O ex-banqueiro Daniel Vorcaro atuava por meio de dois núcleos criminosos: A Turma e Os meninos. Os grupos eram voltados a ações de ameaças, intimidações, coerções e ataques cibernéticos em face de desafetos de Vorcaro, assim como a acessos indevidos a sistemas governamentais.
Segundo relatório da Polícia Federal, a qual o Correio teve acesso, o núcleo “A Turma” era controlado por Daniel Vorcaro e foi gerenciado por Felipe Mourão, o Sicário. Depois, foi verificado que o pai de Vorcaro, Henrique, atuava junto com o filho como solicitador e beneficiário dos serviços prestados pela “Turma”. Ele também exercia a função de operador financeiro dos pagamentos.
De acordo com a PF, o núcleo denominado "A Turma" era utilizado para executar ações de intimidação, monitoramento de alvos e obtenção clandestina de informações sigilosas. O grupo é apontado pelos investigadores como uma espécie de "milícia pessoal" a serviço de Vorcaro, pronta para atender determinações relacionadas a intervenções físicas e vigilância de desafetos.
Entre os episódios citados no relatório está o deslocamento de integrantes para Angra dos Reis (RJ) com o objetivo de ameaçar o comandante Luis Felipe Woyceichoski e o ex-chefe de cozinha Leandro Garcia. A investigação também atribui ao grupo o acesso ilegal a sistemas restritos da Polícia Federal, como o ePol e o SISCART, além do sistema Aptus, do Ministério Público Federal, para acompanhar investigações em andamento, consultar dados sigilosos e antecipar eventuais medidas judiciais.
Com base nos elementos colhidos a partir da deflagração da primeira e segunda fase da Operação Compliance Zero, acreditava-se que o núcleo “A Turma” era composto por cerca de 6 pessoas, supostamente policiais federais. Também foi identificado um braço do grupo atuante no Rio de Janeiro, em que os integrantes são suspeitos de serem operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais.
Também integravam o núcleo o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como líder operacional mesmo depois de preso; Manoel Mendes Rodrigues, acusado de comandar um braço da organização no Rio de Janeiro; Sebastião Monteiro Júnior, policial aposentado; e Anderson Wander da Silva Lima, policial federal em atividade na Superintendência Regional da PF no Rio.
Segundo a PF, os membros recebiam pagamentos mensais que chegariam a R$ 400 mil, valor dividido entre os participantes e operacionalizado por Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.
Os investigadores destacam ainda que os integrantes utilizavam códigos típicos do meio policial, como a expressão "QAP", empregada para indicar prontidão, e preferiam reuniões presenciais ou chamadas internacionais para reduzir riscos de rastreamento.
O outro grupo, Os Meninos, também era gerenciado por Sicário. Esse núcleo era composto por pessoas que atuavam como hackers, que teriam atuado em operações tecnológicas, como ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento ilegal telefônico e telemático, sob ordens do comando central da organização.
Os investigadores afirmam ainda que o grupo recorria a técnicas de engenharia social para comprometer dispositivos de jornalistas e empresários. O método consistia no envio de links maliciosos disfarçados de convites para reuniões de trabalho, permitindo o acesso remoto aos aparelhos das vítimas.
A PF também atribui aos integrantes a coordenação de campanhas para derrubar perfis em redes sociais e remover conteúdos considerados prejudiciais à imagem de Daniel Vorcaro ou do Banco Master. Para isso, teriam sido utilizados robôs, denúncias em massa e até acessos indevidos a plataformas restritas destinadas a autoridades policiais.
Além de David Henrique Alves, a PF identifica como integrantes do núcleo Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos e Victor Lima Sedlmaier. Este último teria admitido possuir conhecimentos em desenvolvimento de software, bancos de dados, design e ferramentas de inteligência artificial.
Conforme a investigação, o grupo respondia diretamente a Felipe Mourão, responsável por fazer a ligação entre os operadores e Daniel Vorcaro. A Polícia Federal afirma que, durante o cumprimento das medidas judiciais, David Henrique Alves fugiu levando diversos computadores, numa tentativa de eliminar possíveis provas relacionadas às atividades investigadas.
