Comportamento

Hipermnésia: a ciência por trás da memória extraordinária

A hipermnésia desafia a ideia de memória perfeita e revela como o excesso de lembranças pode afetar emoções, sono e qualidade de vida

A Síndrome da Super memória tem diagnóstico desafiador para especialistas  -  (crédito: Freepik )
A Síndrome da Super memória tem diagnóstico desafiador para especialistas - (crédito: Freepik )

Lembrar com exatidão de acontecimentos distantes, reviver cenas da infância com riqueza de detalhes ou acessar memórias autobiográficas, como se fossem recentes, costuma ser visto como sinal de inteligência privilegiada. No imaginário popular, a memória extraordinária é tratada como um dom raro. Mas, para a ciência, a hipermnésia levanta questões complexas sobre o funcionamento do cérebro, o papel do esquecimento e os limites entre habilidade cognitiva e sofrimento emocional. Embora não seja considerada uma doença em si, essa condição pode se tornar um desafio quando o passado passa a ocupar espaço excessivo no presente.

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Na prática clínica, a hipermnésia não é reconhecida como um diagnóstico isolado pela psiquiatria. O psiquiatra e coordenador do serviço de Psiquiatria do Hospital Anchieta, Fábio Leite, explica que ela pode aparecer tanto como um traço cognitivo quanto como um sintoma associado a outras condições. "Ela isoladamente não indica nenhum problema de saúde mental", afirma. A avaliação, segundo ele, precisa considerar o contexto geral do paciente, observando se essa memória ampliada vem acompanhada de alterações de humor, aceleração do pensamento, crises de ansiedade, dificuldades de socialização ou prejuízos na vida profissional e afetiva.

A neurologia reforça esse cuidado ao diferenciar memória excepcional de hipermnésia clínica verdadeira. Bruno Iepsen, neurologista da Comissão Científica da ABRAz, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia e coordenador da residência médica em neurologia do Hospital Geral de Fortaleza, ressalta que a hipermnésia descreve uma capacidade incomum de lembrar informações com enorme riqueza de detalhes por longos períodos. "Não se trata de memória perfeita, mas de um acesso muito facilitado às lembranças, especialmente autobiográficas", pontua. Do ponto de vista cerebral, esse funcionamento parece estar ligado a uma maior eficiência dos circuitos envolvidos na consolidação e na recuperação da memória.

O peso da lembrança 

As principais estruturas associadas à hipermnésia, segundo Bruno, incluem o hipocampo — essencial para a formação das memórias —, o córtex pré-frontal, responsável pela organização e pelo resgate das informações, e a amígdala, que imprime carga emocional às lembranças. "Na hipermnésia, esses sistemas parecem trabalhar de forma particularmente integrada", explica. Esse elo entre memória e emoção ajuda a entender por que muitas lembranças são revividas com intensidade quase que sensorial.

Apesar disso, a hipermnésia é considerada rara do ponto de vista neurológico. Existem poucos casos bem documentados na literatura científica. Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas, lembra que muitos relatos de "memória excepcional" não correspondem à condição clínica. Um dos casos mais emblemáticos foi descrito no século 19 pelo neuropsicólogo russo Alexander Luria, que acompanhou um paciente com capacidade prodigiosa de memorização, mas com grandes dificuldades funcionais. Hoje, segundo Uribe, esse perfil provavelmente seria classificado como um caso de Savant (Síndrome de Savant é uma condição rara, onde pessoas com deficiência intelectual apresentam "ilhas de genialidade"), frequentemente associado a traços do espectro autista.

Quando a hipermnésia aparece associada a transtornos psiquiátricos, seu impacto tende a ser mais intenso. O psiquiatra Gustavo Yamin Fernandes, do Hospital Samaritano Higienópolis, afirma que o sofrimento não está na quantidade de memórias, mas na falta de controle sobre elas. "O que adoece não é lembrar muito, mas não conseguir desligar ou regular essas lembranças", afirma. Em quadros de ansiedade, as memórias costumam alimentar preocupações repetitivas, enquanto na depressão é comum a fixação em recordações negativas, processo conhecido como ruminação.

No Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), a hipermnésia se manifesta de forma particularmente dolorosa. As memórias traumáticas surgem com extrema vividez e sensação de atualidade, como se o evento ainda estivesse acontecendo. "Nesse contexto, ela não é uma habilidade, mas parte do mecanismo do transtorno", detalha. Em fases de hipomania ou mania do transtorno bipolar, também pode ocorrer aceleração do pensamento associada a maior ativação da memória.

Os reflexos no dia a dia incluem dificuldade para iniciar o sono, despertares noturnos, sonhos vívidos, cansaço mental, irritabilidade e dificuldade de concentração. O psiquiatra Fábio destaca que qualquer intervenção deve considerar o grau de prejuízo funcional. "A hipermnésia só precisa ser tratada quando há sofrimento significativo ou limitação da vida social, familiar ou profissional", ressalta.

A importância do esquecimento 

Do ponto de vista neurológico, esquecer é tão importante quanto lembrar. Bruno Iepsen destaca que o cérebro humano não foi projetado para armazenar tudo indiscriminadamente. O processo de memória envolve seleção, organização e descarte. "Informações relevantes emocional ou funcionalmente são preservadas, enquanto outras são ativamente eliminadas", completa. Esse mecanismo garante eficiência cognitiva e evita sobrecarga.

Carlos Uribe complementa que, em algumas condições neurológicas específicas — como epilepsias do lobo temporal ou após traumatismos cranioencefálicos —, podem surgir episódios transitórios de memória intensificada. No entanto, esses casos são exceções. "Na maioria das vezes, lesões cerebrais levam à perda, e não ao ganho de memória", observa. Exames de imagem, como a ressonância magnética, costumam ser utilizados mais para descartar outras condições do que para confirmar hipermnésia, já que não há marcadores específicos para o diagnóstico.

A investigação clínica envolve avaliação detalhada da história de vida, testes neuropsicológicos e análise do impacto da memória no cotidiano. O foco do tratamento, quando necessário, não é apagar lembranças, mas reduzir o impacto emocional associado a elas. Técnicas como terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e estratégias de regulação emocional ajudam o paciente a recuperar o controle do presente. Medicamentos podem ser indicados quando há transtornos associados, como ansiedade, depressão ou insônia.

Apesar dos avanços, a hipermnésia ainda guarda muitos mistérios. "A grande lacuna da ciência é entender por que poucas pessoas desenvolvem essa capacidade tão específica e como o cérebro consegue acessar tantas informações sem entrar em colapso", afirma Iepsen. Para os especialistas, a principal lição é que memória saudável não é sinônimo de lembrar tudo, mas de conseguir equilibrar lembrança e esquecimento. Quando esse equilíbrio se rompe, buscar ajuda não significa perder uma habilidade, mas aprender a conviver melhor com a própria mente.

*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes 

 


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postado em 04/01/2026 06:00
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