Homenagem

Vida dedicada à luta por memória e justiça, Clarice Herzog completa 85 anos

Viúva de Vlado, morto pela ditadura, a ativista Clarice Herzog construiu uma trajetória própria como socióloga e defensora dos direitos humanos no Brasil

Em 2025, a cientista política recebeu o direito a uma pensão vitalícia concedida pela Justiça Brasileira -  (crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Em 2025, a cientista política recebeu o direito a uma pensão vitalícia concedida pela Justiça Brasileira - (crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Socióloga de formação, Clarice Ribeiro Chaves Herzog tornou-se uma das mais importantes ativistas do Brasil após o assassinato do marido, o jornalista Vladimir Herzog, pela ditadura militar brasileira, em 1975. Desde então, transformou a dor em luta por verdade e justiça. Dia 1º de julho, ela completou 85 anos, marcados por uma trajetória de coragem, dedicação e atuação firme em defesa dos direitos humanos, da democracia e da memória.

Graduada em ciências sociais pela Universidade de São Paulo (USP), Clarice é mãe de André e Ivo Herzog e avó de Lucas, Sofia e Helena. Também construiu uma sólida carreira profissional na área de pesquisa de mercado e publicidade. Participou de um programa no Centre of Information do Foreign and Commonwealth Office (FCO), em Londres, experiência que abriu caminho para sua atuação no setor de pesquisas publicitárias, onde se tornou referência.

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Sua trajetória, no entanto, ficou profundamente marcada pelo caso Herzog. Vladimir foi preso, torturado e assassinado nas dependências do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), principal órgão de repressão do Exército brasileiro durante a ditadura. À época, uma fotografia do jornalista morto em uma cela foi divulgada pelos militares para sustentar a falsa versão de suicídio, imediatamente contestada por Clarice, familiares e amigos.

Viúva aos 34 anos, Clarice iniciou uma luta que atravessaria décadas. Desafiou os militares e passou a cobrar respostas sobre o crime e a responsabilização dos envolvidos. Enquanto repetia, sempre que podia, a frase "mataram o Vlado", era seguida, vigiada e intimidada por agentes do regime.

Mesmo sob esse cenário, em 1978, Clarice ingressou na Justiça contra o Estado brasileiro. Naquele mesmo ano, o juiz Márcio José de Moraes reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte de Vladimir Herzog e determinou o pagamento de indenização à família. A decisão tornou-se um marco histórico ao desmontar oficialmente a versão de suicídio sustentada pela ditadura.

Sem que houvesse responsabilização criminal pelos fatos, Clarice levou o caso, em 2009, à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA). O julgamento foi concluído em 2018, quando a Corte responsabilizou o Estado brasileiro pela detenção arbitrária, tortura e assassinato de Vladimir Herzog. Foi a primeira vez que um tribunal internacional reconheceu que o Brasil praticou um crime contra a humanidade durante a ditadura militar.

A Corte também concluiu que houve omissão na investigação, no julgamento e na punição dos responsáveis, reconhecendo o direito da família à verdade. Entre as determinações, o Brasil deveria realizar uma investigação imparcial, identificar e punir os autores do crime, divulgar os resultados e reparar os danos causados à família.

Ao lado dos filhos, Clarice também passou a dedicar-se à preservação da memória de Vladimir Herzog. Em 2009, assumiu a presidência do Instituto Vladimir Herzog, organização da sociedade civil criada para manter vivo o legado do jornalista e fortalecer a defesa da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos humanos.

Outra importante vitória veio em 2013, quando, 38 anos após o assassinato, a Justiça determinou a retificação do atestado de óbito de Vladimir Herzog. A causa da morte deixou de constar como suicídio e passou a reconhecer que o jornalista morreu em decorrência das violências sofridas nas dependências do Estado brasileiro.

No ano passado, quase cinco décadas após o crime, a Justiça Federal concedeu reparação econômica mensal a Clarice Herzog, determinando o pagamento de uma pensão vitalícia de R$ 34.577,89.

Na decisão, o juiz Anderson Santos da Silva, da 2ª Vara Federal Cível do Distrito Federal, afirmou que, "diante das fartas evidências a respeito da detenção arbitrária, da tortura e da execução extrajudicial de Vladimir Herzog, o pedido autoral de reconhecimento da sua condição de anistiado político, com as suas consequências legais, apresenta plausibilidade jurídica".

Mãe e exemplo

Filho de Clarice e atual presidente do Instituto Vladimir Herzog, Ivo Herzog destacou o exemplo da mãe e seu papel na luta pela democracia e pela justiça. "Clarice, 85 anos. Destes, estive ao seu lado por quase 60. Vi essa mulher viver intensamente. Guardo lembranças de quando ela se tornou uma guerreira na luta incessante e inegociável pela verdade e pela justiça."

Ele também ressaltou o papel de Clarice como mãe e profissional. "Em paralelo a essa batalha, construiu uma carreira brilhante e tornou-se referência no mercado publicitário. Profissional, guerreira, feminista, esposa e, acima de tudo, mãe. Cuidou de mim e do meu irmão, André, ao longo de todas essas décadas. Garantiu nossa segurança, nossa educação, nossa saúde e ajudou a formar o nosso caráter."

Aos 85 anos, Clarice Herzog continua sendo exemplo e inspirando, mas sua batalha agora é silenciosa, é contra o Alzheimer, que pode até apagar suas lembranças, mas seu legado permanecerá na história do país. Há memórias que pertencem a uma pessoa e há memórias que passam a pertencer a um país. A de Clarice já faz parte da história do Brasil.

 

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postado em 05/07/2026 03:55
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