
A corrida presidencial que chega ao fim neste domingo (25/10) foi marcada por reviravoltas, mudanças de estratégia e cálculos políticos que nem sempre saíram como planejados. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que chegou a colocar em dúvida a própria candidatura à reeleição e agora enfrenta o desafio de convencer o eleitorado a lhe conceder um quarto mandato. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), lançado como uma alternativa inesperada dentro do próprio campo conservador, mas que terminou o primeiro turno à frente do petista e passou a ser tratado como favorito por aliados. As eleições acontecem das 8h às 17h, pelo horário de Brasília, em todo o país, e têm 158.745.463 eleitoras e eleitores aptos, segundo os dados consolidados pela Justiça Eleitoral.
As trajetórias dos dois candidatos à Presidência ajudam a explicar os caminhos percorridos até o segundo turno. Lula, que acumula três passagens pelo Palácio do Planalto, chegou à disputa com uma extensa lista de programas sociais e políticas públicas, mas encontrou dificuldades para transformar as entregas do governo em capital eleitoral.
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Flávio, por sua vez, construiu a carreira no Legislativo, sem conseguir converter em lei federal projetos de sua autoria principal desde que assumiu uma cadeira no Senado, em 2019, conforme levantamento do Correio. Sua principal força eleitoral está associada ao sobrenome Bolsonaro e à capacidade de mobilização herdada do pai.
A candidatura do primogênito de Jair Bolsonaro, entretanto, não foi uma escolha natural ou consensual entre os integrantes da direita. Durante as articulações que antecederam a campanha, diferentes nomes foram considerados para representar o campo conservador, especialmente diante da impossibilidade de o ex-presidente disputar a eleição. Flávio surgiu como uma aposta para preservar a influência política da família e evitar a dispersão de um eleitorado que permaneceu mobilizado mesmo após a saída do patriarca do poder.
O movimento também exigiu uma mudança na imagem do senador. Conhecido sobretudo pela atuação parlamentar e pelas controvérsias envolvendo seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio passou a buscar uma postura de presidenciável, com discursos voltados à economia, à segurança pública e à formação de alianças. A estratégia procurou ampliar seu alcance para além do bolsonarismo mais fiel, sem romper com a identidade política que sustentou sua ascensão.
A surpresa veio das urnas. No primeiro turno, Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O resultado contrariou as expectativas de setores do governo e obrigou o PT a rever sua estratégia. Em avaliação feita a aliados, o presidente reconheceu os problemas da própria campanha. "Essa foi a campanha menos organizada que eu participei desde 1989", afirmou. A declaração expôs o desconforto com a articulação política e a dificuldade de levar as realizações da gestão ao eleitorado.
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Para Lula, o maior adversário passou a ser, em parte, ele próprio. A experiência acumulada desde a liderança sindical, a fundação do PT e a primeira vitória presidencial, em 2002, não foram suficientes para impedir o desgaste de uma administração que precisou lidar com cobranças sobre economia, segurança e capacidade de articulação. Mesmo com programas como Bolsa Família, ProUni e Minha Casa, Minha Vida, além da reforma tributária e da ampliação da isenção do Imposto de Renda, o petista chegou à reta final pressionado pela rejeição ao governo e pela necessidade de recuperar eleitores.
No comando partidário, Edinho Silva assumiu a tarefa de reorganizar a mobilização e colocar a campanha em ritmo de confronto direto. A ordem passou a ser ampliar a presença nos estados, reduzir a abstenção e explorar as diferenças entre os projetos apresentados pelos candidatos. A defesa do fim da escala 6x1 e a discussão sobre a tarifa zero no transporte público ganharam espaço na tentativa de associar a reeleição à ampliação de direitos sociais.
A avaliação dentro da campanha petista é de que o segundo turno também exige uma disputa permanente pela narrativa nas redes sociais. A mobilização digital, especialmente por meio do canal "Exército do Lula", administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), passou a incomodar adversários diante do crescimento do engajamento governista. A ofensiva da campanha de Flávio contra o canal, levada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tornou-se mais um capítulo da disputa travada fora dos palanques.
Apesar das dificuldades, o comando da campanha de Lula sustenta que houve uma recuperação ao longo das últimas semanas. Em entrevista à reportagem, o advogado Marco Aurélio, integrante da coordenação da reeleição, afirmou que a mobilização cresceu e que o presidente passou a reunir multidões nos atos de campanha. "A campanha está carregada de otimismo", declarou. Segundo ele, o debate eleitoral também passou a confrontar o país recebido pelo governo, os resultados da gestão e as propostas para os próximos quatro anos.
Pé no freio
Do lado de Flávio, a estratégia foi preservar a vantagem política conquistada no primeiro turno e evitar movimentos que pudessem afastar o eleitorado conservador. O coordenador Rogério Marinho (PL-RN) passou a demonstrar confiança na evolução da candidatura. Para ele, as pesquisas representam uma "foto", enquanto a campanha deve ser observada como um "filme". Nos bastidores, aliados interpretam a consolidação do senador como resultado da força do bolsonarismo e do sentimento de oposição ao governo Lula.
A reta final, contudo, também expôs fragilidades da candidatura do PL. A apresentação de propostas de redução de despesas públicas, as discussões sobre mudanças no Bolsa Família e os questionamentos envolvendo a trajetória do senador passaram a exigir respostas da equipe. A coordenadora econômica Daniella Marques buscou detalhar medidas para um eventual governo, enquanto o candidato intensificou os ataques ao adversário. A abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico proposta por Lula também colocou Flávio sob pressão, depois que o senador condicionou a divulgação de seus dados a uma decisão da Justiça Eleitoral.
Às vésperas da votação, os dois comandos trabalham com levantamentos internos que indicam uma disputa apertada, embora apresentem diagnósticos diferentes. Enquanto integrantes da campanha petista relatam um cenário de empate, aliados de Flávio sustentam que o senador mantém uma vantagem estreita. A divergência ajuda a explicar a ofensiva final sobre os indecisos e, sobretudo, sobre os eleitores que deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno.
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