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Nolt: idosos redescobrem a vida e apostam na maturidade sem rótulos

Longe dos estereótipos da "terceira idade", pessoas com mais de 60 anos assumem o protagonismo da própria história e mostram que envelhecer pode ser sinônimo de liberdade

 24/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil.  Brasilia - DF. Idosos independentes e ativos. Maria Eunice(cabelo Branco), Vera de Fátima(calça vermelha), Ilma Maria(óculos) Carmen Isabel -  (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
24/03/2026. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Idosos independentes e ativos. Maria Eunice(cabelo Branco), Vera de Fátima(calça vermelha), Ilma Maria(óculos) Carmen Isabel - (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Não é mais sobre "envelhecer com tranquilidade" ou aceitar uma vida mais lenta e recolhida. Uma nova forma de viver a maturidade vem ganhando espaço, mais ativa, mais autônoma e, sobretudo, mais livre de rótulos. É nesse contexto que surge o conceito de Nolt (New Older Living Trend), uma tendência que traduz o desejo de pessoas com mais de 60 anos de continuarem sendo protagonistas de suas próprias histórias.

Essa mudança não ocorre apenas no discurso. Ela se revela no cotidiano, nas escolhas e, principalmente, nas histórias de quem decidiu não parar. Aos 86 anos, Eloá Menezes de Santana é um desses exemplos. Foi depois de um momento de perda que a vida dela ganhou novos caminhos. "Quando eu comecei a viajar, foi sozinha, porque foi depois que fazia um ano que o meu marido, Santana, tinha falecido", conta.

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A primeira viagem internacional, que originalmente faria ao lado do marido, precisou ser reinventada. "Estava tudo pago, seria dia 5 de novembro, ele morreu dia 2. Eu tive que cancelar tudo, troquei pra outubro e fui com a Andréia, minha filha."

Apesar da dor ainda presente, Eloá decidiu seguir. "A primeira viagem não foi muito boa, porque eu ainda estava muito chateada, muito triste. Mas foi bom, foi bom conhecer a Espanha e a França", lembra

O que poderia ter sido apenas uma tentativa pontual virou um novo estilo de vida. Aos 70 anos, ela deu início a uma jornada que hoje soma experiências em diferentes partes do mundo. "Arrumei um grupo de senhoras e continuamos a fazer viagens. Elas vinham, faziam reunião no salão de festas aqui de casa e eu continuei viajando para todo lugar com elas", afirma.

Eloá Menezes de Santana com amigas em cruzeiro
Eloá Menezes de Santana (centro) com amigas em cruzeiro (foto: Arquivo pessoal )

O mais impressionante não é apenas a quantidade de destinos, mas a forma como Eloá encara tudo isso. Medo, para ela, nunca foi um impeditivo. A mudança mais profunda, no entanto, não foi geográfica, foi interna. "Mudou a minha liberdade, eu me sinto mais livre", resume. 

Hoje, com 28 países visitados, ela faz planos e não pretende parar enquanto "não cair as pernas". "Eu queria ir para a Tailândia, estou vendo com as minhas amigas", conta.  Para Eloá, viajar é mais do que lazer. É transformação. "Você sai e não volta a mesma, você volta sabendo outras coisas que não conhecia. É muito bom."

A história de Eloá traduz, na prática, o que especialistas já observam há algum tempo, envelhecer deixou de ser sinônimo de encerramento e passou a ser entendido como continuidade.

Prazer em recomeçar

Aos 74 anos, Maria das Graças Yoda decidiu desacelerar, mas não parar. Empresária por décadas, ela construiu uma trajetória intensa no ramo de eventos, marcada por jornadas exaustivas e projetos de grande porte. À frente do buffet La Fiesta e, mais recentemente, do Quintal da Dona Graça, ela se consolidou no mercado com festas temáticas que se tornaram referência, especialmente as juninas, que ganharam destaque e reconhecimento. "Eu trabalhava 16, 18 horas por dia. Era muito trabalho. Era uma rotina muito puxada, muito intensa", relembra.

O ritmo acelerado só foi interrompido após um problema de saúde, que a obrigou a olhar para si mesma e repensar o próprio estilo de vida. "Chegou um momento em que eu precisei parar. Entender que não dava mais para continuar naquele ritmo", conta. Foi então que, aos 72 anos, decidiu se aposentar, buscando mais equilíbrio e qualidade de vida depois de anos dedicados ao trabalho.

