
Reunir amigos em volta de uma mesa para jogar pode parecer apenas uma forma descontraída de passar o tempo. No entanto, por trás das cartas, tabuleiros e dados, há um complexo conjunto de processos emocionais, cognitivos e sociais em ação. Psicólogos, educadores e os próprios jogadores confirmam: os jogos de cartas e tabuleiro, especialmente o presencial, são uma ferramenta poderosa de desenvolvimento humano da infância à vida adulta.
A psicóloga organizacional Regina Sautchuck é enfática ao afirmar que o brincar não deve ser restrito à infância. "O brincar na vida adulta continua sendo fundamental porque ativa criatividade, espontaneidade e flexibilidade psicológica. Ele permite que a pessoa experimente papéis, alivie tensões do cotidiano e se conecte com aspectos mais leves da própria personalidade. Brincar não é imaturidade, é saúde emocional."
Segundo ela, o jogo pode ser considerado uma importante ferramenta de desenvolvimento emocional, pois cria um espaço simbólico e seguro para lidar com desafios — competir, cooperar e experimentar emoções como alegria, frustração e expectativa. Dentro da partida, as emoções são reais, mas as consequências são limitadas ao universo do jogo. Essa característica favorece a autorregulação emocional. "Jogos expõem o jogador a situações de tensão e expectativa em um ambiente controlado. A pessoa aprende a reconhecer emoções, administrar impulsos e lidar com resultados inesperados", explica.
A prática frequente também impacta funções cognitivas. Jogos de tabuleiro estimulam raciocínio lógico, planejamento estratégico, memória de trabalho, atenção sustentada, flexibilidade cognitiva e resolução de problemas. "Existe impacto positivo na memória, na atenção e na tomada de decisão, porque o jogo exige análise de cenários, antecipação de consequências e escolhas sob pressão", afirma Regina.
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A experiência de quem joga
O administrador Marcelo Pacheco, 43 anos, transformou o hobby em rotina. "Sempre gostei de jogos de tabuleiro. Na escola, tinha acesso a poucos: War, Banco Imobiliário, Jogo da Vida. Depois ganhei um War edição especial e reunia amigos na faculdade, mas sem tanta frequência. Já adulto, conheci os jogos modernos e fiquei impressionado com a variedade de temáticas e mecânicas. Hoje, jogo praticamente toda semana."
Marcelo percebe o impacto dos jogos na tomada de decisão cotidiana. "Você começa a pensar intuitivamente em como otimizar as coisas." Ele cita jogos cooperativos e do estilo "Euro", que desafiam sua forma de pensar, exigindo que o grupo alcance objetivos com poucos recursos disponíveis.
A relação com a derrota também mudou. "Perder nunca é bom, né? No início eu ficava mais triste. Hoje, o que conta é a experiência. Conhecer novos jogos e me desafiar é mais prazeroso do que ficar em primeiro lugar. Se me divertir no processo, valeu", garante. Com isso em mente, Marcelo organiza um evento mensal para reunir jogadores na cidade onde mora, Porto Alegre. "É uma forma segura de se divertir e sem contraindicações para a saúde."
O evento, aberto e bem receptivo, apelidado de Pachecopalooza, é uma oportunidade para quem não tem acesso a muito jogos, poderem se divertir. Além de ser um ótimo espaço para fazer amigos, em um ambiente seguro e acolhedor, sem gastar muito.
Marcelo acredita que os jogos facilitam interações sociais, criam espaço para conversas antes, durante e depois das partidas e ajudam a quebrar o gelo em novas situações. “É uma forma de se encontrar e interagir com as pessoas, reunir famílias também, inclusive várias gerações na mesma mesa”
Competitividade, conexão e autoconhecimento
A estudante de design Ana Luiza Alves, 20 anos, cresceu jogando com a família. "Meus pais sempre gostaram." Seus favoritos são jogos de festa, como Imagem e Ação e Dixit, além de títulos como Munchkin, Detetive e War. "Jogos, sobretudo de tabuleiro, são ótimos porque causam essa interação entre as pessoas, e por isso ajudam a relaxar e a extravasar, principalmente quando é algum jogo de interpretação e/ou mímica", diz.
Ana admite ser competitiva e que isso já gerou estresse. "Eu já fiquei estressada com a derrota, mas aprendi a aceitar, principalmente quando o oponente faz uma jogada muito boa." Ela identifica no jogo uma forma de relaxar e dispersar pensamentos. A experiência tem sido tão significativa que ela desenvolveu, em um projeto acadêmico, um jogo de cartas voltado para facilitar a interação de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). "Os jogos mostram que, muitas vezes, você não consegue fazer nada sozinho. Ensinam que amizade e interação são muito importantes."
Jogos como ferramenta de aprendizagem
Se ganhar traz satisfação, perder traz aprendizado. Para Regina Sautchuck, a frustração vivida no jogo é estruturada e segura, contribuindo para a tolerância à perda e o desenvolvimento da persistência. "O erro dentro do jogo é oportunidade de ajuste de estratégia, não fracasso definitivo. Isso fortalece autoconfiança, capacidade de adaptação e resiliência."
A potência dos jogos como ferramenta de aprendizagem é a base de um projeto de workshop realizado na Ludoteca BGC. O organizador Murilo Machado explica que a proposta é usar jogos de tabuleiro para debater temas como criatividade, comunicação, trabalho em equipe e até finanças.
