A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ocupar espaço também nas estratégias eleitorais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL). A menos de um mês das eleições, aliados dos dois candidatos avaliam que a escalada de tensão no Judiciário pode influenciar a reta final da corrida pelo Palácio do Planalto. O tema, porém, é tratado com cautela. Ao mesmo tempo em que oferece munição política, pode produzir desgaste para os dois lados.
O cenário ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (9/9), quando o ministro Flávio Dino determinou a reintegração imediata do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. A decisão ocorreu menos de 24 horas depois de André Mendonça determinar o afastamento dos dois integrantes da cúpula da corporação.
Nos bastidores, governistas e oposicionistas enxergam na sucessão de decisões dentro do Supremo um elemento capaz de atravessar a disputa eleitoral. As leituras sobre como explorar o episódio, no entanto, caminham em direções diferentes.
Do lado de Flávio, a crise abre espaço para retomar as críticas ao STF, uma das principais bandeiras do bolsonarismo nos últimos anos. A estratégia passa por tentar aproximar Lula de ministros da Corte e explorar, sobretudo, a passagem de Dino pelo Ministério da Justiça antes de assumir uma cadeira no Supremo.
O Planalto adota uma postura mais cautelosa. Interlocutores do presidente defendem que Lula evite entrar diretamente na disputa entre ministros e preserve distância das divergências internas do tribunal. A avaliação é de que uma defesa irrestrita da Corte poderia fazer com que o governo absorvesse parte do desgaste provocado pela crise.
Ao mesmo tempo, auxiliares enxergam espaço para o petista reforçar a cobrança por transparência nas investigações relacionadas ao Banco Master e defender mudanças institucionais no Judiciário. Lula já havia sinalizado essa linha ao falar sobre uma reforma do Poder Judiciário e cobrar das instituições esclarecimentos sobre o caso.
Nesta quarta, o presidente avançou nesse discurso. Em publicação nas redes sociais, Lula afirmou que a gravidade do caso exige “explicações e medidas imediatas” e voltou a defender a retirada do sigilo das investigações.
“É urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer”, escreveu. Lula também criticou os chamados “vazamentos seletivos” e afirmou que esse tipo de divulgação pode impactar a disputa eleitoral.
A manifestação indica uma tentativa de deslocar o debate da defesa do Supremo para a cobrança por transparência. A estratégia é sustentar que as apurações devem avançar independentemente de quem seja atingido, sem vincular o Planalto à defesa de ministros envolvidos na crise.
Flávio seguiu pelo caminho contrário. Durante agenda em Juiz de Fora (MG), o candidato do PL colocou o Supremo diretamente no centro das críticas. Ele classificou a decisão de Dino como uma “canetada completamente contra os precedentes históricos do Supremo” e voltou a mencionar a passagem do ministro pelo governo Lula.