Graça se dedica a dar cursos e promover rodas de conversa sobre sexualidade e presença feminina, levando reflexões sobre prazer, autonomia e bem-estar em todas as fases da vida
Graça se dedica a dar cursos e a promover rodas de conversa sobre sexualidade e presença feminina, levando reflexões sobre prazer, autonomia e bem-estar em todas as fases da vida (foto: Fotos: Arquivo pessoal)

Mas, para Graça, parar nunca foi sinônimo de ficar estagnada. Antes mesmo de encerrar o ciclo como empresária, ela já sentia que precisava continuar ativa, que ainda havia algo a ser construído. "Eu sempre soube que não ia conseguir ficar parada. Eu precisava fazer alguma coisa, eu precisava ter um propósito", diz.

A primeira tentativa foi no coaching. Voltou a estudar, sentou novamente em uma "cadeira de aluna" depois de anos longe da vida acadêmica e mergulhou na formação. "Eu pensei que era isso que eu queria. Fiz o curso, estudei, me dediquei, mas no fim percebi que não era o meu caminho", admite. A dúvida voltou a aparecer, junto com a inquietação de quem ainda buscava um novo sentido. "Eu falava: bom, então o que eu vou fazer agora?", lembra.

Foi nesse momento que surgiu o incentivo da filha, que mudaria completamente sua trajetória. A sugestão para que buscasse a sexologia apareceu como uma possibilidade alinhada ao seu perfil e aos seus interesses, ainda que, no início, viesse acompanhada de dúvidas e inseguranças. "Não sei se é isso", resume. Mesmo assim, decidiu arriscar e enxergou na nova área uma oportunidade de recomeço, abrindo espaço para uma fase mais leve e tranquila.

Graça ingressou no curso de sexologia e, mais uma vez, precisou enfrentar um universo completamente novo. O ensino on-line, os estudos teóricos e a necessidade de concentração eram um desafio para quem sempre viveu na prática, organizando eventos e lidando com rotinas operacionais intensas. "Eu nunca tinha parado para estudar. Quando comecei, senti muita dificuldade. Era tudo novo para mim", confessa. Ainda assim, persistiu. E foi justamente nesse processo de adaptação que algo mudou. 

A descoberta veio acompanhada de um novo olhar sobre a própria vida e sobre o envelhecimento. "A sexualidade é muito mais do que sexo. É o prazer pela vida, é a alegria de estar aqui. É descobrir as pequenas coisas, é o que te dá vontade de viver", resume.

A nova fase também trouxe desafios inesperados, especialmente no contato com a tecnologia. Produzir conteúdo, gravar vídeos e se posicionar nas redes sociais exigiu dela coragem e disposição para aprender. "Para mim, isso tudo é muito novo. Dá insegurança, claro. Mas eu fui atrás, estou aprendendo, estou me permitindo", conta.

Apesar das dificuldades, o sentimento predominante hoje é de realização. Graça encontrou uma forma de continuar ativa sem abrir mão do equilíbrio que buscava. "Hoje é diferente. Eu não preciso mais daquela rotina pesada. Posso trabalhar com algo mais leve, mais tranquilo, e, ainda assim, ter propósito", diz.

Ativação do cerébro

Para ela, o segredo de envelhecer bem está diretamente ligado à capacidade de continuar sonhando. "Se você se aposenta e simplesmente para, você envelhece. Agora, quando você tem um sonho, você continua vivendo." E sonhos, ela garante, não faltam. "Eu tenho vários. Às vezes até preciso me controlar", brinca.

Atualmente, Maria das Graças Yoda se dedica a dar cursos e promover rodas de conversa sobre sexualidade e presença feminina, levando reflexões sobre prazer, autonomia e bem-estar em todas as fases da vida. Mais do que ensinar, ela quer provocar mudanças. "Eu quero mostrar para as pessoas que é possível se reinventar. Que não acabou. Que ainda tem muita vida pela frente", diz.

O conselho que deixa é direto e carregado de experiência. "Não tenham medo de recomeçar. Vocês já fizeram a trajetória de vida, já criaram filhos, já trabalharam. Agora é hora de desfrutar, com prazer, com alegria, com vontade de viver", afirma.

Em um momento que define como um dos mais felizes da vida, Graça encontrou um novo sentido para o envelhecer. E faz questão de compartilhar isso com quem estiver disposto a ouvir. "Hoje eu quero mostrar que, com 74 anos, é possível ter prazer, desejo e alegria de viver. É possível se sentir viva."