Ele cita a revisão sistemática publicada na Revista Portuguesa de Educação, que aponta efeitos positivos do uso de jogos no ensino de conteúdos acadêmicos. "O jogo não concorre com métodos tradicionais, ele complementa. Permite experimentar o conhecimento e oferece feedback imediato. Você erra, ajusta e tenta de novo", conta. "O aprendizado lúdico coloca a pessoa no centro da atividade. Não é 'o que' os jogos ensinam, mas 'como' ensinam. Permitem experimentação prática do conteúdo teórico, liberdade para errar e feedback rápido."
Nos encontros, o aprendizado acontece de forma orgânica. "Começamos com um jogo quebra-gelo. As pessoas se soltam, o debate flui e nenhum workshop é igual ao outro", relata.
Brincar na vida adulta
A psicóloga Luciana Santos, que conduz o módulo A importância do brincar nos workshops da Ludoteca, na Asa Sul. reforça que o jogo evidencia características emocionais já existentes. "Se a pessoa tem medo rígido de errar, ela levará isso para o jogo. Mas o tabuleiro oferece um espaço seguro de treino. Com autopercepção e a intenção de aperfeiçoamento, torna-se uma ferramenta valiosa para trabalhar o manejo emocional."
Luciana diz que existe uma diferença na atenção quando o conteúdo envolve os jogos. "A atenção deixa de ser um esforço passivo e torna-se ativa. Dependendo do objetivo e da mecânica do jogo — seja ela analítica, seja de linguagem — a atenção, a memória e o raciocínio trabalham em conjunto".
"Na primeira infância, o brincar atua como um laboratório social no qual se desenvolve a resistência à frustração, a alteridade e a empatia. Até na vida adulta o jogo é relevante: em uma mesa de tabuleiro, o sujeito é convocado a utilizar habilidades de socialização e funções executivas, como comunicação, atenção e resiliência, que desenvolveu ao longo da vida", resume Luciana.
Soft skills em movimento
No módulo conduzido por Mariana Yumi Kobayashi, analista na área de inovação, os jogos são ferramentas para desenvolver competências socioemocionais. "Diferentemente das habilidades técnicas, as soft skills exigem prática e vivência." Entre as competências
estimuladas estão cooperação, empatia, escuta ativa, negociação, autorregulação emocional, tolerância à frustração, criatividade e adaptabilidade.
Jogos como Bohnanza e Catan evidenciam negociação de recursos. Cooperativos colocam todos contra o sistema — ou todos vencem, ou todos perdem, favorecendo a colaboração e a liderança. "Qualquer jogo pode gerar insights. Durante a partida, percebemos como lidamos com risco, pressão do tempo e escassez de recursos. Com reflexão, a experiência vira ferramenta de autoconhecimento."
Ela explica que os jogos podem, em vezes, simular situações reais de tomada de decisão. "Tanto na vida real quanto em um jogo, o processo de tomada de decisão envolve observar o cenário, analisar recursos disponíveis, avaliar riscos e, então, escolher a melhor jogada". A diferença é que, no jogo, as consequências são simbólicas, o que permite experimentar estratégias e aprender com os erros em um ambiente seguro".
Mariana ressalta que é importante deixar claro que não há soluções mágicas: ninguém domina a escuta ativa após jogar uma única partida. O desenvolvimento socioemocional é contínuo. Assim como na terapia, não se resolvem questões emocionais em apenas uma sessão.
No módulo Jogos e Cultura, o professor Marcello Gomes apresenta o jogo como expressão histórica e identitária. O conteúdo aborda jogos tradicionais de diferentes culturas, evidenciando como cada sociedade imprime valores, estratégias e visões de mundo em suas práticas lúdicas. Jogos africanos e afrocentrados ajudam a discutir ancestralidade, colonização e representatividade.
Ao experimentar dinâmicas como Mancala, os participantes vivenciam estratégias e narrativas que refletem identidades culturais. "A prática cria memórias afetivas e fortalece empatia e consciência crítica." Marcello explica que o jogar facilita discussões sobre identidade e sociedade. "Ao jogar, os participantes podem perceber como valores, tradições e histórias influenciam comportamentos e escolhas", justifica.
No módulo Finanças Lúdicas, a educadora financeira Ana Luiza Marinho utiliza jogos para explicar conceitos de economia comportamental. Ela usa metáforas, como a mala que precisa acomodar peças de forma estratégica, para ilustrar o orçamento doméstico. "A consequência da escolha no jogo é imediata. Isso facilita visualizar como decidimos e por que erramos."
Ela explica que essa modalidade pode ajudar a lidar com conceitos complicados, como questões financeiras. "Dinheiro é um assunto difícil de lidar para muitas pessoas e, em dificuldade financeira, muitos não enxergam solução para os seus desafios. Os jogos permitem lançarmos um novo olhar sobre a mesma situação e, por analogia, a partir deles, falamos sobre dinheiro de uma forma mais leve, lançando um novo olhar sobre desafios financeiros."
Segundo ela, educação financeira tradicional não é suficiente para mudar o comportamento. “Informação por si só não transforma. A experiência lúdica pode estimular uma nova forma de pensar.”
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

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