
Durante décadas, o roteiro da vida adulta parecia seguir um caminho quase obrigatório: casar, formar uma família nuclear e construir ali o principal eixo afetivo. Hoje, esse modelo já não ocupa sozinho o centro das expectativas. A amizade, antes vista como complementar, passa a assumir papel estruturante na vida emocional de muitos adultos.
O movimento não surge por acaso. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de casamentos no Brasil caiu na última década, enquanto os divórcios registraram aumento em diferentes períodos recentes. Paralelamente, cresce o contingente de pessoas que optam por permanecer solteiras por mais tempo, seja por escolha pessoal, seja por prioridade profissional ou busca por autonomia.
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Em um cenário marcado por solidão, hiperconexão digital e instabilidade no mercado de trabalho, os laços escolhidos passam a ocupar um lugar antes atribuído quase exclusivamente ao amor romântico. Redes de amizade tornam-se fonte de suporte prático, emocional e até financeiro, especialmente nas grandes cidades, onde o custo de vida e a mobilidade profissional impactam diretamente a organização da vida privada.
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Para a psicóloga e psicanalista Beatriz Breves, o contexto contemporâneo ajuda a explicar esse deslocamento. "Hoje, as pessoas vivem um cotidiano cada vez mais tecnológico, passando mais tempo conectadas às máquinas do que umas às outras. Nesse cenário, a amizade se destaca como um vínculo essencialmente humano, baseado na escolha", afirma.
Segundo ela, a força desse laço está justamente na liberdade. "Ninguém é obrigado a ser amigo de ninguém. Quando a amizade acontece, revela o desejo mútuo de construir esse laço; e é justamente essa liberdade de escolha que a torna tão preciosa." A psicóloga ressalta que não se trata do desaparecimento da família ou do casamento, mas da ampliação do que se entende como vínculo legítimo. "Segurança, carinho e reciprocidade não se constroem somente por estruturas tradicionais, mas também por relações sustentadas pela afinidade e pela vontade mútua de permanecer."
A amizade, inclusive, pode oferecer intimidade e parceria antes associadas quase exclusivamente às relações amorosas. "Enquanto o vínculo da amizade se estrutura pela abertura e expansão, o vínculo amoroso costuma se organizar na expectativa de exclusividade", compara.
Redes de apoio e saúde mental
Em um país que enfrenta índices crescentes de solidão — tema que já é tratado como questão de saúde pública em diferentes partes do mundo —, fortalecer amizades pode funcionar como fator de proteção emocional. "A solidão não é a falta de pessoas ao redor, mas a falta que alguém sente de si mesma. A amizade oferece a sensação de ser visto e acolhido", diz Beatriz.
Modelos como co-living e moradias compartilhadas entre amigos também refletem mudanças estruturais. O custo elevado dos imóveis nas grandes cidades, as jornadas de trabalho extensas e a mobilidade profissional favorecem arranjos coletivos que combinam pragmatismo financeiro e convivência afetiva. Mais do que dividir despesas, esses formatos criam microcomunidades baseadas em colaboração e apoio mútuo.
Para o psicólogo Miguel Bunge, há também uma revisão cultural das expectativas sobre o amor romântico. "Hoje vivemos uma ampliação das possibilidades de vínculo", afirma. Ele alerta para os riscos de concentrar todas as demandas emocionais em uma única pessoa. "Nenhum vínculo consegue suprir sozinho todas as necessidades afetivas. Diversificar os vínculos tende a tornar as relações mais equilibradas e menos sufocantes."
Nesse contexto, as amizades deixam de ser apenas espaços de lazer e passam a integrar decisões importantes da vida adulta — como dividir moradia, abrir negócios, planejar viagens longas ou mesmo construir projetos parentais em modelos não convencionais. A vida profissional intensa, somada à busca por realização individual, reforça a necessidade de redes sólidas de apoio fora do modelo conjugal tradicional.
Transformação social em curso
Do ponto de vista sociológico, a mudança acompanha transformações mais amplas na organização da sociedade. O professor de Sociologia Tiago Diana, diretor do Colégio Sigma, afirma que a família não deixou de existir, mas perdeu o monopólio da centralidade afetiva.
"Sociólogos como Anthony Giddens mostram que vivemos uma época em que as relações são cada vez mais baseadas na escolha e na afinidade, e menos na obrigação social. Já Zygmunt Bauman fala de uma sociedade 'líquida', com vínculos mais flexíveis", explica.
Fatores como precarização do trabalho, adiamento do casamento e maior participação feminina no mercado também impactam diretamente esse cenário. Com trajetórias profissionais mais longas e instáveis, muitos adultos priorizam redes de apoio que ofereçam suporte emocional contínuo, independentemente do estado civil.
Tiago relaciona ainda o fenômeno ao conceito de capital social desenvolvido por Pierre Bourdieu. "As amizades podem oferecer suporte emocional, oportunidades profissionais e pertencimento simbólico. Elas se tornam um ativo relacional importante em contextos de instabilidade."
Esse deslocamento do centro afetivo aparece com força entre as gerações mais jovens. Segundo Beatriz Breves, millennials e integrantes da geração Z cresceram em meio à transição entre o mundo analógico e o digital, vivenciando mudanças aceleradas nos modelos de trabalho, família e relacionamento. "São grupos que experimentaram uma transformação intensa nos modos de vida e, por isso, tendem a deslocar o eixo afetivo para as amizades", explica.
A autonomia emocional, nesse contexto, torna-se palavra-chave. Ao construir redes diversas de afeto, o indivíduo amplia sua capacidade de resiliência e reduz formas de dependência concentradas em um único vínculo. "Quando uma pessoa amplia sua rede de amizades, ela fortalece a própria autonomia e desenvolve maior equilíbrio nas relações", afirma a psicóloga. Isso não significa que a amizade esteja imune a conflitos ou frustrações. O excesso de expectativas também pode gerar sofrimento. "Para a relação permanecer saudável, é preciso harmonizar autonomia, pertencimento e individualidade", alerta.
Para a escritora Karin Gobitta Földes, autora de Rimas do "Aleatório" — livro que explora dinâmicas de amor e amizade —, essa transformação também se reflete na arte. "Hoje, as pessoas não procuram apenas um amor romântico; procuram boas amizades que podem se tornar base para um amor. Ou apenas serem laços firmes", afirma.
Na obra, os personagens constroem identidade emocional por meio da amizade. "Pertencimento é algo que se constrói, não apenas que se herda", diz Karin, ao destacar que famílias também podem se formar a partir de laços escolhidos.
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