Segundo o neuropsicólogo Rafael Moore, manter-se ativo é essencial para o funcionamento do cérebro. "As conexões do sistema nervoso, chamadas sinapses, são dinâmicas e respondem a estímulos ambientais. Então, quanto mais estímulos, mais ativas."

Ele explica que o aprendizado contínuo e os desafios são fundamentais nessa fase da vida. "Manter-se ativo, sempre aprendendo algo novo, desafiando-se, fazendo atividades estimulantes, nos ajudam a manter nossas sinapses funcionando a pleno vapor."

Mas não é só o cérebro que se beneficia. A saúde emocional também depende diretamente do movimento e da convivência. "Uma fonte muito importante de estimulação é a socialização, afinal somos animais gregários", afirma. "Pela interação social, estimulamos a linguagem, o pensamento, mas também temos estímulos afetivos."

O problema é que, historicamente, a velhice foi associada ao isolamento. E é justamente essa lógica que o novo comportamento tenta romper. "O convívio em grupo e a criação de novos vínculos fazem muita diferença", reforça o especialista. "Temos diversos estudos que mostram que o simples fato de estar integrado a atividades sociais já melhora a cognição de idosos."

Essa mudança também é percebida na forma como a sociedade começa a olhar para essa fase da vida. "Estamos mudando a perspectiva da velhice como um fim e passando a vê-la como outra fase da vida, cheia de possibilidades interessantes", diz.

A vida em movimento

É nesse cenário de nova visão sobre o envelhecimento que políticas públicas têm ganhado relevância ao oferecer espaços concretos para que essa transformação aconteça. Um exemplo é o programa Viver 60 , da Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal, que promove o envelhecimento ativo por meio de atividades de saúde, educação e lazer.

É o caso de Maria Eunice Vasconcelos, de 72 anos. Antes de entrar no projeto, a rotina dela era marcada por limitações físicas. "A minha rotina antes de eu ir para o Viver 60 , era ir para o HUB. Eu estava doente, fiquei internada, não andava, não falava, não tinha equilíbrio", relata.

A recuperação foi lenta e cheia de desafios. "Eu usava duas bengalas e, quando ia para a fisioterapia, sempre tinha que ir com uma pessoa comigo." Durante cinco anos, pouco mudou. Até que surgiu a indicação da médica que cuidava de Maria Eunice para o programa. Mesmo sem saber exatamente o que encontraria, ela decidiu tentar.

"Quando eu cheguei lá, estava andando só com uma bengala. Bem devagarinho, fui, sentei na cadeira e fiquei observando aquele movimento, aquela dança. Então, eu disse: 'Gente, eu vou entrar nesse projeto.'" O começo foi tímido, respeitando seus próprios limites. Com o incentivo dos professores e organizadores do projeto, ela começou a se exercitar, e os resultados vieram. "Quando foi no terceiro mês, não usei mais bengala."

A mudança foi além da mobilidade. Ela reconquistou autonomia e autoestima. "Eu não arrumava as coisas, a minha cabeça doía muito", explica Maria Eunice. "Hoje, sou uma dançarina de zumba", acrescenta em tom de celebração. 

Mais do que atividade física, o programa trouxe pertencimento. "Eu não tinha muita amizade, percebo isso agora", diz. A transformação também aparece na forma como ela se vê. "Eu tenho 72 anos, mas me sinto como uma senhora de 60, 50 anos."

Para a subsecretária de Políticas para o Idoso, Dolores Ferreira, a prática de atividades físicas e sociais tem impacto direto na forma como o envelhecimento é percebido. Entre os principais efeitos estão a melhora da autonomia, a prevenção de doenças, a redução de quedas e o fortalecimento da saúde mental. Além disso, essas atividades ajudam a romper estigmas. Ao se manterem ativos, os idosos deixam de enxergar a velhice como limitação e passam a associá-la a movimento, aprendizado e independência.

Mais do que uma agenda de atividades, o programa se tornou uma política estruturada de cuidado com a população idosa. "O Viver 60 é mais do que um programa, é uma política pública que garante dignidade, autonomia e qualidade de vida para a pessoa idosa no Distrito Federal. Ao institucionalizá-lo, asseguramos que esse cuidado seja contínuo e alcance cada vez mais pessoas", afirmou Marcela Passamani, secretária de Justiça e Cidadania do DF.

