
Em muitos relacionamentos, a expectativa é clara. Quanto mais intimidade, mais desejo, conexão e mais vontade de estar junto. Mas nem sempre funciona assim. Para algumas pessoas, o movimento é inverso. É nesse contexto que surge a fraissexualidade.
O termo é usado para descrever quem sente atração sexual no início de uma relação mas percebe que o desejo diminui conforme o vínculo emocional se aprofunda. A novidade, a descoberta e o mistério podem ser elementos mais estimulantes do que a estabilidade afetiva.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Essa experiência foge do roteiro tradicional do amor romântico, que costuma associar profundidade emocional a maior intensidade sexual. Na fraissexualidade, o envolvimento afetivo pode até continuar crescendo, mas o interesse sexual não acompanha o mesmo ritmo.
O médico Cristiano Estivalet, especializado em saúde sexual masculina, explica que o conceito ainda é pouco conhecido e frequentemente mal interpretado. Segundo ele, é comum que a fraissexualidade seja confundida com o chamado "donjuanismo", comportamento marcado pela busca constante pela conquista.
Nesse padrão, o prazer está na validação e no desafio de conquistar alguém. Quando a conexão sentimental aumenta, o interesse desaparece e surge a necessidade de uma nova conquista. Embora existam semelhanças aparentes, Estivalet ressalta que não se trata da mesma coisa. Na fraissexualidade, a questão não é a busca por troféus emocionais, mas a forma como o desejo responde à intimidade.
Ele observa ainda que, em ambos os casos, os relacionamentos podem acabar sendo mais superficiais, já que a dificuldade em sustentar o interesse sexual após a criação de vínculos pode impactar a continuidade das relações.
A fraissexualidade costuma ser associada ao espectro assexual, que reúne diferentes formas de vivenciar a atração sexual. Não é considerada uma orientação isolada, mas uma maneira específica de experimentar o desejo. Diferentemente da demissexualidade, em que a atração cresce com o vínculo afetivo, aqui o aprofundamento emocional pode provocar o efeito contrário.
Outro ponto importante é separar atração sexual de interesse romântico. Pessoas fraissexuais podem desejar companhia, carinho e conexão afetiva, mesmo que o desejo sexual diminua. Isso não significa falta de sentimento ou incapacidade de amar.
O avanço dessas discussões mostra como a sexualidade é mais diversa do que os modelos tradicionais sugerem. Termos como fraissexualidade ajudam a nomear experiências que por muito tempo foram vividas em silêncio ou interpretadas como contradição.
Em vez de uma regra fixa sobre como o desejo deve funcionar, o tema amplia o entendimento de que cada pessoa pode viver o afeto e a sexualidade de maneira única.
*Estagiária sob supervisão de Luiz Felipe

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio