Saúde

Pediculose: como tratar a infestação sem comprometer a saúde capilar

Infestação comum entre crianças pode provocar lesões, queda temporária de cabelo e efeitos emocionais. Mas pode e deve ser tratado adequadamente

Prevenção é a chave para o piolho não se instalar  -  (crédito: Reprodução/Freepik)
Prevenção é a chave para o piolho não se instalar - (crédito: Reprodução/Freepik)

Você já sentiu a cabeça coçar e pensou que pudesse ser piolho? A sensação, comum principalmente entre crianças em idade escolar, costuma gerar preocupação imediata nas famílias e, muitas vezes, leva a tratamentos apressados e repetidos. Embora a pediculose seja encarada como um problema simples e passageiro, a infestação pode deixar o couro cabeludo sensibilizado, provocar feridas, comprometer a qualidade dos fios e até desencadear desconfortos emocionais quando não é tratada da maneira adequada.

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Segundo a hairstylist e especialista em terapia capilar Letícia Figueiredo, muitos pacientes apresentam coceira persistente, vermelhidão, pequenas lesões provocadas pelo ato de coçar e até descamação e ardência. “Em alguns casos pode surgir inflamação e infecção secundária, principalmente quando há feridas abertas”, explica. Nos fios, os danos também aparecem: ressecamento, quebra e aspecto áspero são frequentes, sobretudo quando há uso repetido de produtos muito fortes sem orientação profissional.

Com a eliminação dos piolhos, o cuidado não deve cessar. A recuperação do couro cabeludo exige uma abordagem mais suave e restauradora. Letícia orienta a higienização com xampus delicados, evitando água muito quente e fricção excessiva, além de interromper o uso de antiparasitários quando o problema já foi resolvido. “Continuar usando esses produtos ‘por via das dúvidas’ pode piorar a irritação”, alerta. Hidratação leve no comprimento e atenção a sinais como dor, secreção ou coceira persistente são fundamentais, sendo necessária avaliação dermatológica em casos mais graves.

O uso inadequado de tratamentos antipiolho também pode gerar efeitos a médio prazo. Aplicações repetidas, mistura de produtos e até receitas caseiras irritantes podem comprometer a saúde do couro cabeludo e a qualidade dos fios. De acordo com Letícia, o trauma mecânico causado por coçar intensamente ou passar o pente fino com força pode aumentar a quebra e desencadear uma queda temporária do cabelo. “Na maioria das vezes, tratando a inflamação e cuidando corretamente, o crescimento se normaliza”, ressalta.

Na infância, a pediculose é ainda mais frequente por conta do comportamento social. A pediatra Alana Zorzan, co-fundadora da plataforma Mini Löwe, explica que o contato físico próximo e constante entre crianças, somado ao ambiente escolar, favorece a transmissão. “A maior parte dos casos ocorre por contato direto em brincadeiras, abraços e aproximação da cabeça, além do compartilhamento de objetos como pentes, escovas, bonés e elásticos”, afirma.

Apesar da preocupação dos pais, o afastamento prolongado da escola não é recomendado. Segundo Alana, tanto a Sociedade Brasileira de Pediatria quanto a Academia Americana de Pediatria orientam que a criança pode concluir o dia escolar, iniciar o tratamento em casa e retornar no dia seguinte. “Quando o piolho é identificado, geralmente ele já está presente há semanas. O afastamento causa prejuízo pedagógico e não controla o surto”, explica. Além dos sintomas físicos, a pediatra destaca os impactos emocionais, como bullying, isolamento e ansiedade, reforçando a importância de desmistificar a ideia de que piolho está ligado à falta de higiene. “O foco deve ser acolher, orientar e tratar, nunca culpar.”

 

Para além da infância

Piolhos não são restritos apenas à infância. Adultos também podem apresentar casos de pediculose. Coceira intensa, vermelhidão e sensação de movimento no couro cabeludo, pescoço e nuca, com pequenos pontos brancos grudados nos fios são alguns dos indícios.

