
Brasília estava prestes a completar quatro anos quando passou a abrigar o centro do poder da ditadura militar com o golpe deflagrado em 31 de março de 1964. Após 62 anos, a capital federal ainda se esforça para não esquecer a própria história e reconhecer acontecimentos que se desenrolaram na cidade durante um dos momentos mais sombrios do país.
Coordenado pelo professor da Universidade de Brasília (UnB) Matheus Gamba Torres, o projeto "Memória e Ditadura Militar" busca levar a história recente do país para mais perto de estudantes do ensino fundamental e médio. Segundo ele, "ainda temos uma política de memória muito incipiente no Brasil”.
Torres relembra o trabalho feito pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) que, entre 2012 e 2014, investigou violações de direitos humanos durante a ditadura. O relatório final do colegiado confirmou a morte e desaparecimento de mais de 400 pessoas. No entanto, o acadêmico defende mais ações de memória sobre o regime autoritário que durou 21 anos.
“Em todo o país, temos pouquíssimos museus e marcos relacionados ao tema, mas em Brasília é praticamente zero. Veja o exemplo da Ponte Costa e Silva, que mudou de nome para Honestino Guimarães. A luta que foi para tirar o nome de um ditador e colocar o nome de uma vítima da ditadura”, explica.
O projeto de extensão "Memória e Ditadura" foi criado em 2017 e utiliza as redes sociais e atividades como teatro e exposições para levar o tema ao público jovem.
“Na época, eu estava percebendo que a maioria das pessoas que estavam se identificando com um discurso de negacionismo e revisionismo da ditadura militar era composta por jovens, que escutavam muito blogueiros e canais do YouTube mal intencionados”, lembra Matheus.
No Instagram, a página do projeto já conta com mais de dois mil seguidores, onde são divulgadas as atividades do projeto e eventos marcantes do regime. A ideia de utilizar as redes sociais para divulgar a iniciativa surgiu durante a pandemia, quando a iniciativa foi brevemente interrompida.
Até o momento, o "Memória e Ditadura" já passou por oito escolas do Distrito Federal e, no aniversário de 62 anos do golpe, denunciou a permanência de espaços públicos com nomes de agentes do Estado envolvidos na repressão, como o Pavilhão João Calmon na UnB.
“É uma injustiça não enaltecermos o papel de gremistas, estudantes e escolas da nossa capital que lutaram contra a ditadura”, declara o coordenador. “A UnB foi a universidade mais visada do período. Sofremos quatro invasões: 1964, 1965, 1968 e 1977. Estamos falando de um governo de repressão e morte”.
Repressão em Brasília
Durante a ditadura militar, que durou 21 anos, a UnB teve três estudantes desaparecidos: Honestino Guimarães, em 1973; Ieda Santos Delgado, em 1974; e Paulo de Tarso Celestino, em 1971.
As invasões recorrentes na instituição também deixaram um rastro de perseguição e destruição. Na mais violenta, em 1968, o estudante Waldemar Alves da Silva Filho foi baleado na cabeça e perdeu um olho.
Fora da UnB, outros lugares na cidade foram palco da violência do Estado. Em 2013, o Correio Braziliense mapeou espaços de interrogatórios e tortura até em prédios da Esplanada dos Ministérios.
“É fundamental que a gente tenha essas políticas de memória para que esse passado não aconteça mais”, pontua Matheus Gamba Torres. “Não é apagando, jogando essas histórias para debaixo do tapete, que a gente vai resolver nossos problemas de democracia. Em países com políticas efetivas nesse sentido, como a Alemanha e Argentina, é bem menos provável que um regime autoritário volte”.
Saiba Mais

Brasil
Brasil
Brasil