
O governo brasileiro avalia que a crise diplomática com a Argentina provocou desgaste para o presidente Javier Milei dentro do próprio país e abriu espaço para uma eventual redução da tensão entre Brasília e Buenos Aires. A leitura, compartilhada por interlocutores envolvidos nas discussões sobre a condução da política externa, é que a repercussão dos ataques ao Brasil gerou reações negativas entre setores da sociedade argentina e levou a Casa Rosada a buscar um discurso de contenção.
Segundo relatos ouvidos pelo Correio, integrantes do governo argentino passaram a sinalizar, nos bastidores, que pretendem evitar que o episódio contamine a relação bilateral. A percepção em Brasília é de que, embora Milei mantenha o tom político em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), auxiliares passaram a defender publicamente a preservação das relações institucionais entre os dois países.
No Palácio do Planalto, essa mudança de postura é interpretada como um indicativo de que a escalada da crise produziu custos políticos também para o governo argentino. Interlocutores afirmam que chegaram a receber informações sobre manifestações de solidariedade ao Brasil na sociedade argentina, além de avaliações de que o episódio repercutiu de forma negativa no país vizinho.
Esse diagnóstico explica por que o governo brasileiro tem evitado adotar novas medidas de impacto imediato. A orientação é preservar o gesto político já produzido com o chamado do embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas e aguardar o desdobramento do cenário antes de decidir sobre seu retorno à Argentina.
Na avaliação de fontes ouvidas pela reportagem, devolver o diplomata neste momento poderia esvaziar o significado político da decisão adotada pelo Itamaraty. A expectativa é de que a permanência do embaixador em Brasília seja mantida por mais algum tempo, enquanto o governo monitora os próximos movimentos da Casa Rosada e avalia se o ambiente de tensão efetivamente começará a arrefecer.
Ilações
O presidente Javier Milei voltou a criticar o Brasil no domingo (26), ao acusar, sem apresentar provas, que o governo do presidente Lula financiaria uma suposta "campanha anti-argentina".
As declarações ocorreram um dia após o ultraliberal chamar o petista de "presidiário" durante a convenção nacional do PL, em São Paulo, e aprofundar a crise diplomática entre os dois países.

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