
Aquela cena de arrepiar compartilhada com rostos desconhecidos. O prazer de chorar ou sorrir ao lado de um amigo ou familiar. Estar no cinema, de fato, é uma experiência que transcende o imaginário. Mesmo na era do streaming ilimitado e do consumo sob demanda, o ritual de estar nesses espaços segue vivo — e resistente. Apesar do avanço das plataformas digitais, a experiência coletiva da sala escura continua atraindo público, especialmente após o período pandêmico.
De acordo com o relatório anual Strength of Theatrical Exhibition (Força da Exibição Cinematográfica, em tradução livre), divulgado pela organização Cinema United em 17 de dezembro, houve um aumento de 25% na ida aos cinemas entre o público jovem em 2025. Isso demonstra que a Geração Z é um dos pilares principais dessa recuperação pós-pandemia.
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No Brasil, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o cinema brasileiro registrou, em 2025, uma forte retomada com o público de filmes nacionais, atingindo 11,2% de participação de mercado até agosto, um crescimento significativo quando comparado aos 1,4% no mesmo período de 2023. Além disso, houve um recorde de R$ 1,41 bilhão em investimentos públicos.
Dados apontam, ainda, a recuperação do número de salas de exibição de filmes no Brasil. Até 31 de agosto de 2025, de acordo com a Ancine, 3.534 salas estavam em funcionamento. Este número é superior ao ano de 2019 (3.507), o último antes da pandemia de covid-19, que durou quase três anos (2020-2022).
Para Ciro Inácio Marcondes, crítico e professor de cinema da Universidade Católica de Brasília, e autor do livro ZIP - Quadrinhos e cultura pop, muitos são os fatores que determinam esse prazer das pessoas em estarem juntas, assistindo a um filme na tão popular sala escura: aumento dos preços e a qualidade das televisões, plataformas de streamings mais caras e o apreço pela cultura.
"O que sempre motivou as pessoas a irem ao cinema: o rito coletivo de compartilhar uma experiência de imagem e imaginário que só pode ser completa em um ambiente totalmente imersivo, em tela muito maior do que a das TVs — e que seja capaz de nos desconectar, por uma hora e meia que seja, dos incessantes estímulos de uma sociedade hiperconectada e das angústias do mundo factual", detalha.
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Paixão além das telas
Desde que era criança, os pais da cinéfila Isabella Castelo Branco, 20 anos, a levavam para o cinema. "Era um programa quase que semanal, não perdia nenhum filme e ainda levava aqueles combos de balde e brindes superdivertidos. Gostava de ir ao shopping só pelo cinema", lembra. Em casa, a influência também veio bastante dos irmãos que assistem a filmes em fitas de VHS que até hoje estão guardados. "Devo ter assistido Vida de inseto e Toy story umas 30 vezes", diverte-se.
Durante a adolescência, ela e o irmão criaram o hábito de ver filmes juntos e escrever sobre. Com isso, veio um olhar mais crítico e de estudo sobre cinema. "Dessa forma, comecei a entender o circuito de cinema internacional, premiações e lançamentos que me fizeram frequentar mais ainda as salas. Não assino nenhum streaming; quando tenho dificuldade de ver algum filme, busco por outras vias, mas sempre tenho preferência de ir ao cinema, pois a experiência é única e também tenho mais concentração e conforto para assistir."
Para a jovem, não é somente ver um filme, trata-se da experiência compartilhada, do hábito universal, seja por entretenimento ou por gosto pessoal. Na companhia de um grupo de amigos, também apaixonados por cinema, passou a frequentar o Cine Brasília, pela acessibilidade e valor. Eles ficam de olho, pelas redes sociais, nos filmes que vão sair. E, assim, combinam de estarem juntos em um dos locais mais populares da capital federal.
"O Cine Brasília ressurgiu depois da pandemia e acompanhei o movimento de perto. Ia para lá quando as sessões eram raríssimas e tinham umas 15 pessoas no máximo na sala, quase um ritual. Hoje, as sessões estão lotadas. Uma sala com 600 pessoas no mesmo tom para assistir a um filme de 40 anos atrás é impressionante e muito gratificante também", destaca. Fã de carteirinha, Isabella tem o programa fidelidade e tenta estar presente em todas as mostras.
Ano passado, inclusive, ela comemorou o seu aniversário no Cine Brasília, demonstrando a paixão que leva no peito por uma cultura que existe e resiste. "O Cine Brasília permite o consumo do cinema independente, universitário, local e premia quem tem a honra de exibir o seu trabalho na sua sala Vladimir Carvalho. É o espaço de encontro no eixo sul, do plano da unidade vizinhança, ao lado do primeiro prédio erguido da capital. É o sonho de Lucio Costa desenhado por Niemeyer que segue realizado pelos brasilienses."
Entre existência e resistência
Roteirista, produtora, diretora e atriz, Catarina Accioly, 52 anos, respira cinema há quase três décadas, quando decidiu que esse seria o propósito de sua jornada no mundo. Desde então, enxerga a importância dessa arte como uma válvula de escape para unir pessoas e reprimir a solidão. Isso, sobretudo, pela capacidade da cultura brasileira ser tão variada em narrativas, fazendo com que tantos se identifiquem com histórias que não são tão individuais assim.
"O cinema brasileiro tem variedade de narrativas e estéticas próprias de um país diverso e extenso. O reconhecimento internacional dessas obras, circulando em festivais e premiações de peso tem despertado cada vez mais interesse do público, que tem comparecido às salas para assisti-las na grande tela. O que é digno de celebração", acrescenta. Para ela, a repercussão positiva de filmes como Ainda estou aqui, O agente secreto, Manas, O último azul, A natureza das coisas invisíveis e A melhor mãe do mundo, por exemplo, desperta cada dia mais interesse em grandes festivais internacionais.
Desse modo, impacta diretamente no público brasileiro, que busca por obras nacionais nas salas de cinema. "É um momento próspero e frutífero para nossas narrativas. Inclusive, com filmes do DF fazendo parte dessa alavancada e tendo repercussão nacional e internacional ímpar", afirma. A experiência de assistir a filmes em tela grande, na sala escura, de forma coletiva e imersiva é incomparável a vê-los na TV, por meio de plataformas.
Agora, há que aproveitar a alavancada de obras que, por meio de originalidade, excelência técnica e artística, e uma excelente campanha de comunicação, impacto social e distribuição podem gerar como atrativo ao público e fortalecer a continuidade e a diversidade do cinema. O futuro do cinema? Bom, é acreditar que ele está vivo e, ao contrário do que se propaga, não será substituído. "Assim penso e luto para que aconteça", finaliza Catarina.

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