COMPORTAMENTO

Educar diferente, marcar para sempre: o machismo na infância e juventude

O machismo na criação dos filhos deixa marcas que atravessam a infância e chegam à vida adulta. Especialistas explicam como romper esses ciclos e educar de forma mais igualitária

Estimular autonomia, cuidado e responsabilidade de maneira igualitária é essencial para interromper a reprodução automática de papéis de gênero -  (crédito: Freepik)
Estimular autonomia, cuidado e responsabilidade de maneira igualitária é essencial para interromper a reprodução automática de papéis de gênero - (crédito: Freepik)

Para muitas pessoas, a sociedade está mais moderna e igualitária. Dentro de casa, porém, a realidade muitas vezes é outra. O machismo ainda aparece na rotina das famílias, disfarçado em piadas, na atribuição desigual de tarefas, na escolha de roupas e na privação de liberdade que, muitas vezes, é confundida com proteção. A criação dos filhos sob essa mentalidade pode, mesmo sem intenção, reforçar comportamentos violentos, preconceituosos e penosos ao longo de toda a vida. Especialistas apontam que tanto mulheres quanto homens estão vulneráveis aos impactos desse tipo de educação.

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Na infância, período marcado pelas primeiras referências de mundo, o machismo opera de forma sutil, mas perigosa. De acordo com a psicóloga Alessandra Araújo, os pais costumam intervir mais rapidamente para proteger as filhas em situações de perigo físico, enquanto estimulam os filhos a "enfrentar o medo". Além disso, na dinâmica doméstica, a figura feminina é frequentemente associada ao cuidado e aos serviços da casa, enquanto a masculina é poupada dessas obrigações ou tem sua participação tratada como "ajuda", e não como dever. "Essas atitudes são vistas como naturais, mas funcionam como um treinamento silencioso de papéis sociais desiguais", comenta.

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Ainda nessa fase, o sociólogo Rodolfo Godoi explica que a brincadeira é uma das primeiras formas de aprendizagem dos papéis de gênero e um modelo de como a sociedade define e espera determinados comportamentos de homens e mulheres. "Quando as meninas ganham panelas e bonecas, sabemos muito bem o que estão sendo ensinadas a valorizar. Já no caso dos meninos, muitas vezes, o primeiro bebê que seguram nos braços é o próprio filho."

O mesmo ocorre com a liberdade infantil, que, na prática, não é distribuída de forma igual. Meninos podem correr, sujar-se e brincar livremente, aprendendo desde cedo a cair e levantar. Já as meninas são incentivadas a ser mais tranquilas, limpas e comportadas. "As saias acabam cumprindo uma função disciplinadora eficaz, evitando que pais e mães precisem formular proibições ou explicações adicionais", reforça.

Na construção mais abstrata do ser, entre a adolescência e a fase adulta, os comportamentos machistas na relação entre pais e filhos passam a assumir outra forma. Rodolfo utiliza uma metáfora entre bodes e cabras para explicar que os meninos, representados pelos bodes, aprendem que devem demonstrar interesse sexual constante. "Afinal, se o bode está solto, ele precisa procurar fêmeas." É assim que muitos adolescentes são educados, podendo sair com os amigos mais cedo e com mais liberdade do que as meninas. "Eles tendem a iniciar a vida sexual antes e, quanto mais cedo, melhor, pois isso funciona como uma prova de masculinidade", explica.

Já a figura feminina, representada pelas cabras, deve se proteger ou, mais precisamente, ser protegida pela família. Cabe aos adultos "prender" as cabras dentro de casa o máximo possível. Caso contrário, seriam inevitavelmente atacadas pelos bodes. "A metáfora naturaliza, assim, a ideia de que o desejo masculino é incontrolável e que a responsabilidade pela proteção recai sempre sobre as mulheres", detalha.

Os efeitos dessa criação 

Para esse tipo de educação machista, há sequelas que se estendem para além da infância e da juventude. Os impactos na autoestima, na autoconfiança, nas relações amorosas e até nos ambientes de trabalho são reais. Frases como "menino não chora", "deixa que sua irmã faz", "menina tem que se dar ao respeito" e "isso não é roupa de menina direita" afetam diariamente a construção da identidade dos indivíduos.

A psicóloga Kênia Ramos afirma que essa criação desigual tende a formar adultos que operam em polos opostos de carência e repressão. Segundo ela, muitos âmbitos da vida são afetados. Nas relações, por exemplo, homens apresentam dificuldade em reconhecer e comunicar o que sentem, o que acaba sobrecarregando a parceira. Mulheres, educadas para o cuidado, muitas vezes, entram em um ciclo de repetição e buscam parceiros emocionalmente indisponíveis.

No campo da autoestima, a mulher frequentemente atrela sua valia ao olhar do outro e à sua utilidade no cuidado. O homem, por sua vez, associa sua autoestima ao desempenho e ao poder e tende a se sentir insuficiente diante de qualquer sinal de falha ou vulnerabilidade, segundo explica a especialista.

Como consequência da ideia imposta desde cedo de que a vulnerabilidade é um atributo feminino e de que a força, entendida como ausência de dor, é masculina, mulheres e homens passam a expressar emoções de forma desigual e, muitas vezes, problemática. As mulheres, estimuladas à empatia e à verbalização constante dos sentimentos, são educadas para ocupar o papel de suporte emocional do outro, o que frequentemente as leva a anular os próprios desejos em prol do grupo.

