O governo Lula comemorou a redução histórica do desmatamento na Amazônia, registrada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os dados divulgados ontem indicam uma queda de 61% na área desmatada em maio, na comparação com o mesmo período de 2025. Assim como fez na quarta-feira em relação ao Pix, durante a reunião do Conselhão, o presidente da República utilizou os avanços na pauta ambiental para rebater as acusações formuladas pelo governo de Donald Trump.
"Vamos ter que pegar esses dados e mandar para o cidadão do comércio dos Estados Unidos, que coloca a questão do desmatamento como justificativa para punir o Brasil com uma taxação maior, e vamos comparar o que acontece no Brasil com o que acontece nos Estados Unidos", afirmou o titular do Palácio do Planalto. O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, seguiu a mesma toada, ressaltando a confiabilidade dos dados compilados pelo Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter), a partir dos registros gerados pelo Inpe. "O Brasil está agindo objetivamente e obtendo resultados comprovados pela pesquisa, pelos estudos científicos, de que a Amazônia está numa nova situação com controle ambiental, com resultados realmente muito positivos", destacou.
Os dados positivos em relação ao meio ambiente têm uma utilidade imediata, pois fornecem o retrato mais atualizado da proteção dos biomas brasileiros. O governo Lula espera que essas informações, objetivas e com respaldo técnico-científico, convençam o Escritório de Comércio dos Estados Unidos de recuar na aplicação de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros em razão do desmatamento. Uma audiência pública, marcada para 6 de julho, será um capítulo importante desse imbróglio. Antes da discussão técnica, porém, o próprio presidente Lula pretende dar uma solução política para o impasse, mediante um encontro com Donald Trump na reunião do G7 na próxima semana.
Ainda no contexto internacional, os dados apresentados ontem também ajudam a reforçar o compromisso do Brasil em defesa da sustentabilidade, sete meses após a realização da COP30 em Belém. À frente da presidência da Conferência do Clima, o embaixador André Corrêa do Lago tem trabalhado em favor de um esforço internacional para reduzir o desmatamento e a dependência de combustíveis fósseis, causas diretas do aquecimento global. O desinteresse dos Estados Unidos pela iniciativa é um obstáculo real, mas os impactos econômicos provocados pela guerra no Oriente Médio, com a disparada do preço do barril de petróleo, pode acelerar a transição para o uso de energia renovável. Nesse cenário, o Brasil busca protagonismo e tem argumentos para mostrar que é possível avançar mais na defesa da sustentabilidade global.
Mas, além de observar o cenário externo, convém refletir sobre os avanços na política ambiental em uma perspectiva interna. O resgate promovido pelo governo Lula representa um marco civilizatório após o desmonte patrocinado pelo antecessor entre 2019 e 2022. Ainda está na memória do eleitor a famosa expressão utilizada em 2020 de "passar a boiada" na legislação, sob uma suposta necessidade de derrubar obstáculos para o desenvolvimento. O pré-candidato à Presidência e senador Flávio Bolsonaro, que tanto gosta de reverenciar o pai em palanque, terá dificuldade em explicar ao eleitor o que o governo anterior fez pela preservação da Amazônia ou de outros biomas. Nesse tema, Lula falará sozinho.
O maior adversário do petista na questão ambiental, entretanto, está no Poder do qual Flávio Bolsonaro é integrante. É no Legislativo que se encontra a maior trincheira contra a cruzada em favor do meio ambiente. No fim do mês passado, a Câmara dos Deputados abriu a porteira para a boiada passar mais uma vez. Aprovou um conjunto de projetos de lei que flexibilizam a legislação ambiental, reduzem áreas protegidas e ampliam o risco de avanço do desmatamento em diferentes biomas brasileiros. Entre as propostas aprovadas, constam o PL 2564/25, que dificulta a fiscalização ambiental; o PL 364/19, que reduz a proteção sobre formações não florestais e pode abrir espaço para conversão agrícola em larga escala; e o PL 2486/26, que altera a proteção da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará.
Meio ambiente costuma ser um assunto secundário no debate eleitoral, que privilegia as diferenças entre candidatos e alguns temas genéricos. Lula tem obtido resultados concretos nesse campo, mas é pouco provável que essas vitórias tenham impacto nas urnas. Trata-se de uma marca pessoal do presidente, a ser testada por interesses contrariados pelo uso sustentável do patrimônio ecológico nacional.
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