
A uma semana do primeiro turno das eleições presidenciais, a disputa pelo chamado voto útil ganhou espaço nas estratégias de campanha. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) passaram a mirar, de forma mais direta, eleitores que hoje declaram preferência por candidaturas que aparecem atrás dos dois líderes nas pesquisas. O movimento é mais evidente no campo da direita, onde a defesa da concentração de votos em Flávio vem sendo apresentada como uma forma de evitar a dispersão do eleitorado antipetista.
O tema, no entanto, não se restringe ao primeiro turno. Os levantamentos também mostram que parte dos eleitores de Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) já tem uma preferência definida para uma eventual segunda rodada entre Lula e Flávio. Na pesquisa Datafolha divulgada nesta semana, Lula aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio. Cury tem 5%, Caiado, 4%, Renan, 3%, enquanto Zema registra 1%. No segundo turno, Lula marca 47% e Flávio, 45%, em empate dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
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É nesse cenário que as duas campanhas passaram a disputar os votos das candidaturas intermediárias. A estratégia de Flávio é mais explícita. Desde a metade de setembro, o candidato e seus aliados passaram a defender que eleitores de direita e centro-direita concentrem os votos na candidatura do PL, sob o argumento de que a polarização com Lula torna necessária a escolha de um nome competitivo já no primeiro turno. A movimentação alcança justamente os eleitores de Cury, Caiado, Zema e Renan.
Líder da oposição no Congresso, Izalci Lucas (PL-DF) afirmou ao Correio que a meta da campanha de Flávio vai além de garantir a passagem para a segunda etapa. “A estratégia não é apenas levar o Flávio para o segundo turno. Trabalhamos para construir uma maioria já no primeiro. O voto útil acontece quando o eleitor percebe que seu voto pode decidir a eleição, e nossa tarefa é mostrar que existe uma alternativa melhor, competitiva e capaz de vencer. A campanha vai intensificar essa mobilização, buscando transformar intenção em voto efetivo e ampliar o apoio ao Flávio até o dia da eleição.”
A ofensiva encontra respaldo em um recorte recente do Datafolha, mas os números se referem ao segundo turno, e não à migração efetiva no primeiro. Entre os eleitores que hoje apoiam Cury, Caiado, Zema e Renan, 43% afirmaram que votariam em Flávio em uma eventual disputa contra Lula, enquanto 30% escolheriam o petista. Outros 26% declararam voto branco, nulo ou nenhum.
No campo petista, a campanha também passou a trabalhar a ideia de concentração de votos, embora a abordagem seja diferente. Vice líder do PT na Câmara, Maria do Rosário (RS) afirma que a prioridade é consolidar a base de Lula, alcançar os indecisos e tentar trazer eleitores que ainda estejam considerando outras candidaturas.
“A nossa campanha busca consolidar os votos que estão com Lula, busca uns indecisos e busca também aqueles que, até agora, tiveram uma outra opção, porque o Brasil tem que ter soberania, não pode baixar a cabeça diante de interesse norte-americano, nós não podemos ter um presidente que bata a continência por uma bandeira que seja outra que não seja do Brasil e nós temos que ter um Brasil também com desenvolvimento e direitos para o nosso povo”, afirmou.
O que é, afinal, voto útil?
O fenômeno ganha força quando o eleitor deixa de escolher sua primeira opção para votar em outro candidato que considera mais competitivo ou capaz de impedir a vitória de um adversário que rejeita.
Para Roberto Beijato Júnior, professor de Direito Eleitoral da Pontifícia Universidade Católica São Paulo (PUC-SP), a distinção é fundamental. “Voto útil e voto de preferência: O voto de preferência é aquele que você vota no seu candidato, o eleitor, você vota no candidato, que ele realmente concorda com as ideias que ele tenha convicção de ser o melhor candidato para ele escolher. Esse é o voto de preferência. O voto útil é aquele voto que o eleitor ele vota no candidato, que não é o preferencial dele, mas porque ele quer evitar a vitória de um outro que ele rejeita muito. Então é um cálculo pragmático”, explicou. Para ilustrar, o professor citou justamente a possibilidade de um eleitor de Zema migrar para Flávio diante da percepção de que o candidato do Novo não teria condições de chegar ao segundo turno.
