
O ex-presidente da Colômbia Gustavo Petro acusou, nesta quinta-feira (1º/10), os Estados Unidos de ampliarem uma ofensiva política sobre a América Latina e afirmou que ações recentes de Washington representam uma ameaça às democracias da região. A manifestação ocorreu após a prisão do procurador-geral da Bolívia, Roger Mariaca, que teve o visto norte-americano revogado dias antes de ser detido pelas autoridades bolivianas.
“Na Bolívia há um golpe de Estado contra a democracia”, afirmou Petro. Segundo ele, a operação nas dependências do Ministério Público boliviano estaria relacionada às investigações conduzidas por Mariaca contra o estrategista argentino Fernando Cerimedo. O colombiano também associou o episódio a uma estratégia mais ampla de interferência política de Washington no continente.
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Mariaca foi preso sob acusação do governo boliviano de liderar uma organização criminosa dentro do Ministério Público destinada a proteger interesses ligados ao narcotráfico. O procurador nega as acusações e diz ser alvo de pressão política. Antes da prisão, os Estados Unidos haviam cancelado seu visto sob alegações de corrupção ligada ao narcotráfico. Mariaca, por sua vez, apontou para a sensibilidade de investigações conduzidas por ele, entre elas a que envolve Cerimedo.
O argentino é investigado na Bolívia e ganhou projeção política por atuar em campanhas de candidatos da direita latino-americana. No Brasil, ficou conhecido depois das eleições de 2022, quando participou de uma transmissão que levantou, sem apresentar provas, suspeitas de fraude nas urnas brasileiras. Petro acusa Cerimedo de participar de uma estrutura de manipulação eleitoral baseada no uso massivo de perfis falsos e o relaciona à direita alinhada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
As acusações de Petro não foram comprovadas de forma independente. Elas aparecem, porém, em meio ao endurecimento da atuação norte-americana na região. O governo Trump revogou recentemente vistos de autoridades e empresários da Bolívia, Colômbia, Equador e Peru sob acusações de corrupção e envolvimento com o narcotráfico. A Casa Branca também passou a articular a coalizão Escudo das Américas, formada por países aliados para ampliar a cooperação contra organizações criminosas.
No mês passado, Trump prometeu usar o que chamou de poder militar “inigualável” contra cartéis no Hemisfério Ocidental. A estratégia combina pressão diplomática, sanções, restrições migratórias e ações de segurança. Brasil e México estão entre os principais países da região que não aderiram à coalizão liderada por Washington.
Brasil no radar
O Brasil também entrou no radar da política de pressão da Casa Branca. Em julho, Washington impôs tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros após uma investigação comercial aberta por determinação de Trump. O presidente norte-americano também prorrogou a emergência nacional decretada em relação ao Brasil, justificando a medida com críticas ao Judiciário brasileiro e alegações de perseguição política à família Bolsonaro.
Na esfera eleitoral, a preocupação ganhou outro componente. Autoridades brasileiras relataram a representantes da França e da Alemanha suspeitas de interferência estrangeira no processo eleitoral de 2026, incluindo ações atribuídas aos Estados Unidos. A acusação brasileira não equivale, até o momento, à comprovação de uma operação de Washington para produzir uma ruptura institucional.
Petro, entretanto, sustenta que os episódios fazem parte de um mesmo movimento. Na publicação, o colombiano citou diretamente as eleições brasileiras e pediu que forças progressistas da América Latina atuem nas redes sociais contra perfis falsos direcionados a Lula. Também defendeu a criação de mecanismos regionais para fiscalizar processos eleitorais.
“A pressão violenta à Justiça para roubar as provas na Bolívia, que mostram como na América Latina se impuseram presidentes ilegítimos desde Washington, deve ser respondida com um grande movimento de juízes do mundo”, afirmou.
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