A expectativa em torno da PEC que acaba com a escala de trabalho 6x1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas domina as articulações no Senado nesta semana. Líderes governistas e da oposição aguardam uma reunião do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para definir os primeiros passos da tramitação da proposta, aprovada pela Câmara dos Deputados na última semana.
Nos bastidores, parlamentares esperam que Alcolumbre discuta o rito da matéria com os líderes partidários antes do feriado de Corpus Christi, na quinta-feira (4). A intenção é construir um entendimento sobre a condução do debate, que promete mobilizar governo, oposição, empresários e centrais sindicais.
Ao Correio, o líder da oposição no Congresso, senador Izalci Lucas (PL-DF), afirmou que a discussão precisa avançar com cautela e levar em consideração os efeitos sobre a economia, especialmente para micro e pequenas empresas.
Segundo o parlamentar, a mudança nas regras da jornada de trabalho não pode ignorar a realidade de milhões de empreendedores que concentram grande parte dos empregos formais do país.
“Não dá para engessar o país com uma CLT de 1943. [...] Estamos na era digital, da inteligência artificial. Precisamos analisar os impactos econômicos e sociais antes de aprovar uma mudança dessa dimensão”, afirmou.
Izalci voltou a defender a proposta alternativa apresentada pela oposição, de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RN). O texto prevê maior liberdade para que empregados e empregadores negociem diretamente a distribuição da jornada de trabalho, preservando os direitos trabalhistas previstos em lei.
Para o senador, a decisão sobre a carga horária deveria ser construída entre as partes, sem interferência do Estado. “Quem deve decidir a escala é o trabalhador junto com o empregador. [...] O governo não tem que definir isso”, declarou.
O parlamentar também rebateu as críticas feitas por integrantes da base governista e por entidades sindicais, que passaram a chamar a proposta de flexibilização de “PEC da escala 7x0”. Segundo ele, a classificação não corresponde ao conteúdo do texto.
“Isso é uma narrativa. A proposta não cria escala 7x0. Ela permite modelos diferentes de jornada, de acordo com a realidade de cada trabalhador e de cada empresa”, argumentou.
A disputa entre as duas propostas ganhou força após o presidente do Senado encaminhar à Comissão de Constituição e Justiça tanto a PEC aprovada pela Câmara quanto a proposta alternativa defendida pela oposição. A movimentação foi interpretada por senadores como um indicativo de que a Casa pretende discutir diferentes caminhos para a reorganização da jornada de trabalho.
Izalci também criticou o que considera uma condução eleitoral do debate. Na avaliação do líder oposicionista, a discussão sobre qualidade de vida do trabalhador deveria ser acompanhada de medidas voltadas à melhoria da mobilidade urbana.
“O trabalhador passa horas dentro de ônibus para chegar ao emprego e voltar para casa. Melhorar o transporte público também significa aumentar a qualidade de vida”, afirmou.
Apesar da pressão de diferentes setores para acelerar a análise da matéria, ainda não há definição sobre quando a proposta começará a ser discutida na CCJ. Segundo Izalci, caberá ao presidente da comissão, senador Otto Alencar (PSD-BA), definir o ritmo da tramitação e a eventual realização de audiências públicas.
“Espero que seja um debate feito com seriedade e não apenas sob uma perspectiva eleitoral”, concluiu.
A reportagem também entrou em contato com Alcolumbre. Até a publicação desta matéria, porém, não houve retorno. O espaço permanece aberto.
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