O professor considera que o fenômeno tende a ganhar força na fase final da campanha. “O momento que costuma ganhar mais força é justamente nessa etapa final, próxima do primeiro turno, que a gente entra agora nessa semana, porque nesse cenário a percepção das pessoas, as pesquisas já estão mais consolidadas, então o retrato do cenário eleitoral já está mais próximo daquilo que vai acabar acontecendo, então agora acaba sendo esse momento.”
As pesquisas, segundo Beijato Júnior , são um dos principais elementos que influenciam esse cálculo, mas não são o único. “Eu diria que não só as pesquisas acabam sendo, assim, o único motor para isso, embora eu acho que seja o principal, mas também a própria percepção do eleitor no ambiente. E como está a candidatura de quem ele rejeita, a percepção, enfim, da possibilidade de êxito dessa candidatura”, afirmou.
Segundo especialista em marketing político, Marcelo Senise, “é justamente nessa reta final que cresce o peso da percepção de viabilidade. O eleitor passa a observar pesquisas, redes sociais e o movimento ao redor das candidaturas para recalcular sua escolha.”
Nesse processo, a percepção sobre quem está crescendo ou perdendo espaço também passa a ser disputada pelas campanhas. “É exatamente por isso que a percepção de maioria se torna tão disputada. Surgem acusações de pesquisas ‘vitaminadas’, estratégias para amplificar artificialmente engajamento e, hoje, o uso de robôs capazes de produzir uma falsa sensação de volume, apoio ou consenso nas redes. A lógica é simples: se o eleitor acreditar que uma candidatura cresceu e se tornou competitiva, isso pode influenciar seu cálculo estratégico”, afirmou ao Correio.
Terceira via tenta resistir à concentração
A disputa pelo voto útil coloca pressão principalmente sobre as candidaturas que aparecem abaixo dos dois líderes. Cury, Caiado, Zema e Renan precisam, na reta final, preservar eleitores que podem ser atraídos pela tese de que o voto em um candidato com menor percentual nas pesquisas não seria suficiente para influenciar o resultado.
Cury tem adotado justamente o discurso de que o eleitor não precisa escolher entre Lula e Flávio. A campanha passou a apresentar a candidatura como uma alternativa à polarização e a defender uma espécie de “voto útil contra a polarização”. Caiado, por sua vez, procura sustentar a candidatura com base na experiência administrativa e em sua trajetória política, enquanto Zema evita transformar Flávio no principal adversário e mantém o foco na própria candidatura. Renan Santos aposta na combinação entre presença digital e agendas presenciais para ampliar o alcance da campanha.
A pressão, porém, não necessariamente significa que todos esses votos estejam disponíveis para migração. Pesquisa Datafolha divulgada nesta semana mostra que Lula mantém 98% dos seus eleitores de primeiro turno em uma simulação de segundo turno, enquanto Flávio preserva 99%. O comportamento entre os eleitores das candidaturas menores é mais dividido, mas também envolve parcelas expressivas que podem optar pelo voto branco, nulo ou manter sua escolha conforme a evolução da campanha.
Para o cientista político Rudá Ricci, presidente do Instituto Cultiva, a dimensão desse eleitorado precisa ser observada com cautela. Na avaliação dele, parte dos eleitores dessas candidaturas já teria migrado ou pode simplesmente deixar de comparecer às urnas. “O que pode ocorrer é que ele chegando com traço caso do Zema e tal, é que o eleitor desse pessoal acabe se abstendo de votar. Mesmo assim o índice é muito pequeno.”
Ricci afirma que uma eventual migração pode produzir algum efeito, mas não necessariamente alterar de forma significativa a disputa. “Pode alterar a eleição no primeiro turno? Pode, mas o que nós sabemos é que desses eleitores nesse momento tá mais ou menos algo em torno daqueles que podem migrar pra cada seis que vão pro Flávio três iriam pro Lula então assim é um índice tão pequeno que não tem como alterar a situação significativamente.”
O cientista político também contesta a ideia de que esteja ocorrendo, neste momento, uma grande onda de voto útil. “Eu não vejo nenhuma situação de voto útil, é interessante essa tese que está sendo inventada no final da eleição, justamente porque é uma campanha muito morna, não tem nada que mude, não tem voto útil, não sei da onde que veio essa ideia.”
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