
Em um mundo acelerado, em que o tempo parece cada vez mais escasso, um objeto segue firme no pulso de milhões de pessoas: o relógio. Mais do que indicar as horas, ele se consolidou como um símbolo que atravessa décadas, estilos e transformações sociais. Entre o luxo e a simplicidade, entre a tradição e a inovação, o acessório fala sobre identidade, status e memória.
Historicamente associado ao poder, o relógio ainda carrega esse significado, embora de forma mais complexa. "Mesmo não sendo fã dessa ideia, não dá pra negar que ainda é real. Mas o que mudou é a forma como esse status funciona. Por muito tempo, o relógio foi símbolo de poder porque era caro e todo mundo reconhecia a marca no pulso. Você não precisava falar nada, o objeto falava por você. Isso ainda existe, e provavelmente vai continuar existindo por um bom tempo", afirma Vinnicius Gomes, criador do canal @relogiosnareal.
Ao longo dos anos, no entanto, o conceito de status passou por uma transformação. Se antes ele estava diretamente ligado ao valor financeiro da peça, hoje também envolve conhecimento e intenção. "A camada que eu acho mais interessante hoje é outra. É a pessoa que sabe exatamente por que está usando o que está usando. Isso transmite algo que nenhuma marca consegue entregar sozinha, transmite critério", explica.
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Essa mudança de percepção também é observada no cotidiano do mercado. Edmar Dias da Silva, responsável pela relojoaria Relógios e Cia., acompanha de perto o comportamento dos consumidores e reforça que o acessório segue ligado ao prestígio social. "Sempre representou um símbolo de status, principalmente para quem valoriza a alta relojoaria, gosta de relógios com complexidade de mecanismo, então a gente vê isso associado a algumas pessoas que realmente evidenciam ter dinheiro e, muitas vezes, essas tendências estão ligadas a um certo poder", afirma.
Para além do status, o relógio desempenha um papel importante na construção da imagem pessoal e profissional. Vinnicius aponta que o acessório pode assumir diferentes funções, dependendo da relação de quem o usa com ele. "O relógio contribui de formas completamente diferentes, dependendo da relação que a pessoa tem com ele, e acho importante separar essas duas realidades."
De um lado, está o uso como ferramenta social. "Para quem usa relógio como acessório, existe um jogo social acontecendo. Um relógio caro no pulso ainda vende uma imagem de sucesso, independentemente do que a pessoa fez ou faz para estar ali. E isso funciona, não vou fingir que não. O relógio virou uma espécie de pulseira social que abre portas, gera percepção, cria acesso", destaca.
Por outro, há o universo dos entusiastas, em que o valor simbólico supera o financeiro. "Do lado do entusiasta, a lógica é outra. O relógio não está no pulso para construir imagem, está lá porque aquilo é o gosto da pessoa tomando forma em um objeto. É quase uma declaração do que você valoriza, do que você acha bonito, do que você acredita."
Além da tecnologia
Essa dualidade ajuda a explicar por que o relógio continua relevante, mesmo diante da tecnologia. "O celular nunca foi concorrente do relógio de verdade. O celular diz as horas. O relógio faz uma escolha. São coisas completamente diferentes", resume Vinnicius.
Edmar também observa esse movimento de coexistência entre o tradicional e o digital. Segundo ele, o mercado não perdeu força com a chegada dos dispositivos inteligentes. Ao contrário. "Os representantes de vendas sempre falam que a indústria do relógio sempre está crescendo, nunca diminuiu."
As mudanças também aparecem no design e nas diferenças entre modelos masculinos e femininos. Se antes havia uma divisão mais rígida, hoje as fronteiras se tornam cada vez mais fluidas.
Vinnicius destaca que o universo masculino tem resgatado características antes associadas ao feminino. "O que a gente vê hoje é o mercado masculino resgatando proporções que por décadas foram associadas ao relógio feminino: caixas menores, pulseiras mais finas, designs mais simples."
Edmar complementa essa análise ao observar as transformações ao longo do tempo. "Os relógios masculinos e femininos mudaram, principalmente no tamanho. No passado, você tinha um formato pequeno para relógios femininos e um pouquinho maior para o masculino. Com o passar dos anos, esse formato aumentou, ficaram relógios maiores."
Influência vintage
Apesar disso, outro fenômeno que ganha força é o retorno dos modelos vintage, especialmente aqueles com pulseiras mais finas e estética discreta. Para Vinnicius, essa tendência é resultado de uma combinação de fatores. "Tem algumas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Primeiro, uma reação ao excesso. Os anos anteriores foram dominados por relógios grandes, pesados, agressivos", ressalta.
Ele também aponta a valorização de peças com história. "O vintage carrega uma narrativa que o novo não consegue ter. Um relógio que já passou por décadas de uso conta uma história que nenhuma linha de produção consegue fabricar do zero."
Edmar observa que o mercado acompanha essa demanda por releituras. "Algumas empresas, inclusive, resgatam modelos antigos e fazem uma repaginação, fazem uma adaptação, uma releitura, vamos dizer assim, para o momento de hoje", reforça.
A influência da cultura pop também tem papel importante nesse cenário. Filmes, celebridades e eventos como o Oscar ajudam a impulsionar tendências e despertar o desejo do público. Vinnicius cita como exemplo o impacto do cinema. "Quando o relógio da marca Hamilton apareceu no pulso do personagem Cooper, no Interstelar, o interesse pelo modelo Murph explodiu. As pessoas foram pesquisar, queriam entender o que fazia aquele relógio ser especial, além do fato de estar em um filme icônico."
Para Edmar, essa presença midiática é constante e estratégica. "No Oscar, você vê ali o desfile de relógios famosos. Eu olho muito esses jogadores de basquete americanos, que também estão ali sempre ostentando os relógios caros, isso é muito comum." Esportes de alto padrão também contribuem para essa associação entre relógio e status. "Por exemplo, você vê o pessoal com certos relógios para praticar polo", acrescenta.
Mesmo com tantas transformações, o relógio mantém sua essência como objeto simbólico. Mais do que funcional, ele continua sendo uma extensão da identidade de quem o usa.

Revista do Correio
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