Comportamento

Quando viver vira palco: curtidas, validação e a cultura da performance

Nas redes sociais, o comportamento performático transforma a rotina ao expor produtividade, visibilidade e valor pessoal no dia a dia

Produzir, aparecer, render, crescer. Na sociedade atual, o sucesso parece, cada vez mais, ligado a como somos vistos pelos outros, no trabalho, nas relações, no corpo e, principalmente, nas redes sociais. Ser uma pessoa produtiva deixou de ser apenas sobre habilidades profissionais e passou a influenciar a forma como cada um constrói sua identidade, mede sua autoestima e se percebe no mundo. O problema é que, quando a vida vira uma entrega constante, o custo emocional costuma ser alto.

Nas redes sociais, a palavra "performático" tem surgido com frequência, sendo usado para descrever comportamentos e posturas que parecem construídos mais para serem vistos e avaliados pelos outros do que para refletir um sentimento ou experiência genuína. O termo virou rótulo popular para algo que parece exagerado, calculado ou feito para impressionar. 

A expressão virou estereótipo específico em alguns casos. Na literatura, por exemplo, a "leitura performática" dita o hábito de escolher um livro para impressionar e se mostrar leitor, como uma obra clássica ou um livro com temas políticos. Já homens com certos hábitos com intenção de capturar atenção de mulheres são chamados de "homens performáticos".

Alguns hábitos comuns, como ir ao cinema sozinho, fazer uma corrida, ler em público ou escolher alguma bebida específica, podem ser tratados como performances por muitos que acreditam que aquilo é uma farsa, feito apenas para ser compartilhado. 

Outro caso comum também é a performance de produtividade. Parecer mais ocupado, acordar muito cedo, estudar e trabalhar até o ponto de exaustão, tudo feito para ser rotulado como esforçado ou trabalhador.  

Do ponto de vista mental, a psicóloga Silvia de Oliveira explica que uma pessoa performática é aquela que passa a medir seu valor pessoal a partir do que faz e do que entrega. "A identidade começa a ser baseada na produtividade, nos resultados e na aprovação dos outros. Aos poucos, o 'ser' fica condicionado ao desempenho, e existir sem produzir pode gerar angústia", afirma. Nesse cenário, descansar passa a causar culpa, errar vira algo inaceitável e o reconhecimento se transforma em uma espécie de recompensa emocional.

Para Eliana Farias, coordenadora do curso de psicologia do Centro Universitário Braz Cubas, vivemos uma grande mudança na forma como nos relacionamos e nos enxergamos. Segundo ela, saímos de uma sociedade em que as regras vinham de fora para uma em que a cobrança vem de dentro. "Hoje, a pessoa se autoexige o tempo todo. Ser produtivo virou sinônimo de ser uma pessoa 'boa', enquanto descansar parece perda de tempo", explica.

A ideia de algo performático nas redes sociais está ligada à maneira como as plataformas digitais funcionam: tudo pode ser visto, medido, comparado e pontuado; curtidas, visualizações, seguidores e comentários se tornam indicadores de valor social. Essa lógica favorece comportamentos que buscam maximizar a visibilidade, muitas vezes mais do que expressar um sentimento ou realidade interior. 

Esse fenômeno está no centro de debates sobre cultura on-line. Quando alguém faz algo "performático", a impressão que se passa é de que a ação tem mais a ver com ser notado do que com ser vivido ou sentido. O resultado dessa lógica é um cansaço constante. "O descanso deixa de ser visto como algo necessário e passa a ser tratado como falha ou apenas como uma pausa para voltar a produzir", diz Eliana. Esse ritmo intenso contribui para o aumento do esgotamento físico e emocional.

Silvia observa que o desejo de ser produtivo e admirado pode ser saudável, mas se torna sofrimento quando vira obrigação. "A pessoa sente que precisa dar conta de tudo para merecer afeto, reconhecimento ou pertencimento", afirma. Os sinais aparecem no dia a dia: medo excessivo de errar, dificuldade de desacelerar, sensação constante de não ser suficiente e dependência da aprovação dos outros.