Sintomas comuns

Coceira intensa
Pontos vermelhos (como picadas de mosquito)
Irritação no couro cabeludo
Presença de piolhos (nas cores cinzas, bege e/ou marrom do tamanho de uma semente de gergelim)
Presença de lêndeas (ovos): pontos brancos ou amarelados grudados aos fios próximos ao couro cabeludo, que não caem como caspas


Transmissão

Contato direto com uma pessoa infestada
Compartilhamento de itens pessoais: pentes, escovas, chapéus, toalhas, roupas de cama
Qualquer pessoa pode ter, independentemente de higiene ou status social


Estágios

Ovo (lêndeas): sete a 10 dias para eclodir
Ninfa: nove a 12 dias para atingir a fase adulta
Adulto: vive cerca de 30 dias

Tratamento

Essenciais

Pente fino: use diariamente em cabelo seco ou molhado, dividindo o cabelo em mechas para remover piolhos e lêndeas do couro cabeludo até as pontas.
Água e vinagre branco: misture em partes iguais dos líquidos. Aplique nos fios para ajudaras soltar as lêndeas. Mergulhe o piolho e lêndeas removidos em álcool 70% ou na solução de vinagre para matá-los.
Higiene: lave roupas de cama, toalhas e roupas usadas recentemente em água quente (acima de 60°C) e seque em alta temperatura para matar piolhos e ovos.


Produtos (com prescrição médica)

Cosméticos: xampus e loções com permetrina ou outros ativos. Aplique conforme a bula, geralmente no cabelo seco (se tiver silicone) ou molhado (se tiver químico), e enxágue. Pode ser necessário repetir o tratamento após sete dias.
Medicação: a Ivermectina é uma opção oral, mas só deve ser usada com prescrição médica.


Evite

Automedicação: não use inseticidas ou produtos sem orientação, pois são perigosos e tóxicos.
Soluções caseiras: evite o uso de produtos não comprovados como cola, querosene, etc.


Problemas de longo prazo

Infecções bacterianas
Anemia ferropriva
Danos no couro cabeludo e perdas de cabelo
Dermatite
Problemas psicossociais


Outros tipos

Piolho do corpo (muquirana): vive em lençóis, alimentando-se do corpo. É transmitido pelo contato com roupas ou roupas de camas contaminadas.
Piolho pubiano (chato): vice em pelos pubianos, axilas, peito, barba e cílios. É transmitido principalmente pelo contato sexual, mas também por toalhas e roupas de cama.

 

Palavra do especialista

Como o tipo de fio (liso, cacheado, crespo) interfere na remoção de piolhos e lêndeas?

O tipo de fio interfere bastante na remoção de piolhos e lêndeas. No cabelo liso, os piolhos se deslocam com mais facilidade, mas a remoção das lêndeas costuma ser um pouco mais simples. Já nos cabelos cacheados e crespos, o formato do fio e a maior densidade dificultam tanto a visualização quanto a retirada completa das lêndeas, o que aumenta o risco de sobrar algum ovo e ocorrer reinfestação. Nesses tipos de cabelo, é fundamental usar um pente fino adequado e separar o cabelo em mechas pequenas para facilitar a remoção.

Em atendimentos recorrentes, quais padrões você percebe em casos de reinfestação?

Os padrões mais comuns de reinfestação incluem: contato contínuo com pessoas infestadas (escola, creche, família), tratamento incompleto, sem remoção adequada das lêndeas, uso incorreto dos produtos, compartilhamento de objetos pessoais, como pentes, bonés, travesseiros e escovas. Muitas vezes, o problema não é o produto, mas, sim, o ambiente e o comportamento após o tratamento. É fundamental: tratar a criança, o ambiente e contatos próximo.

O uso de calor, como chapinha ou secador, interfere positiva ou negativamente no controle do piolho?

O calor não é um tratamento eficaz contra piolhos. Embora possa ressecar alguns ovos, não é suficiente para eliminar a infestação e não substitui o tratamento correto. Além disso, usar chapinha em cabelo de criança ou couro cabeludo já irritado pode causar lesões e piorar a inflamação. O controle do piolho depende de um tratamento completo, que inclui uso de produto adequado (xampu ou loção específica); pente fino para remover os piolhos e os ovos; repetição do processo para garantir a eliminação completa. Lembre-se: calor não resolve piolho!

Jeanley Vieira é médico tricologista, dermatologista coordenador médico do projeto Atendimento Médico Especializado Itinerante (AMEI) e Membro da Associação Brasileira de Medicina Estética

 

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postado em 18/01/2026 06:00
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