Fitness & Nutrição

Muito além da dança: os benefícios físicos e técnicos do pole dance

Força, flexibilidade, consciência corporal e autoestima se cruzam na prática que desafia estereótipos e transforma corpos em diferentes fases da vida

Com mais de 11 anos de experiência, Viviane conta que o pole dance impactou positivamente sua autoestima -  (crédito: Arquivo pessoal )
Com mais de 11 anos de experiência, Viviane conta que o pole dance impactou positivamente sua autoestima - (crédito: Arquivo pessoal )

Por muito tempo associado apenas à sensualidade, o pole dance vem se consolidando como uma prática física completa, que exige força, flexibilidade, resistência e controle corporal. Dentro dos estúdios, a barra deixa de ser símbolo e passa a ser ferramenta: nela, mulheres de diferentes idades, corpos e histórias constroem força usando o próprio peso, aprendem a dominar o centro do corpo e desenvolvem uma relação mais consciente — e potente — com seus movimentos.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Ao contrário do que muitos imaginam, o pole não se resume a apresentações ou performances. A prática envolve progressões técnicas semelhantes às de outros métodos de treinamento, respeita limites individuais e trabalha capacidades físicas pouco estimuladas em modalidades tradicionais, como a força de membros superiores associada à flexibilidade e à coordenação.

Nos estúdios Elas e Pole Factory, a rotina começa longe da barra alta. O aquecimento, a mobilidade articular e os exercícios de fortalecimento fazem parte de todas as aulas, criando base para que os movimentos sejam executados com segurança. "O pole trabalha principalmente força e flexibilidade, duas capacidades essenciais para a performance e para a saúde ao longo da vida", explica Andressa Felisberto, instrutora do Studio Elas.

Esse cuidado inicial é essencial porque, diferentemente da musculação, o pole utiliza o próprio corpo como carga. "Desde os primeiros dias, a aluna aprende a sustentar o próprio peso. Isso exige fortalecimento progressivo do core e dos membros superiores, que são fundamentais para a postura e para a proteção da coluna", completa a instrutora.

Além do fortalecimento muscular, o pole também pode assumir caráter cardiovascular, dependendo da modalidade e do nível da turma. Sequências acrobáticas contínuas ou aulas mais coreográficas elevam a frequência cardíaca e transformam a prática em um treino intenso, ainda que muitas alunas só percebam isso ao final da aula, já suadas e exaustas.

Com isso, as instrutoras reforçam, ainda, que o pole dance também se diferencia por estimular autonomia e liberdade de movimento. Segundo Andressa, a prática permite que cada aluna construa sua trajetória respeitando limites e descobertas individuais, sem comparações rígidas. "Existe uma progressão técnica, mas o corpo de cada pessoa responde de um jeito. O pole ensina a reconhecer essa individualidade", afirma. Para Thais Duarte, essa percepção transforma a relação com o exercício. "Quando a aluna entende que consegue sustentar o próprio corpo, não é só força física. É liberdade, confiança e presença no próprio movimento."

Impacto no corpo

No Pole Factory, a instrutora Thais Duarte reforça que a progressão é um dos pilares da modalidade. "Tudo no pole é construído aos poucos. A dificuldade aumenta mudando a altura, o tempo de sustentação ou a complexidade do movimento. É o mesmo princípio da musculação, só que usando o próprio corpo e a barra como ferramenta", afirma.

Essa progressão contínua explica por que tantas alunas relatam ganhos expressivos de força e consciência corporal em pouco tempo. "O core está sempre ativo. Em qualquer giro, subida ou transição, ele precisa estabilizar o corpo. É um trabalho muito mais integrado do que exercícios isolados", diz Thais. O fortalecimento de músculos estabilizadores, especialmente de ombros, quadris e coluna, também contribui para a proteção articular quando a prática é bem orientada.

Na vivência de quem está na barra há mais tempo, essas mudanças ficam mais evidentes. Publicitária de 36 anos, Viviane Castro pratica pole dance há 11 anos e acompanha de perto a própria evolução. "A flexibilidade e a mobilidade melhoraram muito, além da força no abdômen e nos braços. A gente percebe claramente o quanto evolui com o passar do tempo", relata. Para ela, embora o pole não substitua totalmente outras modalidades, o efeito na autoestima e na consciência corporal é inegável.