Os homens, por outro lado, são desencorajados a demonstrar medo, tristeza ou carência. A única emoção socialmente permitida e até validada para eles costuma ser a raiva, vista como sinal de virilidade e ação. "Quando um afeto é reprimido, ele não desaparece. Ele é deslocado para o inconsciente e retorna na vida adulta sob a forma de somatizações, agressividade ou incapacidade de estabelecer intimidade profunda", comenta a psicóloga Alessandra Araújo.

O sociólogo Rodolfo lembra que esse padrão também tende a se prolongar ao longo da vida e chega também ao mercado de trabalho. Homens podem ser desleixados, entregar atividades com pouco acabamento e, ainda assim, serem tolerados. Para as mulheres, esse tipo de descuido raramente é aceitável.

Ele também chama atenção para o papel do Estado, que, ao manter uma licença paternidade extremamente curta, como a brasileira, contribui diretamente para ampliar a desvantagem feminina no ambiente profissional. "A ideia de que apenas a mulher cuida e apenas o homem provê produz ausências que impactam trajetórias no médio e no longo prazo. Quando uma criança adoece, geralmente é a mãe quem falta ao trabalho para cuidar. Na ausência dela, quem assume esse papel costuma ser outra mulher, como a tia, a prima, a avó ou a vizinha. Mesmo quando há contratação, quase sempre é uma babá."

Romper o ciclo

Quebrar os padrões do machismo na criação dos filhos passa, antes de tudo, por permitir que todas as crianças sintam e expressem suas emoções de forma livre. Para Kênia, estimular autonomia, cuidado e responsabilidade de maneira igualitária é essencial para interromper a reprodução automática de papéis de gênero. Isso inclui revisar frases e práticas herdadas da família de origem e da cultura, muitas vezes, repetidas sem reflexão, e compreender que educar também é observar e corrigir o próprio comportamento cotidiano.

Ela reforça que, do ponto de vista psicológico, combater o machismo na criação não é apenas uma questão social, mas uma estratégia de promoção e prevenção em saúde mental. Segundo Kênia, quando meninos têm seus medos e fragilidades validados e meninas são incentivadas à assertividade e à independência, cria-se um ambiente mais seguro para o desenvolvimento emocional. Esse processo favorece a formação de adultos mais equilibrados, com maior capacidade de estabelecer vínculos saudáveis e lidar com frustrações.

A especialista também destaca que a educação ocorre, sobretudo, pelo exemplo. A redistribuição das funções de cuidado e de autoridade dentro de casa ajuda a desconstruir a ideia de que o masculino é o padrão e o feminino, uma exceção. Ao educar crianças como sujeitos de desejo e autonomia, e não como objetos de normas culturais rígidas, torna-se possível construir um desenvolvimento psíquico mais saudável e menos fragmentado por papéis pré-estabelecidos.

Liberdade com gênero

Luísa Noronha, 22 anos, conta que, apesar de ter sido criada sob os mesmos valores que o irmão mais velho, percebeu desde cedo que as expectativas dentro de casa não eram as mesmas. Segundo ela, as diferenças apareciam, principalmente, na liberdade concedida a cada um. "Sempre ficou claro, para mim, que ele tinha mais liberdade do que eu em certas coisas", relata.

 Um dos exemplos mais marcantes, segundo Luísa, era a necessidade constante de supervisão masculina. "Se eu quisesse ir a algum lugar, muitas vezes só podia ir se meu irmão fosse junto. Também existia uma expectativa de que eu fosse mais comportada do que ele, simplesmente por ser menina", afirma. Para ela, esse tipo de regra, ainda que não verbalizada como punição, reforçava limites diferentes para meninos e meninas dentro da própria família.

Embora não sinta que essas expectativas tenham determinado suas escolhas, Luísa reconhece que elas deixaram marcas. "Eu nunca deixei isso definir o que eu faria da minha vida, sempre fui muito firme nos meus objetivos. Mas, olhando hoje, percebo que sair da casa dos meus pais e morar longe foi, de certa forma, uma maneira de conquistar a independência que eu não tive em alguns momentos", reflete.

Para a jovem, falar sobre esse modelo de criação é fundamental, justamente porque, muitas vezes, o tratamento desigual acontece de forma inconsciente. "Não acho que meus pais faziam isso por mal. Mas é importante discutir essas limitações, para que meninas não cresçam achando que existem caminhos que não podem seguir por causa de regras e expectativas impostas desde a infância", conclui.

O que não dizer às crianças: 

"Menino não chora"

"Isso é coisa de menina"

"Comporte-se como homem"

"Feche as pernas"

"Vai brincar de boneca? Isso é coisa de menina"

"Homem tem que ser forte"

"Menina direita não fala assim"

"Ele bateu em você porque gosta de você"

"Você tem que ajudar em casa porque é menina"

"Deixa que seu irmão faz, isso é pesado pra você"

"Menino é assim mesmo"

"Engole o choro, vira homem"

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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JC
postado em 15/02/2026 06:00
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