
A decisão dos Estados Unidos de impor sobretaxas adicionais para a importação de produtos brasileiros tem gerado repercussões econômicas, mas também políticas. Enquanto integrantes do governo classificam a investigação conduzida por autoridades norte-americanas como "frágil" e baseada em documentos desatualizados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), especialmente em alegações relacionadas ao combate à corrupção no país, analistas alertam para o acirramento do debate eleitoral em torno do novo tarifaço. Inclusive, apontam para o pano de fundo político da decisão do governo norte-americano diante da proximidade das eleições presidenciais em outubro e das recentes conversas dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
A pesquisa Genial/Quaest, divulgada logo após a confirmação da taxação adicional dos EUA de 25% sobre mais de 3 mil produtos brasileiros, mostrou que a intenção de voto no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recuou até mesmo entre eleitores bolsonaristas na comparação com junho, passando de 88% para 81%. O levantamento revelou ainda que 51% dos eleitores concordam que a família Bolsonaro é a responsável pelo tarifaço dos EUA, e 30% concordam que Flávio tentou reverter as tarifas.
A expectativa de analistas é de que essa nova sanção ao Brasil poderá dar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma linha de ataque a ser explorada na campanha; em uma disputa que deverá ser muito acirrada. De acordo com relatório do Eurasia Group, o aumento de quase 1,7 mil para pouco mais de 2,1 mil no número de produtos isentos deve reduzir o impacto econômico da medida após várias audiências em Washington de representantes do setor privado.
"A lista ampliada abrange algumas das exportações mais significativas do Brasil para os EUA, incluindo carne bovina, café, suco, pescado, ferro-gusa e diversos produtos de madeira. Isso significa que apenas um quarto das exportações brasileiras é afetado pela tarifa de 25%", destacou a consultoria norte-americana.
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Para os analistas do Eurasia Group, a medida acabou prejudicando mais a candidatura de Flávio Bolsonaro, apesar de ele ter mais chances de conseguir um acordo com os Estados Unidos se vencer as eleições. "A decisão dos EUA sobre as tarifas prejudicará a candidatura de Flávio, mas não definirá o resultado da eleição. Os eleitores brasileiros não votam com base na política externa, e a disputa será decidida, em última análise, por questões internas", frisou o relatório da equipe liderada por Christopher Garman. Recentemente, ele elevou de 55% para 60% as chances de vitória de Lula nas eleições deste ano.
Na avaliação da consultoria, alguns produtos sujeitos apenas à tarifa adicional de 12,5% relacionada ao trabalho forçado também permanecerão competitivos, visto que a medida se aplica à maioria dos principais parceiros comerciais dos EUA. O governo brasileiro espera a confirmação dessa nova tarifa ainda nesta semana. Ela integra uma estratégia mais ampla de proteção comercial adotada por Trump, alinhada aos princípios do movimento Maga (Make America Great Again), que defende o fortalecimento da indústria e da economia dos Estados Unidos por meio de medidas protecionistas. E, ainda segundo essa avaliação, o Brasil não seria um caso isolado. Países aliados históricos dos Estados Unidos, como Reino Unido, Israel, El Salvador e Austrália, também teriam sido alvo de medidas semelhantes, inclusive, nações que mantinham deficit comercial com os norte-americanos.
Tropeço diplomático
No entanto, o CEO da Casa Política e ex-diretor da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e do Senado Federal, Márcio Coimbra, atribui o tarifaço à má condução da política externa brasileira. Para ele, a imposição da sobretaxa pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, expõe uma "paralisia da política externa brasileira" e representa um revés que o governo federal tenta transformar em narrativa política.
Coimbra argumenta que o Palácio do Planalto busca responsabilizar a oposição, especialmente o senador Flávio Bolsonaro, pelas sanções devido às articulações realizadas junto à Casa Branca. Na avaliação do especialista, entretanto, essa estratégia tende a encontrar resistência entre setores produtivos. Ele citou críticas do empresariado, especialmente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ao que classificou como "ruídos desnecessários" e conflitos personalistas por parte do governo.
Lei da Reciprocidade
A discussão sobre uma eventual resposta brasileira às novas sanções dos EUA ganhou com a sanção da Lei nº 15.122/2025, conhecida como Lei da Reciprocidade Econômica. Contudo, analistas veem o uso dessa ferramenta com cautela.
A advogada Natasha Giffoni Ferreira, sócia do escritório Volk & Giffoni Ferreira Advogados, a aplicação da Lei da Reciprocidade não deve significar uma retaliação indiscriminada, porque uma resposta ampla poderia elevar os preços de máquinas, equipamentos, medicamentos e tecnologias importadas dos Estados Unidos, pressionando custos empresariais e a inflação. Ela defendeu uma estratégia seletiva, priorizando produtos cuja sobretaxa tenha maior efeito político e comercial nos EUA, mas provoque menor impacto sobre consumidores e empresas brasileiras. "A melhor solução não é necessariamente a retaliação imediata, mas a utilização criteriosa dos instrumentos disponíveis para proteger a competitividade das empresas brasileiras sem transferir o custo da disputa para a economia interna."
O especialista em direito internacional empresarial Marcelo Godke também concordou que a negociação diplomática representa o caminho mais eficaz para a resolução do impasse. Segundo ele, a administração de Donald Trump caracteriza-se por uma postura assertiva e por privilegiar negociações diretas. Nesse contexto, a apresentação de propostas e demandas objetivas tende a ser mais produtiva do que o confronto. "Diplomacia, diálogo e negociação são fundamentais. O histórico da atual administração indica que, quando propostas factíveis e de interesse mútuo são apresentadas, há disposição para o entendimento", afirmou.
Márcio Coimbra também criticou a possibilidade de utilização da Lei de Reciprocidade como resposta ao novo tarifaço dos EUA, porque uma retaliação tarifária poderia elevar custos de importação, afetar cadeias produtivas e provocar impactos negativos sobre empregos e preços internos.
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