Outro exemplo de longevidade na prática é encontrado pela aposentada Cleonice Azevedo, 65, que iniciou no pole dance por recomendação médica, após deixar a patinação de velocidade. Aluna desde 2023, ela destaca as transformações físicas e cognitivas. "O pole fortalece os músculos, melhora o equilíbrio, a consciência corporal e até a memória, porque precisamos memorizar os movimentos", conta. Para Cleonice, a idade nunca foi um impeditivo. "Com essa idade, faço movimentos que as jovens fazem. Meu corpo mudou muito nesses dois anos."

Aos 65 anos, Cleonice iniciou no pole dance como recomendação médica
Aos 65 anos, Cleonice iniciou no pole dance como recomendação médica (foto: Arquivo pessoal )

Entre quem já soma alguns anos de prática, a relação com o corpo também se transforma. A professora Thaiane Passos, 34, faz pole dance há três anos e descreve a atividade como autocuidado. "Nunca tive força nos braços e hoje consigo fazer barra, algo que eu achava impossível. Fui ficando forte sem nem perceber, porque é prazeroso", diz. Para ela, mais do que definição muscular, o pole trouxe uma nova percepção sobre si mesma.

Thaiane descreve a pratica como autocuidado
Thaiane descreve a prática como autocuidado (foto: Arquivo pessoal )

A evolução também aparece em histórias de retorno. A cirurgiã-dentista Júlia Reis, 27, começou no pole aos 18, praticou por dois anos, precisou interromper e retornou recentemente. "Hoje, percebo ganhos claros de força, flexibilidade e propriocepção, que refletem inclusive em outras atividades que pratico", afirma. Segundo ela, o impacto vai além da estética e alcança funções metabólicas e cardiovasculares.

Mesmo entre iniciantes, os efeitos surgem rapidamente. Sabrina Musser, militar de 27 anos, pratica pole há seis meses e se surpreendeu com as exigências da modalidade. "Sempre fiz musculação, mas percebi que não tinha tanta força quanto imaginava. Sustentar o próprio peso é outro tipo de força", relata. Já Ana Carolina Barbosa Fernandes, empresária de 38 anos, destaca a melhora progressiva na flexibilidade e na definição de braços e abdômen ao longo de oito meses de prática.

Samira conta que após anos de musculação, resolveu se aventurar na prática do pole dance
Sabrina conta que, após anos de musculação, resolveu se aventurar na prática do pole dance (foto: Arquivo pessoal)

Para algumas alunas, o pole também se conecta diretamente à saúde mental. A psicóloga Daniella Frade, 53, está há poucas semanas na modalidade, mas já sente um bom resultado emocional. "Depois que parei de dançar, tentei várias atividades e nada me deixava feliz. No pole, me encontrei", diz. A sensação de superação aparece de forma recorrente nos relatos, independentemente do tempo de prática.

Corpo, mente e constância

O consenso entre instrutoras e alunas é que o pole dance exige respeito aos limites do corpo, e  exatamente por isso gera resultados consistentes. O aquecimento e o alongamento são tratados como parte indispensável da aula, não apenas como preparação, mas como estratégia de prevenção de lesões. "Pole sem aquecer, não rola", resume Thais Duarte. Mesmo os hematomas, frequentemente citados, são encarados como parte do processo de adaptação da pele e da musculatura. "No início aparecem mais roxos, depois o corpo acostuma", relata Viviane. Para outras, elas ganham até um significado simbólico. "Os roxinhos geralmente estão ligados a um movimento novo que aprendi", conta Thaiane.

Do ponto de vista físico, os benefícios se acumulam: aumento da força de preensão manual, melhora do equilíbrio, da coordenação motora e da consciência corporal. Do ponto de vista subjetivo, surgem ganhos menos mensuráveis, mas igualmente relevantes, como autoestima, confiança e prazer em se movimentar. "É uma atividade que movimenta o corpo e a mente ao mesmo tempo", define Samira Amorim, fisioterapeuta, 30.

Ao reunir mulheres de diferentes idades, histórias e níveis de condicionamento, o pole dance se afirma como uma prática plural, que vai além de rótulos e estigmas. Na barra, cada corpo encontra seu tempo, sua força e sua própria forma de se sustentar.

*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes 

 


  • Aos 65 anos, Cleonice iniciou no pole dance como recomendação médica
    Aos 65 anos, Cleonice iniciou no pole dance como recomendação médica Foto: Arquivo pessoal
  • Thaiane descreve a prática como autocuidado
    Thaiane descreve a prática como autocuidado Foto: Arquivo pessoal
  • Samira conta que, após anos de musculação, resolveu se aventurar na prática do pole dance
    Samira conta que, após anos de musculação, resolveu se aventurar na prática do pole dance Foto: Arquivo pessoal
  • Google Discover Icon
postado em 04/01/2026 06:00
x