Identidade e autoestima 

A forma como a identidade é construída também mudou. Segundo Eliana, antes ela surgia a partir das relações e das experiências ao longo do tempo. Hoje, muitas vezes, ela vira uma espécie de curadoria de si mesmo, uma maneira de escolher cuidadosamente o que mostrar e como mostrar, com base em como será percebido ou avaliado pelos outros. "A identidade passa a ser construída em posts, fotos e vídeos, sempre pensando no olhar do outro", explica.

Essa dependência da reação externa afeta diretamente a autoestima, e curtidas, comentários e visualizações funcionam como termômetros do valor pessoal. "Quando a validação vem mais de fora do que de dentro, a autoestima fica instável", resume Eliana.

As redes sociais intensificam esse processo ao mostrar apenas recortes idealizados da vida. "A impressão é que todo mundo está sempre feliz, bem-sucedido e produtivo", diz Silvia. A comparação constante alimenta uma cobrança silenciosa para estar sempre performando. Aos poucos, o olhar do outro passa a valer mais do que a própria experiência vivida.

Para Eliana, isso cria uma pressão social para parecer bem o tempo todo. Sofrimento, dúvidas e momentos difíceis raramente aparecem porque não "geram engajamento". "Existe uma expectativa de felicidade constante. Quem não performa sucesso ou alegria pode se sentir invisível ou fracassado", analisa.

Produtividade e valor

O publicitário e empreendedor Pedro Galeskas diferencia performance real de performance encenada. Para ele, ser performático não é parecer ocupado, mas entregar resultado de forma consistente. "Porém, quando a régua deixa de ser o resultado real e passa a ser a validação externa, o jogo vira ansiedade. A pessoa trabalha para aplauso, não para impacto."

Pedro acredita que as redes sociais aceleram a comparação porque mostram apenas o palco, nunca os bastidores. "Você não vê o esforço, só o resultado." Curtidas e seguidores acabam criando uma ideia falsa de valor. "É um péssimo critério para medir quem você é", resume.

Para a assistente social Geni Emilia de Souza, esse comportamento é resultado da combinação entre um sistema que valoriza produtividade acima de tudo e uma cultura digital que transforma a vida em conteúdo. "As redes funcionam como um grande mercado, no qual as pessoas expõem suas conquistas, seus corpos e suas rotinas", pondera. Ela crê que quando tudo vira conteúdo, algo se perde. "O momento deixa de ser vivido por si só e passa a existir pensando em como será mostrado depois." 

Geni acredita que essa pressão pela alta performance não é apenas individual, mas estrutural. "Vivemos em uma lógica em que o valor da pessoa está ligado ao quanto ela produz. Descansar ou desacelerar é visto como fracasso", afirma. Nas redes, essa lógica se intensifica, já que tudo pode ser medido e comparado.

Expectativa que vira frustração 

A pesquisadora Márcia Marques, da Faculdade de Comunicação da UnB, acrescenta que as pessoas performam para serem vistas como relevantes. "O problema é que isso cria uma vida baseada em expectativas. Quando elas não se cumprem, a frustração aparece."  Segundo ela, as redes sociais ditam o que deve ser o padrão, o que é considerado melhor, mais bonito, mais aceitável, e essas métricas e visualizações acabam por gerar comparações e impactam diretamente na autoestima. 

Os efeitos desse cenário são ainda mais fortes entre os jovens. Márcia explica que quem cresce sob a lógica do algoritmo enfrenta desafios maiores para fugir desse ideal. A comparação constante com padrões inalcançáveis de beleza e sucesso contribui para o aumento da ansiedade e da depressão. 

Quem não consegue acompanhar esse ritmo também sofre. "Esse sentimento não vem da falta de valor pessoal, mas da internalização de cobranças externas", reforça a psicóloga Silvia de Oliveira. Com o tempo, o corpo cansa, a mente esgota e a performance deixa de dar sentido à vida.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

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