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Classificação de facções põe soberania na eleição

Governo e pré-campanha do presidente Lula partem para o ataque ao colar nos Bolsonaro a pecha de que são quinta coluna. Reeditam e turbinam a estratégia de desgaste do clã à época em que Trump tarifou as exportações brasileiras em 50%

A inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) na classificação de organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos acendeu o alerta na estratégia de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diante disso, o PT e o Palácio do Planalto discutem mudanças na comunicação do presidencial. Interlocutores da pré-campanha identificaram a necessidade de deixar Lula mais incisivo, presente e ágil no embate político direto no ambiente digital, abandonando o tom neutro que costuma pautar os perfis oficiais de governo. A meta é garantir velocidade de resposta para enfrentar a máquina bolsonarista no mesmo timing e com a mesma força.

Uma das peças-chave dessa reestruturação seria o deslocamento do fotógrafo oficial da Presidência, Ricardo Stuckert, para atuar diretamente com Lula no front digital, trabalhando em parceria com a secretária de comunicação do PT, Nicole Briones. Outra é erguer a bandeira da soberania mais uma vez dando nome aos bois. Tal como aconteceu no ano passado, com o tarifaço de 50% imposto por Washington às exportações brasileiras, a campanha pretende novamente galvanizar o espírito nacionalista do brasileiro deixando claro quem defende e quem solapa os interesses do país.

Isso explica o tom duro da nota divulgada na sexta-feira pelo Palácio do Planalto, enfatizando que o clã Bolsonaro deseja voltar à Presidência da República para "entregar" o Brasil aos interesses norte-americanos. O protesto do governo foi reforçado pelas críticas do presidente no evento da Petrobras em Sergipe e pelo comentário do vice Geraldo Alckmin, em Caraguatatuba (SP), na entrega de seis novos veículos para a saúde, adquiridos por meio do Novo PAC.

"A decisão do governo estadunidense foi anunciada após articulações da extrema-direita brasileira, sob o comando de Eduardo e Flávio Bolsonaro (PL), evidenciando, mais uma vez, a família Bolsonaro como agente de uma política lesa-pátria, ao colocarem em xeque a nossa soberania", frisa a nota, que reforça ser de exclusiva responsabilidade do Estado brasileiro o combate às facções.

"O PCC e o CV são organizações criminosas voltadas ao lucro econômico por meio de atividades ilícitas, que são e devem ser combatidas diariamente pelo Estado brasileiro com inteligência, para sufocar o financiamento, e repressão, quando necessário. Não são grupos movidos por objetivos políticos, ideológicos ou religiosos orientados à tomada do poder ou à imposição de um projeto político", esclarece o comunicado.

Ao salientar a responsabilidade do Estado brasileiro no enfrentamento às facções, a ideia da campanha é deixar claro aos interlocutores que tudo que esteja fora disso é uma interferência indevida e uma usurpação ao dever do governo. Mais: frisa que quem trabalha no sentido contrário comete crime de lesa-pátria ao agir como quinta coluna. Tal como Lula enfatizou em Sergipe.

"(Flávio Bolsonaro) não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria e ir aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil. Se ele fosse pedir intervenção para prender milicianos, eles ficariam presos lá. Estão incomodados porque sabem que vou vencer a eleição outra vez", atacou.

Campanha contra STF

No ano passado, o clã Bolsonaro estava no auge da campanha de difamação contra o Supremo Tribunal Federal (STF) em função de o patriarca e ex-presidente Jair estar sendo julgado por chefiar uma organização criminosa, que tentou dar um golpe de Estado no Brasil depois da derrota eleitoral para Lula em 2022. Nos Estados Unidos, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e seu auxiliar, o blogueiro Paulo Figueiredo, mantinham interlocução com setores da Casa Branca e do movimento Maga (Make America Great Again).

Na sequência das conversas que articulavam, veio a decretação de um tarifaço de 50% às exportações brasileiras. Praticamente ao mesmo tempo, o relator da trama golpista no STF, ministro Alexandre de Moraes, foi enquadrado na Lei Magnitsky. Nem Eduardo nem Paulo assumiram estarem por trás das duas sanções, mas foram às redes sociais para comemorá-las.

Já ali o Palácio do Planalto e a base governista no Congresso conseguiram ligar o ex-deputado à sanção comercial e ao enquadramento de Moraes na Magnitsky. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou que a medida baixada pela Casa Branca foi desenhada sob encomenda da família Bolsonaro. O então líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), anunciou que o partido estudaria formalmente pedidos de cassação do mandato do filho 03 de Bolsonaro. Somado a isso, campanha em defesa da soberania nas redes sociais acabou por inocular o discurso do clã e de seus aliados.

Essa estratégia o Palácio do Planalto pretende reeditar agora, enquanto a diplomacia e setores produtivos que podem ser potencialmente prejudicados — sobretudo o mercado financeiro — agem no sentido de evitar ou postegar essa reclassificação do PCC e do CV como organizações terroristas.

Para o cientista político Rodrigo Prando, professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o governo age de forma sensata ao demarcar as prerrogativas jurídicas do país. "Quem discute o que é crime dentro do Brasil é a lei brasileira. Os Estados Unidos podem fazer a classificação que quiserem, do que quiserem, só que isso não deve interferir na soberania de um país", lembra.

O pesquisador pondera, contudo, que a medida de Washington acarreta riscos reais à economia. "Isso pode trazer prejuízos para os bancos, para os correntistas e para os brasileiros que viajam [caso contas laranjas de facções sejam identificadas em instituições nacionais operando no exterior]. O governo tem argumentos sólidos e institucionais para fazer a discussão", avalia.

A comunicação da campanha tem, ainda, o desafio de traduzir o conceito de soberania para a população sem parecer conivente com o crime. "Com certeza a narrativa relacionando o governo de Lula ao crime organizado irá gerar, no mínimo, uma enxaqueca para a equipe do atual presidente", analisa Lucas Munford, CEO da Bayit Comunicação.

Ele ressalta que a oposição explora medos e percepções que já estão consolidados na rotina do eleitorado. "Quando adversários encontram amparo ao associar um governo ao crime organizado, o objetivo não é apenas criticar políticas públicas, mas gerar um desgaste moral e emocional na imagem do líder político", adverte.

Segundo Munford, a estratégia deve ser casar o discurso da soberania com entregas econômicas e sociais perceptíveis para o eleitor. "Quanto mais o governo conseguir demonstrar ações e indicadores positivos, menor tende a ser o impacto político de acusações que buscam associá-lo ao crime organizado", assegura.

 

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