Superar obstáculos e se desafiar

Com uma rotina ativa, Gina Lapertosa, 64, encontrou no crossfit uma forma de seguir em movimento e se desafiar diariamente. Apaixonada por atividade física desde a infância, cresceu em um ambiente em que o movimento fazia parte da rotina, incentivada pelos pais a praticar esportes e experimentar diferentes modalidades. Ao longo da vida, manteve esse vínculo com o corpo em movimento e, já adulta, encontrou na natação um espaço de pertencimento, chegando a competir como atleta master e participar de viagens e campeonatos.

Durante esse período, Gina foi atingida por um carro, sofreu uma fratura exposta no pé e precisou passar por cirurgias, incluindo a colocação de pinos e placas, além de enfrentar meses sem poder apoiar o pé no chão. O processo de recuperação foi longo e exigiu uma nova intervenção cirúrgica, o que tornou o retorno às atividades físicas incerto. A expectativa era voltar para a natação, mas o caminho acabou sendo outro.

Foi a partir do incentivo da filha que surgiu o contato com o crossfit, modalidade que até então era desconhecida para ela. A primeira atividade aconteceu aos 55 anos, de forma despretensiosa, mas rapidamente se transformou em uma descoberta decisiva. "Eu fui para ver como era e nunca mais saí", conta. O ambiente coletivo, o dinamismo dos treinos e os desafios diários despertaram um novo interesse e deram início a uma jornada que já dura quase uma década.

Para Gina, envelhecer não significa encerrar ciclos, mas abrir novas possibilidades
Para Gina, envelhecer não significa encerrar ciclos, mas abrir novas possibilidades (foto: Reprodução/Instagram: @ginalapertosa)

Na época, Gina também enfrentava os efeitos do climatério, como insônia, fraqueza e perda de massa muscular, o que tornava a prática ainda mais desafiadora. Foi justamente nesse contexto que o crossfit se tornou um aliado importante. Com treinos progressivos, adaptação de cargas e acompanhamento, ela começou a recuperar a força, melhorar o condicionamento físico e perceber mudanças significativas no próprio corpo. "Eu comecei com tudo adaptado, com peso leve, e fui evoluindo aos poucos. A técnica, a força e a resistência vão chegando com o tempo", explica.

Mais do que ganhos físicos, a transformação também foi interna. Ao longo do processo, Gina passou a se reconhecer como uma pessoa capaz, ativa e em constante evolução. "Você se sente forte, capaz, percebe que ainda consegue fazer as coisas. Que a vida não escapou", resume. A prática esportiva passou a ser, para ela, não apenas uma rotina, mas uma forma de reafirmar autonomia e vitalidade.

A relação com a idade, nesse contexto, deixa de ser um limitador. Gina afirma que nunca entrou em um treino acreditando que não conseguiria acompanhar. Pelo contrário, encara cada desafio como uma oportunidade. "Eu me sinto capaz. Eu vou para fazer, para me desafiar", diz. Situações de estranhamento ou subestimação, quando aconteceram, foram rapidamente superadas na prática, à medida que demonstrava desempenho e resistência semelhantes aos de pessoas mais jovens.

Para ela, o maior obstáculo não está no corpo, mas na forma como o envelhecimento é encarado socialmente. Gina critica a ideia de que a velhice deve ser um período de inatividade ou recolhimento. "Muita gente acha que acabou, que agora é só ficar em casa. Mas não precisa ser assim", afirma. Ela defende que o movimento, em diferentes intensidades, é essencial para manter a saúde física, mental e emocional, e que a atividade física pode assumir diversas formas, desde caminhadas até práticas mais estruturadas.

Ao olhar para o futuro, Gina mantém o mesmo pensamento que a moveu até aqui. Para ela, envelhecer não significa encerrar ciclos, mas abrir novas possibilidades. "Eu já vivi 64 anos. E os próximos? O que eu posso fazer para estar melhor daqui a cinco anos?", questiona. A resposta está na continuidade, na disciplina e na disposição para seguir em movimento.

Aposentadoria: um recomeço

Essa virada de chave também tem reflexos emocionais profundos. Como explica o neuropsicólogo Rafael Moore, "essas atividades nos mostram que nossa vida não está se encaminhando para o término, mas que ela ainda é repleta de caminhos interessantes e divertidos."

