundo a relatora, um encontro com emissários do então presidente Ernesto Geisel em um hotel teria sido o motivo para JK viajar ao Rio de Janeiro de carro. Essa reunião teria sido a isca para atrair o ex-presidente. Além disso, Geraldo pode ter sido sedado, sem contar que o Opala em que viajavam também teria sido sabotado nesse hotel.

Há ainda o testemunho de um caminhoneiro que estava atrás do caminhão no qual o carro de JK colidiu. Ele disse ter visto Geraldo debruçado, parecendo desacordado, antes da batida. "O acidente não ocorreu como foi relatado. Se consideramos a situação política, as falhas, a notícia da morte dias antes, ocultação e destruição de provas, podemos dizer que o assassinato foi ocultado", afirmou a Maria Cecília.

Perseguição política

As dúvidas sobre as circunstâncias da morte de JK não são recentes. Cassado pelo regime militar e impedido de disputar eleições, o ex-presidente permanecia como uma das figuras políticas mais influentes do país. Ao lado de João Goulart e Carlos Lacerda — ambos adversários políticos e ideológicos, mas igualmente perseguidos pela ditadura — integrou a Frente Ampla, movimento que defendia a restauração da democracia. Tornou-se, então, um dos principais alvos da repressão do regime dos generais.

Desde os anos 1970, parentes, pesquisadores e setores da sociedade civil levantam a hipótese de que a morte teria sido resultado de uma trama política. As suspeitas levantaram, ao longo de cinco décadas, teorias sobre sabotagem do veículo e possíveis ações coordenadas de órgãos de segurança ligados à ditadura.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade analisou o episódio e concluiu que não havia elementos suficientes para caracterizar assassinato, mantendo a tese de acidente. O entendimento, entretanto, passou a ser contestado por comissões estaduais e municipais da verdade, especialmente em São Paulo e Minas Gerais, que apontaram indícios compatíveis com uma ação deliberada contra o ex-presidente.

O relatório agora aprovado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos (CEMDP) reúne mais de 5 mil páginas e aponta inconsistências em laudos produzidos na época, divergências em registros oficiais e falhas em documentos que sustentaram a investigação original. A análise também questiona a dinâmica do acidente e sustenta a existência de interferência externa que teria provocado a saída do automóvel da pista.

 

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postado em 30/05/2026 03:55
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