Longevidade

Estimulação cognitiva ajuda na longevidade cerebral

Estudo conduzido por pesquisadoras da USP mostra que atividades estruturadas de estímulo mental podem melhorar a memória, reduzir sintomas depressivos e contribuir para um envelhecimento mais saudável entre idosos

A busca por uma vida mais longa tem sido acompanhada por outro desafio: envelhecer com autonomia e qualidade de vida. Nesse cenário, a saúde do cérebro ganha cada vez mais destaque. Um estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP) indica que programas estruturados de estimulação cognitiva podem trazer benefícios importantes para o envelhecimento saudável.

A pesquisa avaliou os efeitos de atividades voltadas ao estímulo mental em pessoas com 60 anos ou mais e sem comprometimento cognitivo. Ao todo, 207 participantes foram acompanhados durante dois anos, em um ensaio clínico randomizado que comparou diferentes grupos de intervenção.

Os participantes foram divididos em três grupos: um que participou de um programa estruturado de estimulação cognitiva por 18 meses, outro que recebeu apenas orientações sobre envelhecimento e saúde, e um terceiro que passou apenas pelas avaliações periódicas. O objetivo era verificar se a prática contínua de exercícios mentais poderia gerar impactos mensuráveis na saúde cognitiva e emocional.

Os resultados apontaram melhorias relevantes entre os idosos que participaram das atividades de estimulação. Houve redução de cerca de 60% nas queixas cognitivas e melhora aproximada de 45% na memória ao longo do acompanhamento. Além disso, foi observada diminuição de 29% nos sintomas depressivos relatados pelos participantes.

Segundo a gerontóloga Thais Bento, professora do curso de gerontologia da Universidade de São Paulo e líder do estudo, os dados reforçam o potencial de intervenções não farmacológicas voltadas ao envelhecimento ativo. “A estimulação cognitiva busca melhorar, otimizar ou manter as funções mentais em pessoas idosas, contribuindo para preservar habilidades e adiar possíveis declínios”, explica.

Cérebro ativo ao longo da vida

Embora o envelhecimento traga mudanças naturais ao funcionamento do cérebro, isso não significa necessariamente perda de autonomia. De acordo com a neurologista Josiane Duarte, é comum que algumas funções cognitivas sofram pequenas alterações com o passar do tempo. “Podemos ter maior dificuldade para lembrar nomes ou datas ou precisar de mais tempo para tomar decisões, por exemplo. Essas mudanças geralmente são leves e não comprometem a independência da pessoa”, diz.

A especialista destaca que atividades de estimulação cognitiva ajudam a manter o cérebro ativo porque estimulam a chamada neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de criar novas conexões entre neurônios ao longo da vida. Quanto mais o cérebro é desafiado por novas aprendizagens ou atividades intelectuais, maior tende a ser a rede de conexões neurais.

Esse processo contribui para fortalecer a chamada reserva cognitiva, mecanismo que ajuda o cérebro a lidar melhor com os efeitos do envelhecimento. “Quando exercitamos a mente, diferentes redes neurais são ativadas e fortalecidas, o que pode ajudar a preservar habilidades como memória, atenção e raciocínio”, assegura a neurologista.

Estratégia para o envelhecimento saudável

Para os pesquisadores, os resultados do estudo também ajudam a preencher uma lacuna científica no país. A maioria das pesquisas brasileiras sobre estimulação cognitiva tem duração de poucos meses, enquanto o trabalho acompanhou os participantes por até dois anos.

Segundo Thais, esse acompanhamento mais longo permite avaliar se os benefícios realmente se mantêm ao longo do tempo. “A prática regular de atividades intelectualmente desafiadoras contribui para fortalecer a reserva cognitiva e pode ajudar a prevenir ou adiar o declínio cognitivo”, afirma.

Além das atividades mentais, especialistas ressaltam que a saúde do cérebro depende de um conjunto de hábitos ao longo da vida. Controle da pressão arterial, prática de atividade física, boa qualidade de sono, alimentação equilibrada e vida social ativa são fatores que ajudam a reduzir o risco de demências.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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