
Coceira insistente, lambedura constante das patas, vermelhidão na pele e até mau cheiro nas orelhas. Sinais que muitos tutores ainda interpretam como algo passageiro podem, na verdade, indicar um quadro de dermatite, uma inflamação da pele que está entre os problemas mais recorrentes nos consultórios veterinários, especialmente em períodos de calor intenso e chuvas frequentes.
Segundo as professoras de medicina veterinária Isabela Barbosa e Thayara Oliveira, do Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), as condições climáticas mais quentes e úmidas criam o ambiente ideal para dois gatilhos importantes: o aumento de ectoparasitas, como pulgas e carrapatos, e a multiplicação exagerada de microrganismos que já vivem naturalmente na pele dos cães. Quando esse equilíbrio se rompe, o que antes era parte da microbiota normal pode se transformar em inflamação, infecção e desconforto.
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A umidade, aliás, é uma das principais vilãs. A pele canina funciona como uma barreira física altamente eficiente, mas quando permanece molhada por longos períodos, sua regulação fisiológica pode falhar. O pH se altera, as defesas locais diminuem e abrem espaço para o crescimento de fungos e bactérias. O resultado é um quadro que exige atenção veterinária e, muitas vezes, tratamento prolongado.
Dermatite é, essencialmente, uma inflamação da pele, mas suas causas são diversas. Ela pode surgir por alergias ambientais ou alimentares, picadas de parasitas, infecções por fungos e bactérias ou até alterações físico-químicas da pele.
Na prática clínica, três tipos aparecem com maior frequência: dermatite alérgica à picada de ectoparasitas (DAPE), dermatite trofoalérgica (relacionada à alimentação) e dermatite atópica, uma condição crônica e multifatorial.
O desafio é que nem sempre é possível identificar a causa apenas observando o animal. Muitas vezes, diferentes fatores coexistem. Um quadro alérgico, por exemplo, pode facilitar infecções secundárias e essas, por sua vez, perpetuam a inflamação.
Além disso, problemas de pele não se limitam ao corpo. A otite recorrente pode estar diretamente ligada à dermatite, ou seja, enquanto a pele estiver inflamada, as infecções de ouvido tendem a se repetir.
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Os primeiros sinais de alerta
O primeiro passo para identificar tais problemas é prestar atenção aos sintomas. Estando entre os sinais mais comuns, a coceira pode nem sempre ser dermatite, mas a constância lesiona a pele e facilita infecções. Outros indícios também merecem atenção, como no caso de lambedura constante, que pode indicar desde dermatite atópica até alergia alimentar, contato irritante, infecção interdigital ou dor.
"A vermelhidão persistente também é sempre relevante. Embora haja situações fisiológicas, como estresse momentâneo, mudanças de coloração da pele ou mucosas pedem consulta veterinária para graduar a gravidade e agir antes de complicações", orienta Thaynara.
As especialistas também alertam para o mau cheiro nas orelhas, que quase sempre pode indicar algum problema. "O odor desagradável costuma apontar para proliferação de fungos ou bactérias. Porém, vale lembrar: muitas vezes não é um 'bicho novo', mas o crescimento exagerado de microrganismos da própria pele, favorecido por um desequilíbrio anterior. Tratar a infecção é parte do caminho; o foco principal deve ser corrigir a causa primária", explica Isabela.
Descamação, pústulas e falhas no pelo também devem acender o radar do tutor. Ambas as professoras reforçam que o diagnóstico precoce é essencial para evitar a cronificação do problema.
Banho demais também faz mal
Na tentativa de manter o pet limpo, muitos tutores acabam exagerando nos banhos, o que pode ter efeito contrário ao esperado. O excesso remove lipídios naturais da pele, altera o pH e compromete sua função protetora.
Um erro comum é o uso de produtos inadequados ou até pomadas humanas. Além do risco de irritação e toxicidade, esses itens podem agravar a inflamação e dificultar o tratamento. "Produtos não veterinários ou de qualidade duvidosa desregulam o pH, rompem a barreira cutânea e desencadeiam prurido e infecções secundárias. O caminho seguro é usar xampus e sabonetes veterinários de boa procedência, com orientação profissional", aleta Thaynara.
A secagem após o banho ou passeios na chuva é igualmente crucial. Regiões como axilas, dobras cutâneas e espaços entre os dedos retêm mais umidade, e toda pele e pelos molhados por muito tempo facilitam a proliferação de fungos e bactérias.
O uso do secador pode, sim, ser útil, mas desde que seja morno, a uma distância segura da pele e por tempo controlado. "O ideal é tirar o máximo de água com toalhas e, se possível, terminar a secagem naturalmente, evitando sol forte e calor direto. Jato quente e proximidade excessiva irritam e ressecam a pele, especialmente as mais sensíveis", explica Isabela.
Prevenção começa na rotina
A principal solução para esse problema mora na prevenção. Entre os cuidados básicos recomendados pelas especialistas estão alguns bem simples, como manter o controle de pulgas e carrapatos em dia, utilizar apenas produtos veterinários indicados, evitar que o animal permaneça molhado, oferecer ambiente limpo, seco e ventilado, e sempre buscar avaliação ao primeiro sinal de alteração na pele
A tosa, por sua vez, deve ser avaliada caso a caso. Pelagens muito longas podem favorecer dermatites, mas alguns cães também desenvolvem irritações após o procedimento.
No fim das contas, a saúde da pele está diretamente ligada à qualidade de vida do animal. E, como reforçam as professoras, intervir cedo é sempre o melhor caminho para evitar que um simples incômodo se transforme em um problema crônico. Em casos mais severos, a dermatite pode evoluir para automutilação, infecções profundas e até necessidade de antibióticos prolongados ou intervenção cirúrgica.
Raças mais vulneráveis
Um detalhe adicional a estar atento, é a raça do animal, pois embora qualquer cão possa desenvolver dermatite, há predisposição genética em algumas raças, pois características anatômicas e imunológicas específicas contribuem para a maior incidência de doenças dermatológicas nesses animais.. Entre as mais frequentemente afetadas estão:
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Shih-tzu
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Lhasa Apso
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Pug
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Bulldog
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Golden Retriever
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Labrador
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Shar-pei
*Estagiária sobre supervisão de Sibele Negromonte

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