Cada vez mais, o envelhecimento tem sido marcado por trajetórias de reinvenção e busca por novos propósitos. Segundo a psicóloga Luciana Inocêncio, esse movimento de retomada após a aposentadoria tem se tornado cada vez mais evidente e reflete uma mudança profunda na forma como essa fase da vida é vivida. "Esse movimento não é apenas econômico, é existencial. Estamos falando de uma geração que não aceita mais ser colocada num lugar de encerramento, mas, sim, de continuidade", afirma.

De acordo com a especialista, a aposentadoria, que antes simbolizava o fim de um ciclo produtivo, hoje passa a ser percebida como uma oportunidade de recomeço. Isso acontece porque o trabalho não está ligado apenas à renda, mas também à construção de identidade e de sentido. "O ser humano não se aposenta do desejo de se sentir útil, pertencente e vivo", explica. Quando essa estrutura é interrompida de forma abrupta, pode surgir um vazio que, em muitos casos, impulsiona a busca por novas atividades e novos caminhos.

Esse comportamento também reflete uma transformação social em curso. Para Luciana, o envelhecimento começa, ainda que de forma gradual, a ser associado não apenas a perdas, mas também a potência, experiência e liberdade. "Estamos diante de uma ruptura simbólica importante. O idoso que se reposiciona desafia um imaginário antigo e amplia as possibilidades para toda a sociedade", afirma. Ainda assim, ela ressalta que o preconceito etário permanece presente e representa um dos principais obstáculos enfrentados por quem decide recomeçar.

No campo psicológico, os impactos de se manter ativo tendem a ser positivos, desde que essa escolha não seja uma imposição. A continuidade das atividades fortalece a autoestima, preserva o senso de identidade e reduz sentimentos como solidão e inutilidade, frequentemente associados ao envelhecimento. "O sujeito não se percebe como alguém que 'foi', mas como alguém que ainda 'é'. Isso sustenta o sentido da vida", destaca.

Mais do que uma necessidade financeira, o trabalho nessa fase costuma estar ligado ao propósito. A especialista explica que, com o passar dos anos, há uma mudança na relação com o fazer profissional, que passa a ser mais conectado ao prazer e à realização pessoal. "O indivíduo começa a se perguntar o que ainda faz sentido para ele. O trabalho deixa de ser apenas sobrevivência e passa a ser expressão de identidade", afirma.

Além disso, manter uma rotina ativa exerce um papel fundamental na saúde mental. Segundo Luciana, a organização do dia a dia contribui para a sensação de controle, estimula a cognição e favorece a criação de vínculos sociais. "Sentir-se produtivo não é apenas uma questão social, é uma necessidade psicológica. O ser humano precisa perceber que ainda tem valor, que ainda contribui, que ainda pertence", conclui. 

No fundo, é disso que trata o Nolt, de recusar a ideia de fim. Seja cruzando continentes aos 70 anos, como Eloá, redescobrindo o próprio corpo aos 72, como Maria Eunice, dedicando-se a uma profissão inesperada, como Maria das Graças, ou se desafiando a superar adversidades, como Gina Lapertosa, o que essas histórias mostram é que a maturidade pode ser um recomeço.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

  • Graça se dedica a dar cursos e a promover rodas de conversa sobre sexualidade e presença feminina, levando reflexões sobre prazer, autonomia e bem-estar em todas as fases da vida
    Graça se dedica a dar cursos e a promover rodas de conversa sobre sexualidade e presença feminina, levando reflexões sobre prazer, autonomia e bem-estar em todas as fases da vida Foto: Fotos: Arquivo pessoal
  • Eloá fez um cruzeiro pela Europa e encontrou com o filho, Ulisses de Santana, em Roterdã, na Holanda
    Eloá fez um cruzeiro pela Europa e encontrou com o filho, Ulisses de Santana, em Roterdã, na Holanda Foto: Arquivo pessoal
  • Eloá Menezes de Santana (centro) com amigas em cruzeiro
    Eloá Menezes de Santana (centro) com amigas em cruzeiro Foto: Arquivo pessoal
  • Para Gina, envelhecer não significa encerrar ciclos, mas abrir novas possibilidades
    Para Gina, envelhecer não significa encerrar ciclos, mas abrir novas possibilidades Foto: Reprodução/Instagram: @ginalapertosa
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JC
postado em 29/03/2026 06:00
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